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dezembro 03, 2005

Putas, preservativos, OMS e tabaco - chega de demagogia!

A propósito das declarações de Mário Soares, no lançamento do MP3, na qual o candidato "aderiu" às posições até agora veiculadas pela sua mandatária para a juventude, vale a pena referir algumas coisas.
A propósito da legalização da prostituição, refere Soares que:

"Quando eu era novo, a prostituição era uma actividade regulamentada e isso impedia muita coisa. Depois, com a democracia, achou-se que issso era uma intervenção abusiva, mas hoje tenho dúvidas".

É pena que os candidatos (geralmente, todos...) tenham tanta falta de rigor. Em primeiro lugar, não foi a democracia, senhor doutor, mas um decreto de Salazar que "aboliu" a prostituição de um dia para o outro - assim, levou a que se procurassem outras formas de exercício da "profissão mais antiga".
A ideia de que "quando eu era novo as coisas eram diferentes, para melhor",´tem que ser fundamentada com dados científicos, e não com feelings de qualquer pessoa. A incidência de gonorreia, sífilis e outras doenças de transmissão sexual, para além da "escravatura branca" nas casas de meninas, dependentes de uma Madame muito "socialite" mas que era, para todos os efeitos, uma carcereira, era muito superior à actual. E quando o Dr. Soares era "novo" não havia uma doença causada por um vírus chamado HIV, nem se conheciam as implicações do papilomavírus ou do herpes vírus. Nem sequer se sabia que a gonorreia era a maior causa de esterilidade nas mulheres. Comparar o incomparável, por superficialidade e falta de rigor e de estudo dá nestas coisas...
Defendo que cada um deve usar "o que Deus lhe deu" - corpo, talentos, intelecto, etc - para o que melhor lhe aprouver, inclusive ganhar dinheiro, mas defendo também que há que garantir a não exploração de ninguém por ninguém, o respeito por todos os envolvidos e a saúde pública e individual, com conhecimento perfeito dos riscos, não apenas físicos, mas morais e psicológicos da adopção de certos estilos e percursos de vida. Tenho, tal como o candidato, dúvidas de que estes aspectos sejam considerados quando se faz, de forma bombástica, a proposta do regresso às "casas de putas".

Segundo aspecto. O candidato defende

"distribuição de preservativos nas escolas"

não o dizendo como nem quando, nem a quem, nem por quem...
Se há coisa de que se tem falado é o preservativo. Ele até está acessível. Mas apenas um terço dos jovens portugueses têm relações sexuais protegidas, a acreditar em vários estudos. Será que são todos parvos e ignorantes? Aliás, o mesmo se passa com a população adulta. Também tenho dúvidas. O que me parece é que não basta dizer "use preservativo" ou distribuir perservativos na escola. Se calhar o que falta é saber quando, como e de que maneira se deve usar o perservativo, como fazer para que, usando preservativo, ele não se "intrometa" numa relação apaixonada, ocasional, que não é programada; como fazer para que o contacto corporal total, tão necessário na adolescência (e não só) consiga não ser beliscado pelo uso do preservativo. Continuamos com medidas de "faça isto, não fala aquilo", em vez de integrar estilos de vida e comportamentos promotores de saúde no dia a dia das pessoas. E par isso é necessário ouvi-las, escutá-las... mas não apenas em sessões de campanha eleitoral, nem aos jovens que constituem as juventudes partidárias...

Dr. Soares e sua mandatária: um estudo que realizámos num grande estabelecimento prisional português mostrou que a maioria dos presos, por exemplo, recusa (sim, recusa!) a distribuição de preservativos na cadeia. Sabem porquê? Porque acham que com preservativos "à solta" têm mais hipóteses de serem violados pelos seus colegas. E isso eles não querem. às vezes é bom ir um bocadinho mais longe do que o que os nossos olhos enxergam.

