janeiro 06, 2006
Epifania

Hoje é dia de Reis. Celebra-se também, no calendário religioso, o dia da Epifania. Deixo os detalhes curiosos e complexos relativos à origem desta palavra para os interessados. Não vou sobrecarregar muito este meu último post, até porque é o último e há que evitar deixar más recordações.
Hoje é dia de Reis!
(estou a repetir-me... mas desta vez é com exclamação!)
E que dia melhor para encerrar um ciclo e começar outro?
A Epifania é como que um outro Natal, uma vez que esta tradição de origem oriental tinha como objectivo celebrar, entre outras coisas, a Natividade de Jesus. A Epifania marca a manifestação de Jesus na Sua Glória. O momento em que Deus se manifesta como Homem.
São raros aqueles que se apercebem do enorme valor do dia de Reis, tão perdido que ele fica neste reboliço natalício, cuja euforia se esgota, após a orgia de compras, no dia 25 de Dezembro. Num torpor de preguiça, o Natal estica-se até à passagem de ano, transformado esse período para muitos sortudos numas férias extra, o que faz com que o estado de espírito, a 2 de Janeiro, seja dos mais deprimentes. As festas acabaram, as carteiras estão vazias, o colesterol está todo lixado, e as ruas estão cheias de lixo.
Mas será que é mesmo assim?
Será que o Natal termina a 2 de Janeiro?
É claro que não!
Todos conhecemos aqueles comentários típicos acerca dos espanhóis, que distribuem presentes neste dia, "los reyes", e como isso nos faz sempre discutir acerca da altura ideal para trocar presentes. Quem estará certo? Os que o fazem a 24? Os que o fazem a 25? Ou os que o fazem a 6 de Janeiro?
Não vou dar aqui a resposta, até porque não a tenho.
O que eu queria lembrar era apenas o que significa, no fundo e na essência, esta questão dos presentes celebrada a 6 de Janeiro. O que é o dia de Reis?
A Epifania está associada de forma indelével à visita dos enigmáticos Reis Magos.
Pondo de parte as questões históricas e historiográficas, porque interessa pouco saber se, quando e como é que se deu esta visita, reparemos no que nos diz a tradição sobre estas personagens.
Seriam três, os Reis Magos, Baltasar, Gaspar e Melchior. Sinceramente, não possuo conhecimentos suficientes para tentar explicar os seus nomes, se bem que o nome de Melchior relembra a palavra hebraica para "rei".
O mais interessante é o que estes digníssimos senhores trazem para o Menino, o que eles decidem ofertar-Lhe neste dia de Epifania.
Trazem ouro, incenso e mirra.
O ouro é o presente para o Rei, é o reconhecimento de que Jesus Cristo detém o poder real.
O incenso é o presente para o Sacerdote, é o reconhecimento de que Jesus Cristo detém a autoridade sacerdotal.
A mirra, bálsamo da incorruptibilidade, é o presente para o Senhor da Vida, aquele que, sendo Deus, vence a Morte e nos dá acesso à imortalidade real, a da Vida Eterna.
Perdoem-me esta forma de acabar, aqueles a quem ela desagrada, mas seria trair a minha maneira de ser se não escrevesse algo assim. Afinal, não consigo deixar de aproveitar este dia da minha última posta aqui para falar sobre o Dia de Reis.
De uma certa forma, e falando para crentes e descrentes, tentei sempre escrever aqui no Afixe aquilo que me ia na alma, a forma como eu via o Mundo à minha volta, e porque sou fascinado por questões espirituais, a forma como eu via o pensar e viver da espiritualidade. Muitos repararam que falei muito sobre catolicismo, mas também aqui falei sobre outras religiões. Mais do que tudo, procurei transmitir a quem me lia uma frustração que me vai cá dentro: há tanta gente que pensa que assumir uma religião, nos dias que correm, é sinal de estupidez, ignorância, ou busca de consolo sentimental para as amarguras da vida. Para mim, viver uma religião como o cristianismo nunca representou nada disso. Tentei mostrar que é possível crer e pensar. Por vezes, fiz um mau trabalho, entrando em polémicas e traulitadas. Excessos de uma personalidade impulsiva... Mas espero que, mesmo aqueles ateus mais intransigentes tenham encontrado alguma coisa de interessante naquilo que escrevi.
Deu-me um gozo imenso escrever no Afixe. Diverti-me em cada posta que cá meti. Diverti-me ainda mais em comentários, nuns bons milhares deles...
Conheci muita gente, tentei voltar a compatibilizar-me com aqueles com quem tive pequenas zangas, porque afinal... isto é só um blogue!
