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novembro 04, 2005
Pobres Templários...

Nestes últimos anos, assiste-se a um crescer exponencial do interesse pela ordem medieval dos Templários. Evidentemente, a massificação do interesse é sempre compensada pela superficialidade desse mesmo interesse. Nunca tantas pessoas terão falado tanto sobre os Templários como nos últimos anos. Contudo, também nunca se disseram tantas asneiras sobre eles como agora!
A ideia errada de que uma sociedade secreta como o Priorado de Sião é descendente da Ordem do Templo faz hoje parte de milhares de obras conspiratórias de pseudo-história. Também esta mesma ideia alimenta rios de obras de ficção que se multiplicam pelos escaparates das livrarias até esgotar todo o espaço de venda.
Contudo, tal ideia está longe de ser novidade. Os Templários são a "grande prostituta" do universo do esoterismo de má qualidade. Há séculos que grupos e grupelhos esotéricos procuram inserir na sua imaculada ascendência a dignidade e o prestígio de uma ligaçãozinha à Ordem do Templo.
É interminável a lista de organizações esotéricas ou semi-esotéricas que recrutam membros com base na afirmação de que descendem dos últimos Templários. No século XVIII, discutia-se, em certos meios, se a Maçonaria era ou não herdeira (nem que fosse "espiritual") da Ordem do Templo. No século XX, a discussão mantém-se, mas em torno do Priorado de Sião. Mais recentemente, através da publicidade feita pelos media, assistimos ao trágico final da Ordem do Templo Solar, criação do maníaco Luc Jouret, quando dezenas de membros morreram imolados pelo fogo. Este caso extremo demonstra bem a perigosidade da alienação que certos grupos exercem sobre as mentes mal preparadas dos seus elementos.
Os pobres cavaleiros de Cristo surgem, nestas organizações, travestidos de hereges, de profanadores, carregados com todo o tipo de metamorfoses anticrísticas, para servirem o propósito de serem inimigos secretos do catolicismo romano.
A versão "oficial" destes movimentos pseudo-esotéricos é sensivelmente a mesma: os Templários, portadores de um qualquer grande segredo esotérico, teriam sido sufocados e destruídos pelo Papado para que esse segredo não viesse a lume. Versões mais eruditas destas lendas esotéricas afirmam, fazendo alguma justiça à História, que a culpa da extinção dos Templários não pertence ao Papado mas sim à Coroa de França, mais concretamente ao monarca Filipe IV, o Belo. É verdade, mas nestas versões encontramos a ideia não provada de que os Templários praticavam rituais esotéricos secretos, centrados nalgum arcano que seria herético para a Igreja Católica.
Por tudo isto, nenhuma organização medieval está a precisar mais de uma lavagem de imagem do que estes pobres cavaleiros. Muitos deles seriam brutos e incultos, é certo, mas não merecem a injustiça a que assistimos nos dias de hoje.
Deste modo, é de louvar a intervenção da Dra. Barbara Frale, italiana, da Scuola Vaticana di Paleografia, que tem produzido nos últimos anos uma vasta documentação sobre os Templários. Em Português, está disponível nas livrarias uma obra sua sobre os Templários, uma obra que vale a pena ler.
A sua descoberta, em 2001, nos Arquivos do Vaticano, do chamado Pergaminho de Chinon (nome do castelo onde os altos dignitários templários estiveram detidos), veio revolucionar o trabalho dos investigadores que se dedicam a este tema.
Até 2001, era tese comumente aceite que os Templários tinham sido extintos basicamente por duas razões principais: por um lado, a vontade indómita do monarca francês Filipe IV em se apoderar dos bens e do poder da Ordem; por outro lado, a fraqueza do papa Clemente V (Bertrand de Got), também ele francês e cujo papado estava sedeado em França, em Avignon, em lidar com a pressão diplomática do rei Filipe e em evitar ser manipulado. Por outras palavras, Clemente V teria sido coagido a condenar os Templários, o que teria aberto as portas para o uso da força por parte de Filipe IV.
