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dezembro 28, 2005

Luz

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Jacob saiu de Bersabé e tomou o caminho de Harran. Chegou a determinado sítio e resolveu ali passar a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se de uma das pedras do lugar como travesseiro e deitou-se. Teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu; e ao longo desta escada subiam e desciam anjos de Deus (...). Despertando do sono, Jacob exclamou: «O Senhor está realmente neste lugar e eu não o sabia!» Atemorizado, acrescentou: «Que terrível é este lugar! Aqui é a casa de Deus, aqui é a porta do céu.» No dia seguinte, de manhã, Jacob agarrou na pedra que lhe servira de travesseiro, e, depois de a erguer como um padrão, derramou óleo sobre ela. Chamou a este sítio Betel, quando, originariamente, a cidade se chamava Luz.
- Génesis, 28, 10-19.

Luz.
Uma pequena palavra de três letras...

Ao ler o livro do Génesis, o leitor português imagina que o nome do local onde dormiu Jacob foi aportuguesado, ou seja, que no texto original iria encontrar a palavra hebraica para "luz". Ora bem, engana-se se assim pensa. No original, a palavra hebraica é mesmo "luz". Privilégio sublime da língua portuguesa (e "coincidência" para os tolos que se recusam a ver o óbvio carácter messiânico de Portugal)!
Em qualquer texto verdadeiramente revelado, nada existe por acaso. Os rabis ensinam que nem uma só letra da Torah pode ser mudada, sob pena de todo o texto colapsar em pó. O pensamento tradicional defende que os nomes das coisas, dos lugares, das pessoas, dos objectos, estão intimamente associados à sua essência.
No relato genesíaco, Adão, antes da Queda, vivia em comunhão com Deus, e partilhando da luz divina, conhecia as coisas criadas na sua essência. Deste modo, Adão deu os nomes aos animais e às plantas.
Os nomes por ele escolhidos não eram escolhas ocasionais, movidas por impulsos fantasiosos. O poder de Adão para nomear todas as criaturas vinha-lhe do poder que Deus lhe deu para conhecer as essências das coisas criadas. O homem caído, o homem do Pecado Original, já não tem essa faculdade que tinha o homem primordial.
Deste modo, o autor de um texto revelado, homem caído como todos nós, partilha de um conhecimento imediato, que lhe vem de Deus e não de si, não reflexivo mas intuitivo, por vezes inexprimível (a palavra "mistério", de origem grega, é sobretudo o inexprimível, e não o incompreensível como erradamente se costuma julgar), acerca de uma dada coisa ou criatura. O episódio do sonho de Jacob, um dos mais belos e profundos da literatura veterotestamentária, é disso prova viva.
"Betel", chamou Jacob àquele lugar. "Beth-El", a "Casa de Deus".
Como vemos, Jacob escolhe um nome adequado ao local. Porque nessa noite, Jacob esteve num lugar santo.
O termo hebraico que designa a presença real da divindade no meio de nós é "shekinah". A shekinah é a presença de Deus no mundo. A sarça ardente, avistada por Moisés, foi shekinah, assim como o Santo dos Santos do antigo Templo judaico, onde se dizia que, na mais profunda escuridão, Deus Se manifestava sobre a Arca da Aliança, por entre as asas douradas dos querubins.
Durante o seu sonho, Jacob vê uma escada, símbolo do "axis mundi", o Eixo do Mundo, por onde sobem e descem aquelas criaturas sobre-humanas e infra-divinas, os anjos. De acordo com o simbolismo tradicional, sempre que o Eixo do Mundo cruza o plano da Criação, pode-se afirmar que esse ponto desempenha a função de shekinah, sendo neste mundo como que a "porta do Céu". Reconhecendo o carácter único daquele local, Jacob verte o óleo sobre a pedra, entretanto tornada sacra pela presença de Deus ("beth-el").
Com base neste episódio, os antropólogos e os mitólogos banalizaram o termo "bétilo" para designar, em geral, uma "pedra santa". A Kaaba, em Meca, é um outro exemplo bem conhecido de um bétilo.
Mas onde quero eu chegar?
À palavra "luz", que segundo o Génesis era o nome antigo da uma misteriosa cidade perto da qual Jacob teve o sonho.
Ora sucede que "luz" é também, em hebraico, a palavra que designa o fruto da amêndoa, bem como a árvore, a amendoeira. Dizem as lendas hebraicas que, precisamente neste local chamado Luz, existia uma amendoeira cujas raízes ocultavam um subterrâneo. Este subterrâneo ocultava, por sua vez, uma passagem secreta que conduzia à cidade de Luz, que se dizia jazer sob a terra, num local inacessível.
Nada disto é muito surpreendente, uma vez que a amêndoa oculta o seu fruto dentro de uma casca dura, o que reforça a ideia de inviolabilidade já existente na lenda sobre a cidade de Luz.