Já seria muito bom se aqueles que não gostaram das minhas postas não ficassem com má ideia do Afixe por causa disso, e seria óptimo se, àqueles que gostaram delas, eu tivesse conseguido transmitir algum do meu entusiasmo. Apesar do ar pretensamente intelectualóide dos meus textos, queria confessar a todos que não tenho quaisquer pretensões. Divirto-me com estes temas, mas não me levo muito a sério. Posso levar a sério o que penso e a forma como vejo as coisas, mas não me levo a mim próprio muito a sério. A precaridade dos meus conhecimentos em tantas áreas era óbvia para muitos, e isso mostra que tentei, sobretudo, divertir-me falando a sério. Com isso contei com a ajuda de todos os meus amigos afixadores, que aqui criaram um excelente espírito de equipa. Um ambiente óptimo para escrever. A serenidade ideal para qualquer pessoa poder exercer a liberdade de expressão. Gostei de escrever ao lado de vocês TODOS (sim, mesmo de ti, João Garcez, personagem dos infernos!), e vou fazer por não esquecer nenhum dos comentadores que ajudaram a construir o Afixe.
Aqui ficarão as postas antigas e todos os comentários para provar este modesto projecto funcionou em grande.
Um grande obrigado, mais um abraço, a todos!
P.S.: Não façam perguntas sobre a fotografia que eu escolhi, se fazem favor. Não tenciono dar nenhuma explicação...
Afixado por Bernardo Motta às 09:56 | Afixadelas (3)
Epifania

Hoje é dia de Reis. Celebra-se também, no calendário religioso, o dia da Epifania. Deixo os detalhes curiosos e complexos relativos à origem desta palavra para os interessados. Não vou sobrecarregar muito este meu último post, até porque é o último e há que evitar deixar más recordações.
Hoje é dia de Reis!
(estou a repetir-me... mas desta vez é com exclamação!)
E que dia melhor para encerrar um ciclo e começar outro?
A Epifania é como que um outro Natal, uma vez que esta tradição de origem oriental tinha como objectivo celebrar, entre outras coisas, a Natividade de Jesus. A Epifania marca a manifestação de Jesus na Sua Glória. O momento em que Deus se manifesta como Homem.
São raros aqueles que se apercebem do enorme valor do dia de Reis, tão perdido que ele fica neste reboliço natalício, cuja euforia se esgota, após a orgia de compras, no dia 25 de Dezembro. Num torpor de preguiça, o Natal estica-se até à passagem de ano, transformado esse período para muitos sortudos numas férias extra, o que faz com que o estado de espírito, a 2 de Janeiro, seja dos mais deprimentes. As festas acabaram, as carteiras estão vazias, o colesterol está todo lixado, e as ruas estão cheias de lixo.
Mas será que é mesmo assim?
Será que o Natal termina a 2 de Janeiro?
É claro que não!
Todos conhecemos aqueles comentários típicos acerca dos espanhóis, que distribuem presentes neste dia, "los reyes", e como isso nos faz sempre discutir acerca da altura ideal para trocar presentes. Quem estará certo? Os que o fazem a 24? Os que o fazem a 25? Ou os que o fazem a 6 de Janeiro?
Não vou dar aqui a resposta, até porque não a tenho.
O que eu queria lembrar era apenas o que significa, no fundo e na essência, esta questão dos presentes celebrada a 6 de Janeiro. O que é o dia de Reis?
A Epifania está associada de forma indelével à visita dos enigmáticos Reis Magos.
Pondo de parte as questões históricas e historiográficas, porque interessa pouco saber se, quando e como é que se deu esta visita, reparemos no que nos diz a tradição sobre estas personagens.
Seriam três, os Reis Magos, Baltasar, Gaspar e Melchior. Sinceramente, não possuo conhecimentos suficientes para tentar explicar os seus nomes, se bem que o nome de Melchior relembra a palavra hebraica para "rei".
O mais interessante é o que estes digníssimos senhores trazem para o Menino, o que eles decidem ofertar-Lhe neste dia de Epifania.
Trazem ouro, incenso e mirra.
O ouro é o presente para o Rei, é o reconhecimento de que Jesus Cristo detém o poder real.
O incenso é o presente para o Sacerdote, é o reconhecimento de que Jesus Cristo detém a autoridade sacerdotal.
A mirra, bálsamo da incorruptibilidade, é o presente para o Senhor da Vida, aquele que, sendo Deus, vence a Morte e nos dá acesso à imortalidade real, a da Vida Eterna.
Perdoem-me esta forma de acabar, aqueles a quem ela desagrada, mas seria trair a minha maneira de ser se não escrevesse algo assim. Afinal, não consigo deixar de aproveitar este dia da minha última posta aqui para falar sobre o Dia de Reis.
