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novembro 04, 2005
Instantâneos Cingaleses - VII

O relógio marcava as oito da manhã quando nos começámos a aproximar de Sigiriya, a Montanha do Leão. Estavam quase trinta graus centígrados! Um dos locais mais fascinantes do Mundo, Sigiriya é ao mesmo tempo um marco geográfico e histórico. Trata-se de uma formação rochosa de origem vulcânica: um planalto localizado a duzentos metros de altura que se ergue no meio da selva.
Este rochedo foi o palco de um breve reinado, do rei Kasyapa (477-495 d.C.). Segundo o Mahavamsa, a grande crónica nacional do Sri Lanka, este rei assassinou o seu pai Dhatusena, que reinava na antiga capital Anuradhapura. O parricida usurpou o trono que pertecia ao seu irmão Mogallana, que em breve procurou vingar-se. Para se proteger, Kasyapa construiu em Sigiriya uma fortaleza inexpugnável. A fotografia seguinte mostra um dos lados escarpados do rochedo, evidenciando uma estrutura em madeira que foi construída pela primeira vez no século XX para visitas turísticas.

Contudo, a fotografia também mostra uma parede de cor alaranjada que é a original! O excelente estado de conservação desta parede deve-se ao facto de este lado do rochedo estar mais protegido das chuvas. Do lado de dentro do muro, espalhava-se cera e polia-se a superfície. As centenas de mulheres do rei Kasyapa penteavam-se e pintavam-se reflectidas no polimento do muro, antes de estarem dignas para aparecerem perante o monarca.
Sigiriya é um local inesquecível. Hectares de selva densa esconderam durante catorze séculos um impressionante achado arqueológico: um grande complexo de piscinas, fontanários e jardins que eram usados por Kasyapa para servirem o seu palácio de verão, também ele edificado nos terrenos que circundam a base do rochedo. O tamanho das piscinas é enorme, e eram todas feitas em tijolo. Ainda hoje em dia, na época das chuvas, a pressão das águas nos reservatórios faz com que as fontes originais funcionem, aspergindo água em vários pontos dos jardins!
No Inverno, Kasyapa refugiava-se no topo do rochedo, no seu palácio repleto de luxos. Dispunha também de uma piscina em pleno palácio, alimentada com as águas das chuvas, e o palácio era utilizável enquanto houvesse água disponível da última estação pluvial. Estima-se que seria servido por um total de 2.500 pessoas.
Um dia, Kasyapa foi informado da aproximação do seu irmão Mogallana, que vinha com um exército para o capturar. Kasyapa levou as suas tropas para o confrontar. Diz a lenda que o confronto se deu num rio, cada exército ocupando um dos lados. Kasyapa, contemplando os primeiros efeitos da batalha, julgou que os seus homens desertavam, e desesperado, pôs fim à sua vida.
O período áureo de Sigiriya foi, assim, de uns curtos mas impressionantes dezoito anos.
Mogallana ofereceu Sigiriya aos monges budistas, que rapidamente transformaram o palácio de opulência num austero mosteiro. Os frescos, que muitos deles retratavam belas mulheres em trajes reduzidos, foram picados pelos monges: afinal, os atributos generosos da beleza feminina não eram adequados à correcta meditação sobre os ensinamentos de Gautama Buda!

Da enorme riqueza de frescos da altura, restam apenas meia dúzia deles, protegidos numa das escarpas do rochedo, e que naquele tempo estavam inacessíveis ao zelo destruidor dos monges. O que se vê na fotografia é ainda o fresco original, com as cores originais feitas à base de minérios e plantas. Nada disto foi retocado!
Subir a Sigiriya não é para qualquer um! São milhares de degraus sob um sol escaldante. Deve-se ir o mais cedo possível, ou o mais tarde possível, mesmo antes do nascer do sol ou mesmo depois do pôr do sol. Além disto, os inúmeros vespeiros não devem ser incomodados pelo barulho dos turistas, senão estes incorrem numa corrida algo perigosa e precipitada para o abrigo mais próximo, que fica a meio da subida! É um percurso extenuante mas que compensa todo o esforço.
Sigiriya devia ser considerada como uma das maravilhas do mundo antigo.
Para saber mais:
The Wonder and Beauty of Sigiriya
Galeria de fotografias de Sigiriya
Afixado por Bernardo Motta em 4 de novembro de 2005, às 10:08