O resto já se sabe...
Foi numa sexta-feira, 13 de Outubro de 1307, pela aurora, que Jean de Verretot, o bailio de Caen, reuniu à sua volta algumas pessoas da sua confiança e lhes deu a conhecer o teor da carta que lhe enviara o rei Filipe a 14 de Setembro último:
“Uma coisa amarga, uma coisa deplorável, uma coisa seguramente horrível de pensar (…). Um crime detestável, um acto execrável (…). Uma coisa totalmente desumana, ou pior, estranha a toda a humanidade, chegou, graças ao relato de várias pessoas dignas de fé, aos nossos ouvidos (…). Os irmãos da ordem da milícia do Templo, escondendo o lobo sob a aparência do cordeiro e, sob o hábito da ordem, insultando miseravelmente a religião da nossa fé (…) negam a Cristo, cospem sobre a cruz (…) entregam-se a gestos obscenos (…) e obrigam-se, por voto da sua profissão, e sem temor de ofender a lei humana, a entregarem-se uns aos outros, sem se recusarem, sempre que se lhes pedir (…). Atendendo que a verdade não pode ser descoberta de outra forma, que uma suspeita veemente se estendeu a todos (…) decidimos que todos os membros da dita ordem do nosso reino sejam detidos, sem excepção alguma, mantidos prisioneiros e reservados ao julgamento da Igreja, e que todos os seus bens, móveis e imóveis, sejam capturados, colocados sob a nossa mão e fielmente conservados (…). É por isso que vos encarregamos e vos prescrevemos rigorosamente no que respeita ao bailio de Caen.”- Alain Demurger, Vie et Mort de l'Ordre du Temple, pp. 298-299.
O trabalho da Dra. Barbara Frale traz, contudo, informação nova surpreendente. O dito Pergaminho de Chinon consiste nas actas de um julgamento papal, realizado secretamente por Clemente V à revelia do rei francês, aos altos dignitários da Ordem. O Papa teria insistido em interrogar pessoalmente os dirigentes templários, na tentativa de ajuizar em primeira mão o teor das acusações. Frale, num artigo intitulado The Chinon chart - Papal absolution to the last Templar, Master Jacques de Molay (publicado no Journal of Medieval History, Volume 30, N.º 2, Junho de 2004, pp. 109-134), demonstra que o papa Clemente aceitou as justificações dadas pelos Templários no referente às acusações de heresia e blasfémia. Clemente V aceitou a explicação de que os casos de sodomia eram esporádicos e aceitou a explicação dada para existência de inúmeros relatos de cerimónias "heréticas". Os altos dignitários explicaram ao Papa que tais práticas consistiam num exercício preparatório para os cavaleiros, na expectativa do que teriam de enfrentar sob cativeiro mouro e sob tortura. A justificação era esta: se os cavaleiros fossem capturados e obrigados a abjurar a fé e renegar Cristo, então deveriam estar preparados e treinados para negarem Cristo com o corpo, e se necessário cuspir na Cruz, mas não negarem Cristo com o espírito.
Clemente V aceitou a explicação e absolveu secretamente os Templários!
O Pergaminho de Chinon, finalmente descoberto em 2001, demonstra-o cabalmente!
Assim, a desfaçatez das acções de Filipe IV de França tornam-se ainda mais nítidas. O Papa, possivelmente temendo uma situação de cisma, não publicou a acta de absolvição dos pobres cavaleiros, eliminando assim a possibilidade de travar o impulso indómito do rei francês. Ficam ainda por determinar com clareza os contornos da espionagem e diplomacia que resultaram na ocultação desta acta de absolvição, que assim selou o destino do grão-mestre Jacques de Molay e dos seus subordinados.
