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novembro 27, 2005

O crucifixo. Ai Deus e u é!

Mário,

meu estimado co-aphixador, o teu desafio suscita-me diversas respostas soltas, passíveis de desenvolvimento, designadamente do ponto de vista do sarcasmo. Mas fico-me por estas:

Uma resposta política: constitucionalmente, a República Portuguesa é aconfessional, e não laica, o que significa muito simplesmente que deve garantir a liberdade religiosa, não privilegiando credos específicos. Significa também que não existe uma Igreja ou credo nacional do Estado. Por outro lado, não é certamente por decretos de laicidade voluntarista dos órgãos da República Portuguesa que Portugal deixará de ser o que é sociologica ou historicamente. Preferencialmente, num país sem complexos provincianos importados, as escolas públicas deveriam poder exibir e conter as manifestações, valores e expressões das comunidades em que se inserem, seja numa escola de Loures, seja numa escola primária em Carrazeda de Ansiâes - todas as expressões, designadamente as religiosas, etnográficas, musicais, literárias, artísticas, etc. Deveria ser inclusiva da realidade cultural de uma comunidade e não exclusiva.

uma resposta irónica: espero sinceramente que, ficando rigorosamente discriminados os planos entre escolas públicas laicas e colégios religiosos, estes últimos se tornem bem mais selectivos na admissão dos seus alunos, designadamente, convidando os deputados laicos da Nação que os procuram para a educação dos respectivos filhos a entregarem os seus dilectos rebentos à sublime instrução da escola pública. Espero sinceramente que não esteja apenas reservada para a plebe a ditosa instrução laica pública!

uma resposta do ponto de vista de um cristão: podem levar o crucifixo. Estudei numa escola sem crucifixo. Não tive educação religiosa, nem na escola, nem na família. Não fui baptizado pelos meus pais. Estes apenas me proporcionaram aquilo por que basicamente lhes estou grato: meios materiais, uma boa biblioteca, autonomia nas decisões, liberdade de espírito e alguns genes sefarditas. Aos treze anos dei por mim na minha estrada de Damasco e aconteceu-me querer ser cristão. Tratei do meu baptismo e, hélas! juntei-me à seita, sem quaisquer constrangimentos. Por uma opção livre, pessoal e instransmissível. Posteriormente, deixei de me identificar com a prática religiosa e com a construção teológica de alguns dogmas da minha Igreja enquanto instituição e, por uma questão de honestidade comigo e com ela, adormeci dela. Continuo a saber o que é a Fé, e que o sagrado inclui e supera as margens do estritamente religioso, mas isso é lá comigo e com Ele.

De qualquer forma, não gosto de crucifixos. Prefiro o Agnus Dei.

agnus dei.jpg


Afixado por Gibel em 27 de novembro de 2005, às 13:52

Afixadelas

Boa "posta"!
Não me tenhas como anti-clerical. Descendo de uma família em que só padres eram... muitos, designadamente jesuítas de grande estatura moral e intelectual. Isto por si poderia não querer dizer nada, mas a verdade é que os admiro a todos profundamente, como um tio meu que vive em Bombaim e trabalha todo o dia com a miséria mais miserável, num trabalho que acho que nenhum de nós é capaz sequer de imaginar, de entrega, de dádiva, de sofrimento feliz.
Um dos líderes da comunidade jesuítica é, aliás, meu primo. Um dos meus tios mais próximos (que já morreu) foi prior da Ajuda e de Carcavelos, com uma obra comunitária invejável.

Gosto, no entanto, de ver as coisas bem delimitadas. Não são os (imensos) católicos que a eles tanto lhes faz os crucifixos, porque a sua espiritualidade é verdadeira, a sua coerência um modelo e a sua tolerância infinita, que me assustam. Pelo contrário. Mas os que defendem as simbologias, a "invasão de campo" e a superioridade dos que são católicos só pelo facto de estarem nesse grupo de pertença (esquecendo por isso ser necessário manter comportamentos éticos irrepreensíveis), é que constituem um perigo para o relacionamento democrático interpessoal e grupal.
Concordo que há muitas hipocrisias de ambos os lados. Mas não vejo superioridades nem inferioridades à partida.

O teu exemplo é um dos que defendo: as crianças não deveriam ser baptizadas à nascença - deveriam sim, quando sentissem o apelo, numa fase mais próxima da "idade da razão", decidirem se queriam ou não aderirem a uma igreja.
Tenho para mim que as igrejas são caminhos que podem ajudar uns (e porventura não outros, e ainda desajudar terceiros) a encontrar vias de aperfeiçoamento, de bem-estar, de companhia, e exemplos modelares, mais do que uma fonte de bons conselhos.

Se, até agora, nunca perdi uma hora de sono por haver um crucifixo numa escola, também não acho que um católico deva perdê-la por não o haver.
Reacções destemperadas a "cheirar ao político" é que, como dizia o outro, "fazem-me espécie".
Abraços e acho que estas discussões é que nos ajudam a pensar.
Mário
PS: sendo "cordeiro", como não concordar com o Agnus Dei!

Afixado por Mário Cordeiro em 27 de novembro de 2005, às 16:23

Excelente post... Falta muito deste bom senso quando se abordam questöes como esta. Querer transformar a questäo dos crucifixos num atentado contra a Igreja e os católicos näo é só exagero... é patetice.

Afixado por Manuel em 27 de novembro de 2005, às 21:50

Excelente post... Falta muito deste bom senso quando se abordam questöes como esta. Querer transformar a questäo dos crucifixos num atentado contra a Igreja e os católicos näo é só exagero... é patetice.

Afixado por Manuel em 27 de novembro de 2005, às 21:52

Excelente post... Falta muito deste bom senso quando se abordam questöes como esta. Querer transformar a questäo dos crucifixos num atentado contra a Igreja e os católicos näo é só exagero... é tolice.

Afixado por Manuel em 27 de novembro de 2005, às 21:53

Excelente post... Falta muito deste bom senso quando se abordam questöes como esta. Querer transformar a questäo dos crucifixos num atentado contra a Igreja e os católicos näo é só exagero... é patetice.

Afixado por Manuel em 27 de novembro de 2005, às 21:54

Excelente post... Falta muito deste bom senso quando se abordam questöes como esta. Querer transformar a questäo dos crucifixos num atentado contra a Igreja e os católicos näo é só exagero... é patetice.

Afixado por Manuel em 27 de novembro de 2005, às 21:54

Como devem ter reparado, tive um problema na "afixadela"... e deu nesta repetiçäo toda! Patetice minha. Desculpem...

Afixado por Manuel em 27 de novembro de 2005, às 21:57

Num país em que a Escola (a tal que pertence ao ministério da "educação") assiste anualmente, impávida, ao espezinhar dos direitos, liberdades e garantias constitucionais, a atentados boçais dos mais básicos direitos humanos, ao bolsar de regras básicas de educação (democrática e republicana, já agora), a coberto de uma coisa extraordinária chamada "praxe académica"... este assunto soa-me a folclore!
"Coa-se o mosquito e deixa-se passar o camelo".
Curiosamente as escolas continuam a pedir atestados "de robustez" aos alunos que se matriculam: deve ser para ver se aguentam a dita.

Afixado por CarLoS em 27 de novembro de 2005, às 22:47

É curioso observar o instinto primitivo da Igreja Católica tentando sempre a imposição das suas ideologias e símbolos. Não muda, mas estou certo que as pessoas vão vergá-la, mais tarde ou mais cedo.

Afixado por Nuno Costa em 7 de dezembro de 2005, às 23:06

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