De uma certa forma, e falando para crentes e descrentes, tentei sempre escrever aqui no Afixe aquilo que me ia na alma, a forma como eu via o Mundo à minha volta, e porque sou fascinado por questões espirituais, a forma como eu via o pensar e viver da espiritualidade. Muitos repararam que falei muito sobre catolicismo, mas também aqui falei sobre outras religiões. Mais do que tudo, procurei transmitir a quem me lia uma frustração que me vai cá dentro: há tanta gente que pensa que assumir uma religião, nos dias que correm, é sinal de estupidez, ignorância, ou busca de consolo sentimental para as amarguras da vida. Para mim, viver uma religião como o cristianismo nunca representou nada disso. Tentei mostrar que é possível crer e pensar. Por vezes, fiz um mau trabalho, entrando em polémicas e traulitadas. Excessos de uma personalidade impulsiva... Mas espero que, mesmo aqueles ateus mais intransigentes tenham encontrado alguma coisa de interessante naquilo que escrevi.
Deu-me um gozo imenso escrever no Afixe. Diverti-me em cada posta que cá meti. Diverti-me ainda mais em comentários, nuns bons milhares deles...
Conheci muita gente, tentei voltar a compatibilizar-me com aqueles com quem tive pequenas zangas, porque afinal... isto é só um blogue!
Já seria muito bom se aqueles que não gostaram das minhas postas não ficassem com má ideia do Afixe por causa disso, e seria óptimo se, àqueles que gostaram delas, eu tivesse conseguido transmitir algum do meu entusiasmo. Apesar do ar pretensamente intelectualóide dos meus textos, queria confessar a todos que não tenho quaisquer pretensões. Divirto-me com estes temas, mas não me levo muito a sério. Posso levar a sério o que penso e a forma como vejo as coisas, mas não me levo a mim próprio muito a sério. A precaridade dos meus conhecimentos em tantas áreas era óbvia para muitos, e isso mostra que tentei, sobretudo, divertir-me falando a sério. Com isso contei com a ajuda de todos os meus amigos afixadores, que aqui criaram um excelente espírito de equipa. Um ambiente óptimo para escrever. A serenidade ideal para qualquer pessoa poder exercer a liberdade de expressão. Gostei de escrever ao lado de vocês TODOS (sim, mesmo de ti, João Garcez, personagem dos infernos!), e vou fazer por não esquecer nenhum dos comentadores que ajudaram a construir o Afixe.
Aqui ficarão as postas antigas e todos os comentários para provar este modesto projecto funcionou em grande.
Um grande obrigado, mais um abraço, a todos!
P.S.: Não façam perguntas sobre a fotografia que eu escolhi, se fazem favor. Não tenciono dar nenhuma explicação...
Afixado por Bernardo Motta às 09:56 | Afixadelas (3)
dezembro 30, 2005
Is there anyone at home?
Ó da casa?
(silêncio)
Como se pode ver, isto está às moscas.
Lisboa, hoje, parecia deserta. Poucos carros, algumas pessoas a correr de um lado para o outro, muitas a fazerem o impossível para se porem a andar daqui para fora quanto antes...
Eu, da parte que me toca, estou pronto para me pirar. Vou desligar o PC, e até segunda-feira nada de Internet.
Visto que já cá não está ninguém, vou apagar a luz e fechar a porta, se não se importam...
Até 2006 e um Bom Ano para todos os leitores do Afixe, sobretudo para aqueles fiéis aqui da casa que ainda vão passar por cá até ao fim de ano!!
Afixado por Bernardo Motta às 18:34 | Afixadelas (2)
dezembro 29, 2005
É o que faz sentido...
A casa onde viveu e morreu o escritor Almeida Garrett, em Campo de Ourique, vai ser demolida. A Câmara Municipal de Lisboa justifica esta decisão com a falta de dinheiro para adquirir o imóvel.- in Público, 28-12-2005.
A propósito disto, alguém sabe como vão as obras no Parque Mayer, como está a situação do novo Casino, como estão a andar as negociações na antiga Feira Popular?
E para que não digam mal das minhas palavras irónicas, aqui fica a explicação oficial da senhora Vereadora da CML:
A Casa onde morreu Almeida Garrett - Interesse urbanístico vs interesse cultural
Afixado por Bernardo Motta às 09:46 | Afixadelas (8)
dezembro 28, 2005
Luz

Jacob saiu de Bersabé e tomou o caminho de Harran. Chegou a determinado sítio e resolveu ali passar a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se de uma das pedras do lugar como travesseiro e deitou-se. Teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu; e ao longo desta escada subiam e desciam anjos de Deus (...). Despertando do sono, Jacob exclamou: «O Senhor está realmente neste lugar e eu não o sabia!» Atemorizado, acrescentou: «Que terrível é este lugar! Aqui é a casa de Deus, aqui é a porta do céu.» No dia seguinte, de manhã, Jacob agarrou na pedra que lhe servira de travesseiro, e, depois de a erguer como um padrão, derramou óleo sobre ela. Chamou a este sítio Betel, quando, originariamente, a cidade se chamava Luz.- Génesis, 28, 10-19.