Esperemos que este "banho de realidade histórica", servido pela Dra. Frale, arrefeça um pouco os entusiasmos pseudo-esotéricos daqueles que andam a ganhar muito dinheiro com a adulteração da verdade histórica e à custa da ignorância do leitor comum sobre estes temas.
Não queria, contudo, com este mísero texto, riscar todo o mistério da História do Templo. Há ainda muito por explicar, e seria precipitado e ingénuo afirmar que todos os mitos sobre os Templários nascidos nos meios esotéricos são totalmente falsos. Sobretudo, os mitos mais antigos e não adulterados podem ter ainda muito para nos contar...
Afixado por Bernardo Motta em 4 de novembro de 2005, às 18:58
Afixadelas
Caro Bernardo,
Mais uma vez um post interessante. Embora não tenha a sua "pedalada" arrisco aqui umas palavrinhas.
Mesmo sendo um tema que me atrai (tal como a outros milhares) não conheço a história dos Templários com muita profundidade. Mas já tinha depreendido que a condenação da Ordem se deveu fundamentalmente a Filipe, que para levar até ao fim os seus intentos precisava da "colaboração" do Papa. E se este realmente ficou numa situação no mínimo delicada, também não será mentira concluir que optou pela via que lhe era mais favorável, o que o Pergaminho de Chinon só vem confirmar: mesmo sabendo e aceitando as explicações dos cavaleiros pactua na sua condenação!
Não sei se o fez porque também queria ocultar um grande segredo, penso que teria mais a ver com o poder que os Templários representavam e que de algum modo constituía um obstáculo quer à Igreja Papal quer a Filipe IV de França.
Para lá de toda essa mitologia que rodeia a Ordem Templária, e que decerto parte de indícios deixados pelos cavaleiros a quem compreendesse a sua linguagem, não será menos interessante o que se seguiu á sua fatalidade: quando se dispersam e "transformam" noutras ordens por essa Europa, em particular na nossa Ordem de Cristo que muitas histórias encerra. A propósito das suas obras leia-se os escritos do historiador de arte Paulo Pereira, que até elaborou a sua tese de mestrado em torno de uma temática directamente relacionada com os Pobres Cavaleiros de Cristo. Aliás, este historiador, partindo de uma abordagem iconológica, desenvolve inspiradoras interpretações de algumas importantes obras da arte portuguesa.
E quem fala em Templários fala no Priorado de Sião "do" Bernardo, e daí naturalmente chegamos a Maria Madalena. . .No primeiro post, e único até agora, que escrevi neste blog, tinha referido o nome de Javier Sierra como o "Dan Brown" espanhol, mas na minha modesta opinião mais interessante pois, para além de nos levar para o universo do misterioso e esotérico que alimenta a nossa fantasia, procura, como o próprio diz:"oferecer explicações plausíveis para alguns dos grandes enigmas que nos rodeiam", através de investigação, mas na linguagem do romance, portanto da ficção, o que pode induzir à confusão no leitor mais ingénuo (onde é que já ouvi isto?). (Ao mesmo tempo acaba por ser um esquema de defesa do próprio autor, e não faz mais, à sua escala, do que o próprio Umberto Eco.)
Pois bem, no seu livro "O segredo da Última Ceia" constrói uma história passada no séc.XV, quando Leonardo Da Vinci pinta exactamente aquela obra, para transmitir uma mensagem da religião cátara da qual ele era seguidor. Num último nível de significação esta mensagem ocultaria o "verdadeiro " segredo de Maria Madalena: esta "amou com todo o coração o Filho de Deus, mas Este tinha vindo ao mundo com uma missão mais importante que a de constituir familia com ela e, assim, Madalena teve de aprender a amá-lO de uma maneira diferente.(...)viu Jesus ressuscitado, feito Luz, fora da sepultura (...)viu Jesus vivo, mas não em corpo mortal. O seu cadáver descansava ainda na sua sepultura quando ela encontrou o seu "corpo de Luz". Impressionada, decidiu roubar os restos do Galileu, escondendo-os em sua casa, onde os embalsamou com esmero, levando-os para França quando começaram as perseguições do sinédrio. Esse e não outro era o segredo: Cristo não ressuscitou em corpo mortal. Fê-lo na Luz, mostrando-nos o caminho para a nossa própria transmutação quando chegar o nosso dia."
