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novembro 01, 2005
Halloween em Portugal
Assistiu-se um pouco por todo o lado aos festejos do Halloween. Desde há uns anos a esta parte, o costume surgiu também entre nós, ou melhor, ressurgiu entre nós.
É comum escutarmos os críticos da praxe com o discurso costumeiro de que Portugal é um país de imitadores, que só gostamos de ter aquilo que os estrangeiros têm, que só gostamos de fazer aquilo que os estrangeiros fazem... Que injustiça!
Quem conheça o amor do português pelas suas tradições, o seu amor pela história e cultura do seu país, só poderá ficar indignado com estas opiniões! Haverá povo algum mais pronto a abdicar de todas as pressões culturais estrangeiras para defender as suas tradições do que o português?
Este nobre país cujos governantes não descansam enquanto não promovem lá fora os nossos vinhos, a riqueza da nossa gastronomia, a nossa música, a nossa História, as nossas paisagens?
Este nobre país que há anos compreendeu a importância vital de um instrumento como a guitarra portuguesa (só para citar um exemplo), instrumento único no mundo, tendo desde cedo promovido a construção de locais de ensino, perpetuação e preservação do legado musical desse cordofone, para passar a sua tradição às novas gentes?
Pois são injustos, como vemos, estes críticos que se assustam com certas pressões culturais estrangeiras! E logo em Portugal! Tenham vergonha...
Comecei por falar no Halloween e já estarão todos a pensar para onde é que vai este post.
Pois bem... O Halloween não é uma importação cultural!
Ora tomem, ó críticos maldizentes, que só sabem denegrir este nosso país tão patriota e orgulhoso de si mesmo!
O Halloween é bem português!
O Afixe foi ao interior profundo de Portugal e fez uma longa pesquisa etnográfica.
E o que encontrámos nós?
Encontrámos a tradição perdida da Festa da Alduína!
A Alduína, diz a lenda, era uma bruxa que aterrorizava as populações porque era daquelas que andavam de vassoura e tinham uma higiene oral terrível.
Há quatrocentos anos, todos os meninos e meninas tinham medo da Alduína!
E os pais e as mães, para os sossegarem, faziam uma festa pelo 1 de Novembro na qual os miúdos podíam ir de porta em porta, vestidos de Alduína, à cata de bolotas caramelizadas. Quando batiam à porta, eles diziam:
"Trincó dente!", que era como quem queria dizer: "Ó tia Alice, venham daí umas bolotas caramelizadas!".
E foram os nossos grandes amigos (e velhos aliados) ingleses, durante os tempos em que nos prestaram o belo trabalho de nos ajudar a rechaçar os nossos outros grandes amigos franceses, que levaram daqui a tradição da Festa da Alduína. Não contentes por nos limparem as pratas e o ouro dos altares e das casas, os nossos amigos e aliados ingleses, como soldo pela ajuda contra os exércitos napoleónicos, fanaram-nos a Festa da Alduína!
Passados dois séculos, o país esqueceu-se da Alduína. Os ingleses levaram a tradição da Alduína para os Estados Unidos da América, onde se difundiu com o nome espúrio de Halloween. Hoje, erradamente, julga-se que o Halloween é uma festa "dos amaricanos", e que se devem pôr as nossas crianças a dizer, de boca aberta e dentes cariados, mas num sotaque impecável do British Council, um belo "Trick or treat"!
Errado! Antigamente dizia-se "Trincó dente!".
Está na hora de fazer renascer o orgulho que deveríamos sentir por uma das mais antigas tradições do nosso país!
Afixado por Bernardo Motta em 1 de novembro de 2005, às 00:00
Afixadelas
Isto é verdade, ou é fruto da nossa necessidade de afirmação portuguesa? A analise convence...
Afixado por Luis V em 3 de novembro de 2005, às 08:08
Caro Luis,
O que escrevi é uma sátira à forma como o português se posiciona, há séculos, face à cultura estrangeira.
É evidente que eu sou um forte crítico do empobrecimento e esvaziamento cultural do nosso país, para dar entrada a todo o tipo de lixo que vem do estrangeiro.
Não quero parecer chauvinista!
A boa cultura não tem fronteiras. Sou capaz de apreciar o que de melhor se faz, e se fez, lá fora. O problema nasce, julgo eu, quando por deslumbramento tosco preferimos o mau estrangeiro ao bom nacional.
O caso dos festejos do Halloween é particularmente imbecil. Não vou comentar as tristes figuras de homens feitos, e mulheres de família, a andarem pela rua vestidos de bruxos e bruxas. Gente pateta!
O que me parece especialmente tragicómico é pensar o oposto: alguma vez veríamos a Festa dos Tabuleiros (culturalmente muito superior à patetice do Halloween) a ser feita na Times Square em Nova Iorque?
É esta falta de bom senso que me aflige.
Nada tenho contra as crianças americanas que se divertem no Halloween. A minha crítica incide sobre os adultos portugueses que o fazem, e obviamente, sobre o pais que promovem nos seus filhos o festejo de ocasiões que nada têm a ver com a nossa cultura.
O caso do 1 de Novembro é também particularmente ilustrativo do esvaziamento do religioso que está em marcha há mais de um século no nosso país. A promoção do consumismo do Halloween no nosso país não funciona sem o esvaziar do sentido do feriado religioso nacional: o dia de Todos os Santos. Uma lenta descristianização da sociedade à qual não se pode ficar indiferente.
Não queria, contudo, fazer desta questão uma questão religiosa, uma vez que é toda a cultura nacional que está em risco, e não apenas a faceta cristã dessa cultura.
Um abraço,
Afixado por Bernardo em 3 de novembro de 2005, às 14:03
Ah, e para quando em Portugal o festejo do "Thanks Giving"? O comércio das aves agradecia!
As pessoas só se apercebem da figura ridícula que fazem quando as coisas vão longe demais...
Afixado por Bernardo em 3 de novembro de 2005, às 14:10