Luz.
Uma pequena palavra de três letras...
Ao ler o livro do Génesis, o leitor português imagina que o nome do local onde dormiu Jacob foi aportuguesado, ou seja, que no texto original iria encontrar a palavra hebraica para "luz". Ora bem, engana-se se assim pensa. No original, a palavra hebraica é mesmo "luz". Privilégio sublime da língua portuguesa (e "coincidência" para os tolos que se recusam a ver o óbvio carácter messiânico de Portugal)!
Em qualquer texto verdadeiramente revelado, nada existe por acaso. Os rabis ensinam que nem uma só letra da Torah pode ser mudada, sob pena de todo o texto colapsar em pó. O pensamento tradicional defende que os nomes das coisas, dos lugares, das pessoas, dos objectos, estão intimamente associados à sua essência.
No relato genesíaco, Adão, antes da Queda, vivia em comunhão com Deus, e partilhando da luz divina, conhecia as coisas criadas na sua essência. Deste modo, Adão deu os nomes aos animais e às plantas.
Os nomes por ele escolhidos não eram escolhas ocasionais, movidas por impulsos fantasiosos. O poder de Adão para nomear todas as criaturas vinha-lhe do poder que Deus lhe deu para conhecer as essências das coisas criadas. O homem caído, o homem do Pecado Original, já não tem essa faculdade que tinha o homem primordial.
Deste modo, o autor de um texto revelado, homem caído como todos nós, partilha de um conhecimento imediato, que lhe vem de Deus e não de si, não reflexivo mas intuitivo, por vezes inexprimível (a palavra "mistério", de origem grega, é sobretudo o inexprimível, e não o incompreensível como erradamente se costuma julgar), acerca de uma dada coisa ou criatura. O episódio do sonho de Jacob, um dos mais belos e profundos da literatura veterotestamentária, é disso prova viva.
"Betel", chamou Jacob àquele lugar. "Beth-El", a "Casa de Deus".
Como vemos, Jacob escolhe um nome adequado ao local. Porque nessa noite, Jacob esteve num lugar santo.
O termo hebraico que designa a presença real da divindade no meio de nós é "shekinah". A shekinah é a presença de Deus no mundo. A sarça ardente, avistada por Moisés, foi shekinah, assim como o Santo dos Santos do antigo Templo judaico, onde se dizia que, na mais profunda escuridão, Deus Se manifestava sobre a Arca da Aliança, por entre as asas douradas dos querubins.
Durante o seu sonho, Jacob vê uma escada, símbolo do "axis mundi", o Eixo do Mundo, por onde sobem e descem aquelas criaturas sobre-humanas e infra-divinas, os anjos. De acordo com o simbolismo tradicional, sempre que o Eixo do Mundo cruza o plano da Criação, pode-se afirmar que esse ponto desempenha a função de shekinah, sendo neste mundo como que a "porta do Céu". Reconhecendo o carácter único daquele local, Jacob verte o óleo sobre a pedra, entretanto tornada sacra pela presença de Deus ("beth-el").
Com base neste episódio, os antropólogos e os mitólogos banalizaram o termo "bétilo" para designar, em geral, uma "pedra santa". A Kaaba, em Meca, é um outro exemplo bem conhecido de um bétilo.
Mas onde quero eu chegar?
À palavra "luz", que segundo o Génesis era o nome antigo da uma misteriosa cidade perto da qual Jacob teve o sonho.
Ora sucede que "luz" é também, em hebraico, a palavra que designa o fruto da amêndoa, bem como a árvore, a amendoeira. Dizem as lendas hebraicas que, precisamente neste local chamado Luz, existia uma amendoeira cujas raízes ocultavam um subterrâneo. Este subterrâneo ocultava, por sua vez, uma passagem secreta que conduzia à cidade de Luz, que se dizia jazer sob a terra, num local inacessível.
Nada disto é muito surpreendente, uma vez que a amêndoa oculta o seu fruto dentro de uma casca dura, o que reforça a ideia de inviolabilidade já existente na lenda sobre a cidade de Luz.
Dizem também as mesmas lendas que, contra esta cidade de Luz, o Anjo da Morte nada podia. Vejamos de seguida porquê...
O misticismo judaico dá também o nome de "luz" à pequena parcela do indivíduo humano onde a alma, após a morte, se vai refugiar. Note-se que não se trata aqui de um lugar físico, mas sim de um "lugar psíquico" (recordemos que, em grego, "psyché" significa "alma"), se é que se pode usar uma expressão como "lugar" num domínio extra-espacial e subtil como é o da alma.
Vemos então que, para os judeus, o Anjo da Morte nada podia contra a "Cidade de Luz", porque era o refúgio da alma humana após a morte para o homem temente a Deus. A morte separava o corpo perecível da alma, mas esta, imperecível, refugiava-se nesta região chamada "luz", que representava assim, verdadeiramente, a "Porta do Céu".