Depois pelo meio existem interessantes referências à carta da Papisa do Tarot Visconti-Sforza e ao simbolismo do Nó, a um texto sagrado para os cátaros "Interrogatio Johannis" e ao sacramento "Consolamentum", e à "Ars Memoriae" ou Arte da Memória, um intricado sistema de leitura codificada de imagens de tradição grega, já objecto de um profundo estudo na obra fulcral de Frances Yates "The Art of Memory".
Por hoje fico por aqui. Até breve, Maria
Afixado por Maria em 6 de novembro de 2005, às 23:49
Bernardo,
tenho tido pouco tempo para blogar e lá vens tu atirar-me com um engodo destes, hã provocador? Mas "olhe que não, olhe que não". As coisas não são bem assim.
O episódio de Chinon, no contexto de todo o processo dos templários (das várias inquirições e sindicâncias realizadas ao longo de vários anos), está bem estudado pela historiografia séria. Não se tratou de um episódio isolado ou secreto: está perfeitamente documentado, designadamente por documentos eclesiásticos. E analisado, designadamente por um grande historiador, o veterano Prof. Malcom Barber de Cambridge. Sem querer desfazer na Sra. Frale, uma jovem historiadora italiana, acho que ela se precipita nas conclusões apressadas que retira de um manuscrito ao qual, curiosamente, tem sido recusado o acesso a outros historiadores. A história deste manuscrito já leva uns três anos e o mesmo causa-me algumas perplexidades justamente porque não bate certo com a restante documentação idónea existente sobre Chinon.
Sem prejuízo de um comentário mais alongado em forma de posta:
- absolver dos pecados os mais altos dignitários da Ordem não é juridicamente a mesma coisa que absolver a ordem; há conceitos que estão a ser confundidos pela Sra. Frale: veredicto, absolvição, etc.; juízo sobre elementos da Ordem e juízo sobre a Ordem são coisas diferentes e que foram largamente debatidas na polémica que envolveu todo o processo dos templários (ou processos, para sermos mais rigorosos); juízo temporal e juízo canónico, etc.
- a comissão de três cardeais de Chinon, que procedeu à inquirição aos altos dignitários da Ordem (entre os quais o grão-mestre Jacques de Molay), era composta por cardeais escolhidos pelo Papa. Sucede que à excepção de um deles, os outros dois eram conhecidos pela sua parcialidade e pela sua lealdade ao rei de França. Ou seja, o Papa não se esforçou muito para pelo menos dessa única vez em que teve oportunidade de efectuar a inquirição mais importante de todas, sem os constrangimentos do julgamento "temporal" de Filipe o Belo, escolher eclesiásticos justos e imparciais para proporcionar o mínimo de dignidade a um juízo canónico sobre a Ordem do Templo.
- A inquirição decorreu da pior forma possível para a Ordem, pela simples razão de que os interrogados, que já haviam anteriormente renegado as confissões, voltaram a reiterá-las, inclusivamente Jacques de Molay!!!! Em suma, foi um desastre!
- Por outro lado, o Papa nunca foi a Chinon, manteve-se sempre a cerca de dezasseis léguas apenas para ser informado do desfecho (que era previsível, face à qualidade dos enviados), apesar de essa sempre ter sido a derradeira esperança de Jacques de Molay e dos restantes dignitários da Ordem que sempre viram gorado o seu insistente pedido para serem julgados pela Santa Sé e não pelo Reino de França.
Face a este quadro, estranho seria que deste evento histórico resultasse um documento como este "conveniente" manuscrito. Não bate certo: só pode explicar-se ou por apócrifo, ou por genuíno, mas falso no seu conteúdo - talvez uma forma de Clemente V entregar a alma ao Criador sem remorsos, deixando escrito que vá lá! no fim até lhes perdoou os pecados!