Talvez por sofrer intensamente desta miopia, a OMS acaba de declarar que não aceita funcionários que fumem - e se alguém aceitar ser funcionário e fumar, terá que sofrer um processo disciplinar. Presume-se que a OMS vai também ver quais os funcionários que vão às casas de putas, os que dormem com outras e outros, os que bebem álcool, os que infringem o código da estrada, os que não usam preservativo, os que fumam um charro ou os que andam sem capacete de bicicleta ou não põem creme quando vão à praia. Ou comem bife com natas. Ou vão ao MacDonald´s. Ou estão demasiado tempo à frente de um computador, por exemplo a escrever no Aphixe.
Asim vai o mundo, com uma OMS a receber dinheiro dos governos para fazer tudo menos o que era necessário, dinheiro esse que vem, em muitos casos, da actividade económica das tabaqueiras e dos impostos sobre o tabaco...
Bof! Desculpem o desabafo!

Afixado por Mário Cordeiro em 3 de dezembro de 2005, às 13:19

Afixadelas

Não desculpo o desabafo, Mário. Agradeço-o.
Estava danadinho p'ra me atirar a essa linda orientação da OMS, mas achei que deveria ser alguem com mais competência do que eu a fazê-lo. Brigado por essa parte, Mário.
Ainda pensei em sugerir a alteração da sigla, mas pensando bem, Organização dos Merdosos Subsidiada até lhe assenta bem.

Afixado por Jon em 3 de dezembro de 2005, às 15:13

um grande desabafo :)
talvez devessemos pedir uns conselhos ao Uganda, que tem estado a fazer uma campanha muito boa e eficaz (apostou-se na vulgarização do preservayivo, começando na escola primaria) ou ao Brasil, cuja campanha agressiva, limitou o aparecimento de novos casos...isto da Europa, nem sempre é vantagem.

cumprimentos

Afixado por riquita em 3 de dezembro de 2005, às 15:29

Belo post!

Afixado por monty em 3 de dezembro de 2005, às 15:59

No Uganda aplicou-se a estratégia ABC em que apenas o C (o último na lista das prioridades) é o preservativo (C de condom).
A e B são questões educativas e civilizacionais: autocontrole, respeito, fidelidade.
Com a ditadura do políticamente correcto na Europa, estes termos estão "proibidos", proscritos. Ficamos apenas com o C. Mas o látex tem limites de efectividade que são conhecidos (10-15% de falhas, nos melhores contextos), pelo que a questão de fundo se irá manter.
Vale a pena ler o relatório completo.

Afixado por CarLoS em 3 de dezembro de 2005, às 16:44

Aplaudo.

No essencial, concordo com o exposto e para o alerta que uma visão das coisas demasiado superficial pode ter resultados desastrosos (o exemplo das Cadeias nunca me tinha ocorrido).

Soares, o povo aguarda a tuas respostas:

http://sal-portugal.blogspot.com/2005/11/portugal-tem-o-direito-de-saber.html

O Timoneiro do Inferno…

http://sal-portugal.blogspot.com/2005/12/o-timoneiro-do-inferno.html

Sal de Portugal

Afixado por JAC em 3 de dezembro de 2005, às 18:53

Olá Mário,
Só tenho a concordar com tudo o que você desabafou.Claro que o problema não é legalizar ou não uma atividade porque quando as pessoas querem não há lei que os proiba ou incentive qualquer coisa. Mas, é bom denunciar esses feitos demagógicos e politiqueiros para que esses candidatos a qualquer coisa no mundo não se escorem tanto nss desgraças alheias.
Eu achei interessante quando você cita o caso dos prisioneiros em Portugal não quererem a distribuição de preservativos para não serem violados e, isso é tão crual. Porque Dr. Mário Soares não se preocupa em resgatar a dignidade desses presos?
O problema, como você diz, envolve muitas questões a serem aboradadas e discutidas e é bom parar de ter medo dos questionamentos que possam surgir.
Não sei se vocês, em Portugal, souberem que a cantora Daniela Mercury foi vetada nas comemorações do vaticano porque participou de um comercial no Brasil incentivando o uso de camisinha. É um absurdo que o Papa Bento veja essas campanhas como uma ameaçã a moral e aos bosn costumes. Ele simplesmente ignora as questões sociais envolvendo todo esse contexto.

Afixado por Elvira em 4 de dezembro de 2005, às 02:49

"...um estudo que realizámos num grande estabelecimento prisional português mostrou que a maioria dos presos, por exemplo, recusa (sim, recusa!) a distribuição de preservativos na cadeia..."

Podemos ter mais pormenores sobre este estudo? Publicado?

Afixado por gatoman em 16 de dezembro de 2005, às 10:43

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