O simbolismo é poderoso: a alma que vivifica o corpo humano durante a vida corpórea "anima-o" e permite a este desenvolver-se em todas as suas potencialidades. A alma é individual, mas tem a sua origem e destino na "luz" divina, essa centelha que jaz no mais profundo dos nossos seres. Muitos confundem alma com espírito, sem ver que aquela está entre este e a matéria corpórea. É a alma que nos define como indivíduos, porque se reveste de uma forma, ao invés do espírito, que é por natureza informal. A alma é indestrutível, porque após a morte, extintas todas as possibilidades da vida humana neste mundo, se recolhe de volta à luz de onde veio. Ali, cada alma aguarda o final dos tempos, a dissolução dos "séculos" em cinzas ("solvet saeclum in favilla", como ensina a liturgia católica do na missa de requiem), altura em que, revestida do corpo glorioso, se poderá voltar a manifestar em todas as suas potencialidades.
A Natureza fornece-nos poderosas metáforas, como aquela apontada por Guénon, relativamente à passagem da lagarta a crisálida, e desta a borboleta: duas passagens análogas à morte física e à ressurreição da carne.
É frequente constatar alguma polémica sempre que se fala sobre a cremação dos mortos. Perguntaram-me, em tempos, se o catolicismo permitia a cremação dos mortos. É um facto que a permite, e a razão para esta permissão está intimamente ligada a esta crença na imortalidade da alma, que está presente na cultura hebraica, como na grega, na islâmica, na cristã ou mesmo na remota hindu.
O fogo da cremação nada pode contra a "cidade de Luz", contra esse "lugar psíquico" para onde a alma se retira em estado de não-manifestação após a morte. Sendo um "lugar" fora do espaço, não está sujeito à destruição pelo fogo.
A cremação em nada invalida a "ressurreição da carne", quando a semente nascida de luz que é a nossa alma regressar à manifestação por via de um novo corpo, desta vez glorioso porque perene e incorruptível.
É este o mistério da vitória sobre a Morte que está presente neste episódio de Jacob e no seu complexo e enigmático simbolismo.
Jesus nasce em Belém por altura do solstício de Inverno, quando as trevas são vencidas pela luz com o retorno do crescimento dos dias em termos de horas solares. Hoje em dia, está na moda retirar originalidade ao Natal cristão. Ao invés de procurarem, nas vozes da tradição cristã, os ecos de tradições hoje desaparecidas, os ignorantes procuram demonstrar uma suposta artificialidade do cristianismo, apresentando-o como um sucedâneo, uma cópia, um plágio, de várias tradições pagãs, como por exemplo, o mitraísmo.
São ignorantes, porque desconhecem a essência dos paralelismos que encontram (se bem que, muitas vezes, pura e simplesmente inventem paralelismos inexistentes). Esses paralelismos, os reais, não reflectem plágios.
Há concordância em vários aspetos entre o cristianismo e as restantes tradições espirituais da Humanidade que o precederam no ciclo histórico. Isso apenas reforça o facto de que o cristianismo não nega as ideias verdadeiras, nem os reflexos luminosos preservados por outras tradições antigas.
Mas o simbolismo cristão possui uma vida própria, uma autonomia notável inerente à sua Revelação.
Jesus nasce em Belém ("Beth-lehem", a "Casa do Pão"), porque agora é o Pão da Vida que representa Deus no meio de nós. Na Nova Aliança representada na figura de Jesus Cristo, a pedra sagrada de Betel cede o lugar ao pão sagrado.
É a Eucaristia, presença real do divino Cristo, que se torna, para os cristãos, na nova shekinah, a presença de Deus no meio de nós. Depois de nos darmos conta do surpreendente paralelismo entre "Beth-El" e "Beth-lehem", entre a "pedra" e o "pão", como é possível não manifestar surpresa perante uma releitura deste conhecido trecho de São Lucas?
Cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-Se do Jordão e foi levado pelo Espírito para o Deserto, onde esteve durante quarenta dias e foi tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e quando eles terminaram, sentiu fome. Disse-Lhe o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem».- São Lucas, 4, 1-4.
Jesus faz, de facto, a transformação das pedras em pão, a transformação de Betel em Belém, porque é o Seu Corpo que se torna presença de Deus no meio de nós ("Emmanuel", "Deus connosco"), suplantando de uma vez por todas a sacralidade dos bétilos da Velha Aliança, que era uma sacralidade menor, porque encontrava o seu suporte material nas substâncias inanimadas. Mas esta é uma transformação transcendente, que o Diabo tenta, como é sua marca, perverter num mero gesto de magia. "Nem só de pão vive o homem", diz Jesus, revelando que a verdadeira Vida é invisível, é aquela que é vivificada pelo "pão celestial", a Palavra de Deus, ao invés da vida humana e corpórea, que vive do pão terreno e que é meramente passageira.