Quanto ao resto tens razão: o julgamento foi dirigido, planeado e concluído essencialmente por Filipe o Belo e não pelo Papa. Mas foi justamente disso que os templários mais eruditos juridicamente (que eram muito poucos! estamos a falar de cavaleiros, não de doutores!) sempre se queixaram, sustentando a ilegitimidade dos juízes (embora muitos deles fossem cardeais) para os julgarem e exigindo um julgamento presidido pelo Papa.
Mas não há volta a dar: Clemente V poderia ter feito mais, tanto mais que teria a solidariedade de quase todos os Monarcas europeus!
Depois, com tempo, poderei desenvolver melhor o episódio de Chinon. Apenas quero salientar isto: acho as conclusões da Dra. Frale demasiado voluntariosas e generosas para a Santa Sé, mas pouco coerentes com todos os dados históricos já recolhidos (pela historiografia séria, é bem de ver).
abraço
P.S. - não me esqueci do nosso almoço!
Afixado por gibel em 7 de novembro de 2005, às 03:02
Cara Maria,
Antes de mais, obrigado pelo seu comentário.
"Mais uma vez um post interessante. Embora não tenha a sua "pedalada" arrisco aqui umas palavrinhas."
Isso de pedalada é relativo. Há um senhor ali em baixo que anda sempre caladito, e que tem pedalada para fazer a Volta à França e muito mais, enquanto que eu vou só ali à esquina e já volto.
"Mesmo sendo um tema que me atrai (tal como a outros milhares) não conheço a história dos Templários com muita profundidade. Mas já tinha depreendido que a condenação da Ordem se deveu fundamentalmente a Filipe, que para levar até ao fim os seus intentos precisava da "colaboração" do Papa."
Sim, um papa que, ainda por cima, era francês.
"E se este realmente ficou numa situação no mínimo delicada, também não será mentira concluir que optou pela via que lhe era mais favorável, o que o Pergaminho de Chinon só vem confirmar: mesmo sabendo e aceitando as explicações dos cavaleiros pactua na sua condenação!"
O meu post não tinha como intenção ilibar o papa Clemente, longe disso. Não é preciso fazer esse tipo de "limpezas" a posteriori. Quis apenas partilhar algumas das novidades investigativas nesta área.
Clemente não teve a coragem que poderia ter tido. Há quem tente justificá-lo. Barbara Frale fala em receio de um cisma por parte do Papa, mas esta matéria era de disciplina, e não de doutrina, pelo que acho a justificação pouco convincente.
"Não sei se o fez porque também queria ocultar um grande segredo, penso que teria mais a ver com o poder que os Templários representavam e que de algum modo constituía um obstáculo quer à Igreja Papal quer a Filipe IV de França."
Bom, talvez, mas vejamos que esse poder que os Templários possuiam era um poder outorgado pelo próprio Papado... Os Templários eram um obstáculo principalmente para Filipe IV.
"No primeiro post, e único até agora, que escrevi neste blog, tinha referido o nome de Javier Sierra como o "Dan Brown" espanhol, mas na minha modesta opinião mais interessante pois, para além de nos levar para o universo do misterioso e esotérico que alimenta a nossa fantasia, procura, como o próprio diz:"oferecer explicações plausíveis para alguns dos grandes enigmas que nos rodeiam", através de investigação, mas na linguagem do romance, portanto da ficção, o que pode induzir à confusão no leitor mais ingénuo (onde é que já ouvi isto?)."
Repare, Maria, não tenho nada contra isso. A fantasia tem o lugar que merece na literatura. O problema está em quando se quer obter dados reais, de verdade histórica. Aí, o romance pode ser prejudicial. Em casos raros, pode ser benéfico, mas isso apenas sucede quando o autor deseja transmitir, através de um enredo ficcional, um contexto histórico rigoroso.