Dizem também as mesmas lendas que, contra esta cidade de Luz, o Anjo da Morte nada podia. Vejamos de seguida porquê...
O misticismo judaico dá também o nome de "luz" à pequena parcela do indivíduo humano onde a alma, após a morte, se vai refugiar. Note-se que não se trata aqui de um lugar físico, mas sim de um "lugar psíquico" (recordemos que, em grego, "psyché" significa "alma"), se é que se pode usar uma expressão como "lugar" num domínio extra-espacial e subtil como é o da alma.
Vemos então que, para os judeus, o Anjo da Morte nada podia contra a "Cidade de Luz", porque era o refúgio da alma humana após a morte para o homem temente a Deus. A morte separava o corpo perecível da alma, mas esta, imperecível, refugiava-se nesta região chamada "luz", que representava assim, verdadeiramente, a "Porta do Céu".
O simbolismo é poderoso: a alma que vivifica o corpo humano durante a vida corpórea "anima-o" e permite a este desenvolver-se em todas as suas potencialidades. A alma é individual, mas tem a sua origem e destino na "luz" divina, essa centelha que jaz no mais profundo dos nossos seres. Muitos confundem alma com espírito, sem ver que aquela está entre este e a matéria corpórea. É a alma que nos define como indivíduos, porque se reveste de uma forma, ao invés do espírito, que é por natureza informal. A alma é indestrutível, porque após a morte, extintas todas as possibilidades da vida humana neste mundo, se recolhe de volta à luz de onde veio. Ali, cada alma aguarda o final dos tempos, a dissolução dos "séculos" em cinzas ("solvet saeclum in favilla", como ensina a liturgia católica do na missa de requiem), altura em que, revestida do corpo glorioso, se poderá voltar a manifestar em todas as suas potencialidades.
A Natureza fornece-nos poderosas metáforas, como aquela apontada por Guénon, relativamente à passagem da lagarta a crisálida, e desta a borboleta: duas passagens análogas à morte física e à ressurreição da carne.
É frequente constatar alguma polémica sempre que se fala sobre a cremação dos mortos. Perguntaram-me, em tempos, se o catolicismo permitia a cremação dos mortos. É um facto que a permite, e a razão para esta permissão está intimamente ligada a esta crença na imortalidade da alma, que está presente na cultura hebraica, como na grega, na islâmica, na cristã ou mesmo na remota hindu.
O fogo da cremação nada pode contra a "cidade de Luz", contra esse "lugar psíquico" para onde a alma se retira em estado de não-manifestação após a morte. Sendo um "lugar" fora do espaço, não está sujeito à destruição pelo fogo.
A cremação em nada invalida a "ressurreição da carne", quando a semente nascida de luz que é a nossa alma regressar à manifestação por via de um novo corpo, desta vez glorioso porque perene e incorruptível.
É este o mistério da vitória sobre a Morte que está presente neste episódio de Jacob e no seu complexo e enigmático simbolismo.
Jesus nasce em Belém por altura do solstício de Inverno, quando as trevas são vencidas pela luz com o retorno do crescimento dos dias em termos de horas solares. Hoje em dia, está na moda retirar originalidade ao Natal cristão. Ao invés de procurarem, nas vozes da tradição cristã, os ecos de tradições hoje desaparecidas, os ignorantes procuram demonstrar uma suposta artificialidade do cristianismo, apresentando-o como um sucedâneo, uma cópia, um plágio, de várias tradições pagãs, como por exemplo, o mitraísmo.
São ignorantes, porque desconhecem a essência dos paralelismos que encontram (se bem que, muitas vezes, pura e simplesmente inventem paralelismos inexistentes). Esses paralelismos, os reais, não reflectem plágios.
Há concordância em vários aspetos entre o cristianismo e as restantes tradições espirituais da Humanidade que o precederam no ciclo histórico. Isso apenas reforça o facto de que o cristianismo não nega as ideias verdadeiras, nem os reflexos luminosos preservados por outras tradições antigas.
Mas o simbolismo cristão possui uma vida própria, uma autonomia notável inerente à sua Revelação.
Jesus nasce em Belém ("Beth-lehem", a "Casa do Pão"), porque agora é o Pão da Vida que representa Deus no meio de nós. Na Nova Aliança representada na figura de Jesus Cristo, a pedra sagrada de Betel cede o lugar ao pão sagrado.
É a Eucaristia, presença real do divino Cristo, que se torna, para os cristãos, na nova shekinah, a presença de Deus no meio de nós. Depois de nos darmos conta do surpreendente paralelismo entre "Beth-El" e "Beth-lehem", entre a "pedra" e o "pão", como é possível não manifestar surpresa perante uma releitura deste conhecido trecho de São Lucas?

Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-Se do Jordão e foi levado pelo Espírito para o Deserto, onde esteve durante quarenta dias e foi tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e quando eles terminaram, sentiu fome. Disse-Lhe o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem».
- São Lucas, 4, 1-4.

Jesus faz, de facto, a transformação das pedras em pão, a transformação de Betel em Belém, porque é o Seu Corpo que se torna presença de Deus no meio de nós ("Emmanuel", "Deus connosco"), suplantando de uma vez por todas a sacralidade dos bétilos da Velha Aliança, que era uma sacralidade menor, porque encontrava o seu suporte material nas substâncias inanimadas. Mas esta é uma transformação transcendente, que o Diabo tenta, como é sua marca, perverter num mero gesto de magia. "Nem só de pão vive o homem", diz Jesus, revelando que a verdadeira Vida é invisível, é aquela que é vivificada pelo "pão celestial", a Palavra de Deus, ao invés da vida humana e corpórea, que vive do pão terreno e que é meramente passageira.
Belém é, assim, a nova Betel, a nova Casa de Deus, e a nova Porta do Céu. É também por esta razão que se diz que os anjos acorreram a Belém, do mesmo modo paralelo a quando acorreram a Jacob durante o seu sonho. A shekinah é peregrina: Deus manifesta-Se onde bem entende.
Deus não tem morada fixa nesta Terra. Jesus, o Deus peregrino, nasce numa manjedoura.
E é visitado por pastores, que de todas as profissões humanas, é a que melhor representa o papel do nomadismo peregrino. A estrela de Belém apontou o caminho para o "axis mundi" aos Reis Magos (os representantes da Tradição que vêm honrar o Filho de Deus acabado de nascer), o local neste planeta onde, há dois mil anos, o Salvador se fez Homem, tornando-se presença de Deus na Criação.
Mas sobre os Reis Magos falarei daqui a uns dias, quando for mais apropriado...
Os meus estimados leitores materialistas e positivistas não darão grande valor a esta misturangada de termos, cegos como estão àquilo que é invisível aos olhos. Na minha linguagem deficitária e imperfeita, tentei transmitir um pouco do brilho luminoso e divino que vejo no Natal, uma tradição milenar que jaz na profundidade do ser humano e da sua rica experiência religiosa.
Será que apenas apontei aqui coincidências?
Jogos de palavras que por mero acaso suscitam paralelos ilusórios?
Ou tratar-se-ão dos reflexos de uma luz fugidia - refractada na imperfeição do meu entendimento limitado - uma luz que emana das entranhas da misteriosa cidade à qual os hebraicos chamavam Luz?
O pior cego é o que se recusa a ver, porque prefere as Trevas à Luz, escolhendo, sem o saber, a morte deste mundo à Vida do próximo.
Um óptimo Natal para todos!
Sim, porque a época do Natal só se conclui no Dia de Reis, não convém esquecer.