Belém é, assim, a nova Betel, a nova Casa de Deus, e a nova Porta do Céu. É também por esta razão que se diz que os anjos acorreram a Belém, do mesmo modo paralelo a quando acorreram a Jacob durante o seu sonho. A shekinah é peregrina: Deus manifesta-Se onde bem entende.
Deus não tem morada fixa nesta Terra. Jesus, o Deus peregrino, nasce numa manjedoura.
E é visitado por pastores, que de todas as profissões humanas, é a que melhor representa o papel do nomadismo peregrino. A estrela de Belém apontou o caminho para o "axis mundi" aos Reis Magos (os representantes da Tradição que vêm honrar o Filho de Deus acabado de nascer), o local neste planeta onde, há dois mil anos, o Salvador se fez Homem, tornando-se presença de Deus na Criação.
Mas sobre os Reis Magos falarei daqui a uns dias, quando for mais apropriado...
Os meus estimados leitores materialistas e positivistas não darão grande valor a esta misturangada de termos, cegos como estão àquilo que é invisível aos olhos. Na minha linguagem deficitária e imperfeita, tentei transmitir um pouco do brilho luminoso e divino que vejo no Natal, uma tradição milenar que jaz na profundidade do ser humano e da sua rica experiência religiosa.
Será que apenas apontei aqui coincidências?
Jogos de palavras que por mero acaso suscitam paralelos ilusórios?
Ou tratar-se-ão dos reflexos de uma luz fugidia - refractada na imperfeição do meu entendimento limitado - uma luz que emana das entranhas da misteriosa cidade à qual os hebraicos chamavam Luz?
O pior cego é o que se recusa a ver, porque prefere as Trevas à Luz, escolhendo, sem o saber, a morte deste mundo à Vida do próximo.
Um óptimo Natal para todos!
Sim, porque a época do Natal só se conclui no Dia de Reis, não convém esquecer.
(simbolismo adaptado da obra de René Guénon, Le Roi du Monde, cap. VII - «Luz», ou le séjour d'immortalité, 1927)
Afixado por Bernardo Motta às 09:58 | Afixadelas (14)
dezembro 22, 2005
Vertigem
Tenho sentimentos contraditórios em relação ao Natal.
Sim, é verdade que se trata de uma época do ano que marca sempre, e não nego que gosto da pausa que o 24 e o 25 representam na velocidade vertiginosa do resto do ano.
Mas, sinceramente, em que é que o mês de Dezembro se tornou?
Não me lembro de um mês mais caótico do que este. Se eu somar todas as horinhas que dormi, desde 1 de Dezembro, dá qualquer coisa como uma ou duas noites inteiras. INFERNO!
O trabalho, no mês de Dezembro, parece que duplica, quase como para justificar, horinha a horinha, o subsídio do 14º mês.
Depois, são as omnipresentes compras. Compras e mais compras!
Presente para este, presente para aquele, mais um presentinho aqui, outro acolá!
Irra!
Natal é mesmo compras, raios partam...
Trânsito... Sim, muito trânsito. Agora, com aquela maldita árvore no Terreiro do Paço, uma árvore que aprendi a odiar (mas está linda, não está?), de tantas horas que perdi, preso em filas intermináveis de condutores que a visitam duas e três vezes por dia, trazendo a família toda no carro, mais o gato.
Isto é a síntese do mês de Dezembro em Lisboa (não sei se é assim no resto do país, porque passo este mês sempre por cá): shoppings e trânsito.
Nesta vertigem pseudo-natalícia, o Natal passa-nos ao lado, e se não fora o carácter genuíno da reunião familiar nos dias 24 e 25, tudo isto de nada valeria.
A prova de que este mês é um mês acelerado e para celerados é que ando há umas boas semanas para escrever uma treta de uma postazinha sobre alguns detalhes simbólicos do Natal, mais concretamente sobre Belém. Umas ideias giras que gostava de colocar por escrito.
Mas escrevo esta posta em desespero: tinha (e tenho) esta ideia para uma posta sobre o simbolismo do Natal, e já a tenho há semanas, mas para a escrever, teria que ter disponíveis uns quarenta minutitos. Só isso, quarenta míseros minutos!
Ora bolas, não os tenho!
Há certamente muita gente que não se importa, porque as minhas postas são quase sempre sobre religião, e eu sei que para muitos isso já enjoa. Mas a minha participação aqui no Afixe anda pelas ruas da amargura. Abaixo de cão!
E por culpa de quem?
Do NATAL!
Afixado por Bernardo Motta às 09:37 | Afixadelas (7)
dezembro 13, 2005
Beijox
Hoje, ao enviar um e-mail, enganei-me a escrever "beijos" e escrevi "beijox".