"para transmitir uma mensagem da religião cátara da qual ele era seguidor"
Este é um bom exemplo, Maria.
É muito pouco provável que Leonardo fosse cátaro. Estas facilidades são legítimas na literatura, desde que o autor não tenha pretensões a grande rigor histórico.
Os últimos cátaros desaparecem do mapa no princípio do século XIV. Veja-se a obra de Ladurie sobre Montaillou, lugarejo no sul de França onde sobreviveram os últimos cátaros antes de desaparecerem.
O neo-catarismo é um movimento recente, e a sua história inicia-se com Jules Doinel, já no século XIX. Entre os séculos XIV e XIX, o catarismo é lenda.
Para mais, Leonardo era uma personagem racional, pouco dada a espiritualidades ou esoterismos. Para mim, não pega, um Leonardo cátaro.
"Esse e não outro era o segredo: Cristo não ressuscitou em corpo mortal. Fê-lo na Luz, mostrando-nos o caminho para a nossa própria transmutação quando chegar o nosso dia."
Sem querer tirar toda a legitimidade ficcional, esta trama que me descreve choca frontalmente com a doutrina cristã. Sem a plena ressurreição de Jesus, do seu corpo, o cristianismo perderia a sua razão de ser.
Repare, Maria, o problema é só este: quando pegamos em ficções como aquela que me descreve e tentamos teorizar sobre Jesus Cristo. Para os cristãos, o relato sobre a vida de Cristo é verdade. É evidente que tomar a sério uma alternativa como a que sugere, mesmo que ela nasça no domínio da fantasia, é sempre um desafio ao próprio cristianismo.
"Por hoje fico por aqui. Até breve, Maria"
Até breve, e mais uma vez, obrigado pela sua participação.
Cumprimentos,
Afixado por Bernardo em 7 de novembro de 2005, às 10:22
Meister Gibel,
"tenho tido pouco tempo para blogar e lá vens tu atirar-me com um engodo destes, hã provocador?"
Se Maomé não vai à montanha...
Vê lá se acordas, preguiçoso!
"Mas "olhe que não, olhe que não". As coisas não são bem assim."
Sou todo ouvidos... Esta história da Barbara Frale chegou-me há pouco tempo aos ouvidos, e ainda não tive hipótese de ler contraditórios.
"Não se tratou de um episódio isolado ou secreto: está perfeitamente documentado, designadamente por documentos eclesiásticos."
Sim, mas este documento é novo, certo?
"E analisado, designadamente por um grande historiador, o veterano Prof. Malcom Barber de Cambridge."
Ele contesta a Frale?
Se me puderes arranjar mais informação sobre o que ele escreveu sobre o tema, agradecia-te.
"Sem querer desfazer na Sra. Frale, uma jovem historiadora italiana, acho que ela se precipita nas conclusões apressadas que retira de um manuscrito ao qual, curiosamente, tem sido recusado o acesso a outros historiadores."
Ela tem poder para isso?
Não me pareceu que ela estivesse alto na hierarquia.
"A história deste manuscrito já leva uns três anos e o mesmo causa-me algumas perplexidades justamente porque não bate certo com a restante documentação idónea existente sobre Chinon."
Bom, mas o documento existe, certo?
Não há uma transcrição dele? Mesmo que os Arquivos do Vaticano não dêem acesso ao documento original?
"- absolver dos pecados os mais altos dignitários da Ordem não é juridicamente a mesma coisa que absolver a ordem; há conceitos que estão a ser confundidos pela Sra. Frale: veredicto, absolvição, etc.; juízo sobre elementos da Ordem e juízo sobre a Ordem são coisas diferentes e que foram largamente debatidas na polémica que envolveu todo o processo dos templários (ou processos, para sermos mais rigorosos); juízo temporal e juízo canónico, etc."
Obrigado pela precisão!