(simbolismo adaptado da obra de René Guénon, Le Roi du Monde, cap. VII - «Luz», ou le séjour d'immortalité, 1927)

Afixado por Bernardo Motta em 28 de dezembro de 2005, às 09:58

Afixadelas

Olá Bernardo.
Gostei do texto, apesar de não concordar com algumas das conclusões apresentadas. Mas como não sou especialista em Religião ou Tradição, nem as vou rebater. Quero apenas colocar uma dúvida: o qu quer dizer com o carácter messiânico de Portugal? Está relacionado com o V Império de Pessoa? Gostava, se fosse possível, que esclarecesse esta ideia.

Um abraço e continuação de umas boas festas!

Afixado por Sancho em 28 de dezembro de 2005, às 14:15

Caro Bernardo
Para contrariar o meu hábito de apenas visitar sem comentar o "Afixe" e para marcar a diferença em relação à lista dos seus "estimados leitores materialistas e positivistas" quero registar que:
SABOREEI o seu texto!
Obrigada pela autenticidade que contrapõe ao panorama das imitações falsificadas de Natal!

Afixado por pequena em 28 de dezembro de 2005, às 14:16

Grande pedra, essa que serviu de travesseiro ao Jacob! Legalize it! Estou a brincar, Bernardo. Achei o seu texto interessante, em termos históricos, e confuso, em termos doutrinários. Se a alma é indestrutível, como diz, então não tenho de me preocupar com as escolhas que faço e com o destino da minha alma, ou não?

Afixado por caramelo em 28 de dezembro de 2005, às 14:36

Sancho,

«Gostei do texto, apesar de não concordar com algumas das conclusões apresentadas. Mas como não sou especialista em Religião ou Tradição, nem as vou rebater.»

Faz mal!
Por duas razões:

1) pode não concordar com alguma coisa que esteja, de facto, errada, ou mal escrita
2) eu também não sou especialista nessas áreas

«Quero apenas colocar uma dúvida: o qu quer dizer com o carácter messiânico de Portugal? Está relacionado com o V Império de Pessoa? Gostava, se fosse possível, que esclarecesse esta ideia.»

Sim, está relacionado com o Quinto Império, que está longe de ser propriedade de Fernando Pessoa! ;)
Bom, eu não sou muito adepto do lado esotérico da obra de Pessoa. Penso que o seu esoterismo estava confuso em muitos aspectos. Mas não sou nenhuma autoridade na sua obra, e isto é apenas uma percepção que eu tenho, e que vale o que vale.
Mas, sim, pode-se dizer que partilho da ideia do Quinto Império, a de que Portugal ainda tem muito para dar ao mundo em termos espirituais, e tudo isto ainda no presente ciclo histórico.
Portugal tem uma vida espiritual muito profunda, que tem estado adormecida, em hibernação, por culpa da progressiva degradação dos seus representantes. Lá porque os portugueses estão a perder o seu patriotismo, isso não faz com que Portugal deixe de ser um "ente espiritual". Mesmo que emigrássemos todos para Espanha, Portugal existiria sempre, nem que fosse num plano não material. Tudo isto pode parecer pura loucura, mas acredito mesmo que a criação da nossa Nação obedeceu a propósitos e a inspirações muito para além daquilo que normalmente sucede na fundação de qualquer nação.
Não posso ser mais concreto do que isto, por manifesta incapacidade da minha parte!

«Um abraço e continuação de umas boas festas!»

Também para si!
E venham de lá essas críticas!