E fez-se luz! "Beijox" era um daqueles neologismos óbvios e instantâneos, sozinho, coitadinho, à espera de ser descoberto por alguém!
"Beijoxs" são beijos dados por beiçolas carregadinhas de Botox!
E estes estão cada vez mais na moda, como todos sabemos!
(Achou este mini-post imbecil e surreal? Pois é! Mas o mundo está a transformar-se num lugar imbecil e surreal, e há que acompanhar os tempos!)
Afixado por Bernardo Motta às 12:23 | Afixadelas (13)
dezembro 04, 2005
Bandeira inconstitucional?
A Bandeira Nacional não obedece à Constituição da República Portuguesa!

Notem bem que as cinco quinas formam claramente uma cruz!
Já para não falar nos cinco besantes dentro de cada quina, que podem provocar uma desagradável evocação das cinco chagas de Cristo!
Será que a sempre atenta Associação República e Laicidade já começou uma campanha para alterar a bandeira? Não tenho quaisquer dúvidas de que esta bandeira, assim como está, não obedece à Constituição. Como símbolo nacional, a bandeira não pode proteger qualquer credo!
A inclusão vergonhosa de iconografia cristã na Bandeira Nacional fere a laicidade do Estado!
Além do mais, no seguimento das recentes normativas ideológicas da União Europeia, devemos renegar a herança cristã da nossa História! Há que apagar rapidamente todas as marcas desse período obscuro dominado pela superstição!
Mudemos a bandeira! Já!
(NOTA: Este post é irónico e serve o propósito de tentar acordar alguns nossos conterrâneos do torpor laicizante em que se encontram. Convém fazer esta nota, porque há sempre leitores mais distraídos...)
Afixado por Bernardo Motta às 17:49 | Afixadelas (13)
Bandeira inconstitucional?
A Bandeira Nacional não obedece à Constituição da República Portuguesa!

Notem bem que as cinco quinas formam claramente uma cruz!
Já para não falar nos cinco besantes dentro de cada quina, que podem provocar uma desagradável evocação das cinco chagas de Cristo!
Será que a sempre atenta Associação República e Laicidade já começou uma campanha para alterar a bandeira? Não tenho quaisquer dúvidas de que esta bandeira, assim como está, não obedece à Constituição. Como símbolo nacional, a bandeira não pode proteger qualquer credo!
A inclusão vergonhosa de iconografia cristã na Bandeira Nacional fere a laicidade do Estado!
Além do mais, no seguimento das recentes normativas ideológicas da União Europeia, devemos renegar a herança cristã da nossa História! Há que apagar rapidamente todas as marcas desse período obscuro dominado pela superstição!
Mudemos a bandeira! Já!
(NOTA: Este post é irónico e serve o propósito de tentar acordar alguns nossos conterrâneos do torpor laicizante em que se encontram. Convém fazer esta nota, porque há sempre leitores mais distraídos...)
Afixado por Bernardo Motta às 17:49 | Afixadelas (13)
novembro 28, 2005
«Soltem os crucifixos!»
... pedem eles!
Bom, é evidente que tinha que responder ao desafio do Mário.
Já aqui no Afixe discorri largamente (demasiadas vezes e de forma demasiado longa) sobre a questão da laicidade e da exteriorização dos símbolos religiosos.
É legítimo retirar os crucifixos das Escolas portuguesas?
Penso que não.
É necessário fazê-lo para cumprir a Constituição?
Penso que não.
Interlúdio
Neste debate, não posso deixar entrar de forma descontrolada as minhas convicções e ideias pessoais, uma vez que, intelectualmente, ainda não me decidi de forma definitiva sobre a legitimidade da laicidade. Ou seja, ainda não me convenci de que a separação entre a Igreja e o Estado seja uma coisa boa em absoluto. Antes que caia o Carmo (e por arrasto, a Trindade), eu reitero aquelas palavrinhas do final, "em absoluto".
No estado actual do mundo moderno, e mais concretamente do nosso querido país, com o ambiente intelectualmente tão desfavorável a outra alternativa, reconheço que não se pode fugir muito ao modelo actual de "democracia laica". O que não me impede de, teoricamente, pensar noutros modelos ou reflectir sobre os inconvenientes e imperfeições deste modelo.
Mas adiante...
Fim de Interlúdio
Peguemos como facto assente na nossa Constituição, e nos seus pilares de Democracia e Laicidade.
É um facto que o Estado não tem confissão religiosa e não pode financiar nem patrocinar confissões religiosas em concreto. Ou seja, o Estado não pode pagar crucifixos para serem colocados nas Escolas.
Devolvo o desafio aos meus amigos que partilham da justeza desta recente decisão:
E se os crucifixos afixados forem doados a cada escola pela comunidade local?