"- a comissão de três cardeais de Chinon, que procedeu à inquirição aos altos dignitários da Ordem (entre os quais o grão-mestre Jacques de Molay), era composta por cardeais escolhidos pelo Papa. Sucede que à excepção de um deles, os outros dois eram conhecidos pela sua parcialidade e pela sua lealdade ao rei de França."
Mas no seu "abstract", a Frale escreve isto:
" In June 1308, at
Poitiers, after a long struggle, he finally achieved
his goal, hearing the confessions of 72 selected
Templars, whom he then absolved."
Segundo ela, esta audiência pessoal teve lugar antes do julgamento enviesado em Chinon. Do que pude perceber, ela não me pareceu estar a alterar o que aqui escreves, ou seja, não me pareceu que a Frale contestasse a parcialidade de alguns dos juízes que inquiriram em Chinon. Contudo, ela baseia-se no Pergaminho de Chinon, e na absolvição por escrito do Papa. Isto tem o peso documental que tem, e na prática, como bem dizes, os pobres homens sofreram um revés trágico. O que os altos dignitários tinham negado antes aos inquisidores, passaram a confessar, o que terá selado o seu destino, com ou sem a absolvição por escrito do Papa.
"Ou seja, o Papa não se esforçou muito para pelo menos dessa única vez em que teve oportunidade de efectuar a inquirição mais importante de todas, sem os constrangimentos do julgamento "temporal" de Filipe o Belo, escolher eclesiásticos justos e imparciais para proporcionar o mínimo de dignidade a um juízo canónico sobre a Ordem do Templo."
Sem querer ilibar Clemente, achas que ele poderia ter lá colocado quem quisesse? Eu não estou a querer tomar partidos, porque isso não faz sentido. Estou apenas a tentar compreender, com realismo, as pressões que jogaram forte em todos estes acontecimentos.
"- A inquirição decorreu da pior forma possível para a Ordem, pela simples razão de que os interrogados, que já haviam anteriormente renegado as confissões, voltaram a reiterá-las, inclusivamente Jacques de Molay!!!! Em suma, foi um desastre!"
Isso sem dúvida!!
E ainda mais trágico o revés final, quando Charnay e Mollay se fazem relapsos. Se bem que indicador de uma grande coragem da parte destes homens!
"- Por outro lado, o Papa nunca foi a Chinon, manteve-se sempre a cerca de dezasseis léguas apenas para ser informado do desfecho (que era previsível, face à qualidade dos enviados)"
Exactamente!
Obrigado pela precisão. Eu estava a confundir as coisas.
"Só pode explicar-se ou por apócrifo, ou por genuíno, mas falso no seu conteúdo - talvez uma forma de Clemente V entregar a alma ao Criador sem remorsos, deixando escrito que vá lá! no fim até lhes perdoou os pecados!"
O teu raciocínio é perfeitamente justo, mas estás disposto a fechar definitivamente a outra hipótese? Ou seja, que Filipe tivesse, através das suas marionetas, manietado o poder deste fraco papa francês e silenciado este documento para sempre? Que Filipe tivesse invertido propositada e descaradamente o veredicto papal?
"Mas não há volta a dar: Clemente V poderia ter feito mais, tanto mais que teria a solidariedade de quase todos os Monarcas europeus!"
Disso não há qualquer dúvida.
"Depois, com tempo, poderei desenvolver melhor o episódio de Chinon."
DEVIAS!!
"Apenas quero salientar isto: acho as conclusões da Dra. Frale demasiado voluntariosas e generosas para a Santa Sé, mas pouco coerentes com todos os dados históricos já recolhidos (pela historiografia séria, é bem de ver)."
Gostava de ver a tua contra-argumentação do artigo dela! Queres que to mande? Ah, e se tiveres material do Barber também gostava de o ler...
Um abraço,
"P.S. - não me esqueci do nosso almoço!"
Acho bem...
Afixado por Bernardo em 7 de novembro de 2005, às 10:41