Afixado por Bernardo em 28 de dezembro de 2005, às 14:46

Cara "pequena",

«Para contrariar o meu hábito de apenas visitar sem comentar o "Afixe" e para marcar a diferença em relação à lista dos seus "estimados leitores materialistas e positivistas" quero registar que:
SABOREEI o seu texto!»

Nem imagina, não pode sequer imaginar, a alegria que me dão comentários como este. Eu sei que há muitos leitores silenciosos, mas se cada leitor silencioso imaginasse a importância que pode ter, para quem escreve, um único comentário (seja ele positivo ou negativo), certamente que comentariam mais!!

«Obrigada pela autenticidade que contrapõe ao panorama das imitações falsificadas de Natal!»

Na minha escrita, fica de forma perfeitamente clara tanto o meu entusiasmo por estes temas como também o meu amadorismo! Em cada releitura que faço ao meu texto, tenho sempre vontade de retocar alguma coisa confusa. Ainda bem que gostou do texto, mas peço-lhe o que peço a todos: não levar demasiado a sério o que eu escrevo. Tenho a perfeita noção de que, ao adaptar ideias que li de outrem, estou sempre de alguma forma a deturpar o que li, obviamente, de forma involuntária...
Boas festas e obrigado pelo comentário!!

Afixado por Bernardo em 28 de dezembro de 2005, às 14:50

Caramelo,

«Grande pedra, essa que serviu de travesseiro ao Jacob! Legalize it!»

Yep! ;)

«Estou a brincar, Bernardo. Achei o seu texto interessante, em termos históricos, e confuso, em termos doutrinários.»

Isso é perfeitamente normal!
Este seu servo ainda está a dar os primeiros passos nestas temáticas...

«Se a alma é indestrutível, como diz, então não tenho de me preocupar com as escolhas que faço e com o destino da minha alma, ou não?»

O meu texto era claramente omisso neste aspecto fundamental. Nada escrevi sobre juízos morais, e sobre as enormes diferenças entre o destino de uma "alma boa" e uma "alma má", pondo a questão de forma simplista e dualista.
A alma, em bom rigor, é indestrutível no sentido em que a destruição do corpo não a aniquila. E também no sentido em que cada ser, existindo, não pode perder a sua existência, mesmo que a forma de que se reveste a sua essência seja alterada ou mesmo aniquilada.
A Cidade de Luz, de que falei, assemelha-se à Jerusalém Celeste, de que fala a mensagem evangélica quando se diz que muitos são chamados, mas poucos serão aceites no Reino dos Céus. A alma, quando se separa do corpo, pode manter a sua existência, em absoluto, mas ao invés de se "dirigir" para a Cidade de Luz, ou se quisermos, para a Casa do Pai, pode permanecer presa num estado intermédio. A teologia católica chama a esse estado o Purgatório. É um estado no qual a alma ainda não está preparada para a perfeição de um estado luminoso, por estar demasiado presa às volições terrenas e demasiado "opaca" à luz divina.
A linguagem que uso é sempre imperfeita, note-se, e é sempre uma aproximação ao que pretendo descrever. Por seu lado, o que pretendo descrever é sempre uma aproximação ao real!
No absoluto limite, uma alma imbuída de pura maldade está nos antípodas da Cidade de Luz. Uma alma má precipita-se, por vontade própria, numa espécie de vazio infernal. É uma boa imagem, considerar o extremo do Inferno como o vazio absoluto, porque apenas a auto-destruição psíquica é que constitui um "lugar sem retorno". Apenas o nada é um "destino" sem saída. Podemos ainda tomar em consideração o facto de que estes estados (aliás qualquer estado) não são estanques: há sempre estados intermédios entre cada estado, da mesma forma que há sempre pontos entre dois pontos numa recta.
O que em linguagem teológica se representa como almas danadas a arder no Inferno corresponde, na realidade, a um estado de colapso psíquico, no qual a alma, rejeitando a "luz ao fundo do túnel" que lhe é proposta por Deus, usa a sua liberdade volutiva para "vaguear" pelos "mundos inferiores" (relembremos que a palavra Inferno significa, na sua origem, o que é inferior), num estado de desordem e de perda de referencial.
No fundo, o que a Teologia designa como três grandes "regiões" do pós-vida, o Inferno, o Purgatório e o Céu, são figurações de três grandes classes (não-espaciais) de "destinos" para a psique: um de atracção descendente para a alma que rejeita a luz (o Inferno), um de atracção ascendente para a alma que busca a luz (o Céu), e um de necessária purificação para a alma que cessou a sua vida terrena sem a preparação devida para que pudesse buscar a luz de forma imediata (o Purgatório).
Regressando ao meu texto, a Cidade de Luz é o destino ideal, deve ser o destino ambicionado pela alma que se separa do corpo na altura da morte. De forma nenhuma quis eu dizer que as almas estão destinadas a regressarem por força à luz divina: isso seria uma grotesca violação da liberdade da criatura. É da natureza da alma regressar à luz de onde veio, como qualquer ciclo que constatamos na natureza, mas a alma é livre para violar essa natureza, para ir contra ela. Numa realidade na qual a criatura deixasse de ter volições, no fundo, sucederia como se Deus fosse um tirano. Em termos metafísicos, isso seria uma verdadeira contradição. A liberdade da criatura só faz sentido do lado da criatura (do lado de Deus, tudo está pré-estabelecido desde sempre, porque Deus conhece o o íntimo de cada ser que criou), e de facto, define-a como tal. O indivíduo é definido porque tem forma, tem limite, tem uma fronteira que o demarca. Por isso, e isto é mesmo complexo, a liberdade é característica inerente à condição de criatura. A liberdade, ou seja, a acção por nós tomada a cada instante, define-nos da mesma forma que nos definimos pela cor dos nossos olhos, pelos nossos gostos, pelas nossas paixões. Cada criatura tem graus diferentes de liberdade, na proporção das suas capacidades. Mas a criatura não é obrigada a desejar a luz divina. Para que tudo existisse, o mundo criado teria que permitir no seu seio a existência de criaturas que, no limite, recusariam e desdenhariam o seu Criador. No fundo, tudo isto gira em torno do Mistério do Mal, da necessidade teológica e ontológica do Mal. Sem Mal, não há Liberdade, mesmo que Deus tenha criado a Liberdade para que as criaturas procurassem o Bem.
Do mesmo modo, sem a opção de poder seguir ou não o caminho para a Cidade da Luz, a alma não seria livre. Espero não ter piorado tudo ainda mais com estas explicações manhosas...
Um abraço!

Afixado por Bernardo em 28 de dezembro de 2005, às 15:15

O que o Bernardo Motta escreveu tem relmente fundamento e está de acordo com a tradição. Poder-se-ia também falar do simbolismo da escada, do termo Luz, quem em hebraico creio também designa a amendoeira, como refere Guénon em " o rei do mundo", mas tudo isso nos levaria um pouco mais longe ainda. Bem, mesmo assim talvez ainda valha a pena falar destas coisas no mundo virtual. Quem sabe? Saudações.

Afixado por Afonso Rodrigues em 28 de dezembro de 2005, às 18:11

Caro Afonso,

«O que o Bernardo Motta escreveu tem relmente fundamento e está de acordo com a tradição. Poder-se-ia também falar do simbolismo da escada, do termo Luz, quem em hebraico creio também designa a amendoeira, como refere Guénon em " o rei do mundo", mas tudo isso nos levaria um pouco mais longe ainda.»

Mas Afonso, foi precisamente desse livro, mais concretamente no capítulo dedicado ao termo "Luz" que eu retirei grande parte da inspiração para este texto!!

«Bem, mesmo assim talvez ainda valha a pena falar destas coisas no mundo virtual. Quem sabe?»

Não tenha quaisquer dúvidas!
Foi deste modo que encontrei, mesmo em Portugal, uma quantidade pequena, mas surpreendente, de leitores de Guénon e de entusiastas do conhecimento tradicional.
No meu caso pessoal, o tomar contacto com estes dados tradicionais, e com os surpreendentes paralelismos que dão consistência a estas teses doutrinais, fortaleceu muito a minha fé católica e mudou radicalmente a forma como eu concebia e vivia a espiritualidade.
René Guénon, muçulmano e maçon, apesar de defender ideias perigosamente heterodoxas para um católico, foi sem qualquer sombra dúvida, e até agora, o autor mais importante para a minha vida e para a forma como olho para a realidade.
Já vi que temos gostos de leitura idênticos!
Um abraço!

Afixado por Bernardo em 28 de dezembro de 2005, às 19:04

Olá,
Eu gostaria de entrar em contato com a Aphixadora Emiele, mas não sei como.
Se alguém souber o e-mail, por favor, avise-me.
Um grande beijo e parabéns pelo sucesso!
Mariana Stolze

Afixado por Mariana Stolze em 28 de dezembro de 2005, às 20:27

Não há duvida que a religião e os textos religiosos continuam a mexer com aquilo que de mais profundo há no ser humano e só isso e o não podermos sair do campo puramente metafísico, que levou e leva muitas vezes a extremismos consoante as posições adoptadas.

Ao ler o texto a luz, podemos cair para uma de duas posições, concordância ou discordância. Ao ler passagens como: (carácter messiânico de Portugal)! (texto verdadeiramente revelado, nada existe por acaso) (Adão, antes da Queda, vivia em comunhão com Deus, e partilhando da luz divina, conhecia as coisas criadas na sua essência. Deste modo, Adão deu os nomes aos animais e às plantas.
Os nomes por ele escolhidos não eram escolhas ocasionais, movidas por impulsos fantasiosos) etc. podemos concordar ou discordar eu discordo e digo porque.

Da adopção da teoria criacionista ou evolucionista pode partir a defesa ou a critica de diferentes posições. Enquanto na segunda a Criacionista, não há nada a debater porque há uma Causa Primeira (Deus) que da origem a tudo e que vai dando origem a sucessivas transformações que vão sendo reveladas a eleitos por inspiração divina, que depois passam a escrito (Bíblia, Corão. Evangelhos etc.) pode-se argumentar, pode-se discutir mas no fundo cada qual permanece nas suas posições pois é tudo metafísico.

Na segunda Evolucionista, a coisa fia mais fino a pesquisa é permanente e leva-nos a uma visão retrospectiva do homem e sua evolução neste planeta e fazendo esta análise “viajando”do presente para o passado, chegamos ao homem primitivo, sem quaisquer valores ou sentimentos que não fosse o medo e a sobrevivência, que começa em Africa e que depois se espalha pelo globo segundo os movimentos candelabro e treliça. E algumas tribos perdem o contacto entre si de modo que na época dos descobrimentos nem sequer se conhecia o globo na totalidade ou se sabia ser habitado (América por exemplo).

Mas analisando por este prisma podemos ver quando aparecem as religiões. Tinha o homem primitivo Deuses? Criou-os ? há quem diga que não tinha e foi o medo do desconhecido, fenómenos naturais, morte e tudo aquilo que não conseguia explicar que levou-o a pedir protecção para alem das suas possibilidades limitadas e começam a aparecer as religiões politeístas com expoentes máximos nos gregos e romanos mas também maias, aztecas, incas, egípcios etc. adoradores de vários deuses materializáveis/corpóreos, mas só pediam protecção. Unicamente protecção na sua maioria.
Mais tarde na Mesopotâmia actual médio oriente e zonas limítrofes aparecem as primeiras religiões monoteístas adoradores de um só deus não corpóreo / espiritual com uma característica suplementar não só pediam protecção como a própria religião procurava modificar a natureza humana através de valores morais e éticos (Judaísmo. Budismo, Cristianismo Islamismo etc.) tendo o seu expoente nos cristão com Jesus e na sua doutrina de modificação do ser humano baseado no amor ao próximo o que numa sociedade baseada na escravatura economicamente, devia ser visto como um corte radical.

Quanto a mim é este o principal papel da religião a mudança da natureza humana através de valores éticos, morais, culturais, mas não a sua imposição pela força mas pela perssuasão, aliás foi a não imposição pela força que de resto não tinham, que fez com que o cristianismo triunfasse apesar das perseguições, quando no antigo império romano os cristãos eram martirizados e surgiam como exemplos a seguir e não o contrário o sangue de cristãos era semente de cristãos.

Neste aspecto embora focando o problema noutra perspectiva discordo com muita coisa do post por não acreditar na revelação divina das coisas tal como expliquei, mas respeito quem assim pense que a Bíblia, Corão. Evangelhos etc foram revelados a humanos predestinados por Deus ou o espírito santo. e leio o que pensam e escrevem, embora sejam posições que são inconciliáveis dai se utilizar por vezes o termo a navalha de ockam como separando as aguas ciência/religião.

Mas então devemos ser puramente materialistas? Não necessariamente, a religião serve para transformar a natureza humana humanizar o homem, torna-lo solidário,bom para o outro ser humano pelo menos assim devia ser, dar-lhe valores morais, éticos que se devem aplicar na vida no dia a dia. Mas tem que ser as pessoas a procurar essa modificação e não ser impostas ou ser-lhe transmitida pela educação, quando tal não acontece temos os exemplos do passado. cruzadas, inquisição, perseguições religiosas etc.

Eu não preciso da religião para salvar a minha alma, acho que pelo que eu faço esta salva mas o que é a alma conceito filosófico? Cientifico? Pode-se pegar num ou noutro. mas a religião fez de mim uma pessoa que não seria sem ela modificou-me desde que nasci embora a crença que tive porque me foi transmitida muito cedo fosse um pouco cega, foi se esbatendo com o tempo a medida que o espírito se abria a outras áreas e o raciocínio não aceitava tudo de animo leve, ficou-me a moral, a ética, a solidariedade a humildade e a crença na capacidade humana de se melhorar, o que não é coisa pouca .

Quanto a Portugal ser predestinado, o quinto império do Pessoa etc. já o professor Agostinho da Silva falava na nossa condição de privilégio que ainda tínhamos muito a dar no aspecto da espiritualidade ao mundo, acho que são conversas esotéricas somente isso não passa disso, não somos mais nem menos que os outros e alias Deus por essa via já escolheu o seu povo eleito há milénios atrás.

Acho que o lençol cobre toda a gente que tenha paciência para lê-lo

Um bom ano para todos os afixados

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
Você,, tem de merece-lo,
Tem de faze-lo novo, eu sei que não é fácil,
Mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera,
desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Afixado por leopard em 29 de dezembro de 2005, às 12:19

Bernardo,
A luz é utilizada como metáfora nas escrituras e tradições de várias religiões.
A primeira que me vem imediatamente à ideia é uma frase do Alcorão que diz que Deus é "luz sobre luz".
Se tiver tempo ainda vou explorar este assunto.
Um feliz Ano Novo.
Marco

Afixado por Marco Oliveira em 29 de dezembro de 2005, às 15:06

Bernardo,
A luz é utilizada como metáfora nas escrituras e tradições de várias religiões.
A primeira que me vem imediatamente à ideia é uma frase do Alcorão que diz que Deus é "luz sobre luz".
Se tiver tempo ainda vou explorar este assunto.
Um feliz Ano Novo.
Marco

Afixado por Marco Oliveira em 29 de dezembro de 2005, às 15:09

A cidadania sob cerco:
http://www.manuelamagno.com.pt

Afixado por Alfredo em 30 de dezembro de 2005, às 03:45

Foi falta de atenção da minha parte, porque quando escrevi isso não tinha lido a explicação do texto,onde é referido esse livro de Guénon. Descobri Guénon através de um livro sobre Julius Evola(autor que também deve conhecer).Penso que faz falta em Portugal uma editora exclusivamente dedicada à edição de obras tradicionais e esotéricas. Seria viável? Bom ano novo.

Afixado por Afonso Rodrigues em 30 de dezembro de 2005, às 21:14

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