Eu sei bem que não estou a responder a nada, apenas estou a colocar questões. Mas vou mais longe...
Será inconstitucional que um aluno use material escolar (papéis, lápis, canetas, marcadores, giz, carteiras, paredes, punaises, etc.) para desenhar motivos religiosos?
É inconstitucional que uma criança afixe um trabalho de desenho na parede da sala de aula onde seja nitidamente reconhecível um crucifixo, um Anjo, ou o Menino Jesus?
É inconstitucional que uma Comissão de Alunos e Pais delibere, num dado Natal, fazer um teatro de Escola subordinado ao tema "O Nascimento de Jesus", numa escola de aldeia onde todos os alunos sejam católicos praticantes?
Onde está a fronteira?
É essa a minha reflexão actual.
Tenho mais dúvidas do que certezas nesta matéria.
Mas o Estado, aparentemente, está cheio de certezas!
Vamos ver se não estamos a seguir na típica estrada do deslumbramento francês. Como sempre, Portugal imita a França. O que se segue? A proibição das cruzes nos fios ao pescoço?
Essa eu gostava de ver: o Estado proibir o uso, por parte dos alunos, de fios ao pescoço com cruzes que exteriorizem "agressivamente" o seu cristianismo!
Não será tudo isto uma patetice exagerada? Uma aplicação errada da Constituição a matéria que pode estar sob a alçada dos direitos individuais das pessoas e das comunidades?
Como bem disse o Gibel, a Constituição, e a bom ver, todas as leis do Estado de Direito, não estão feitas para deliberar sobre tudo o que mexe!
Afixado por Bernardo Motta às 17:10 | Afixadelas (28)
Confusões da Joana Amaral Dias
Não costumo visitar muito este blogue, mas lendo a posta do Gibel abaixo, não resisti a fazer uma resposta comentada a este recente texto de Joana Amaral Dias.
Na minha opinião, o texto é simplesmente inconcebível. Vamos lê-lo por partes:
A Igreja Católica decidiu proibir o sacerdócio a homossexuais.
A frase dá a ideia de que se trata de algo novo. A Igreja não mudou a sua doutrina nesta matéria. Como é que tanta gente não percebe a diferença entre a afirmação de uma posição nova e a reafirmação de uma posição pré-existente (que é o presente caso)?
Como é suposto os padres não terem orientações sexuais, ficam várias questões. Primeiro, os padres heterossexuais são permitidos?
Os padres não devem ter actividade sexual, mas podem, como toda a gente, ter "orientação sexual". Contudo, devem praticar a castidade. Uma obrigação que decorre do sacerdócio ao qual aderem livremente. Porque será que tantos pensam que o sacerdócio obriga a uma total extirpação da sexualidade do ser humano? Castidade é abstenção de prática sexual e não extirpação da sexualidade.
Segundo: Se a medida pretende, de algum modo, prevenir a Pedofilia, é completamente errada. A homossexualidade não tem nada a ver com pedofilia. E a pedofilia não vitima apenas rapazes. Aliás, a maioria das vítimas de pedofilia são raparigas.
Pasmo-me. De onde é que a Joana tirou a ideia de que esta tomada de posição tinha alguma coisa a ver com pedofilia? Onde é que ela leu a palavra "pedofilia" no texto da notícia?
Terceiro: sendo esta uma decisão discriminatória, pode uma Religião ir contra a Constituição?
Há aqui uma noção muito confusa do âmbito e alcance da Constituiçã,o e com a noção que a Joana tem de Liberdade em geral e das liberdades individuais. O Gibel já falou neste ponto e não vou insistir. A Igreja Católica pode estabelecer os pré-requisitos que bem entender para o seu sacerdócio, e a Constituição não é para aqui chamada!
A Joana Amaral Dias quer o fim da Igreja Católica, ou quer mudá-la para que ela passe a "obedecer" à Constituição? Se a Joana quer o fim da Igreja, pois que concentre os seus esforços nisso! Porque tentar acabar com uma institução, ao mesmo tempo que se tenta que ela mude, é uma grande contradição.
E já agora, para que a Igreja fosse "constitucional", qual a constituição a escolher? De que país?
Onde é que está a lógica deste texto?
Quarto, como é que exactamente pretende a Igreja Católica avaliar e determinar as orientações sexuais dos candidatos ao sacerdócio? E como é que, três anos depois, pretende avaliar se o candidato superou (mesmo supondo que isso existe) as suas orientações sexuais?
A Igreja tem locais apropriados para se inteirar dos pré-requisitos dos candidatos ao sacerdócio: esses locais chamam-se "Seminários". Se essa selecção e avaliação funciona bem ou mal, compete à Igreja determinar. De onde vem a preocupação da Joana com a eficiência deste processo interno da Igreja?
Esta posição da Igreja Católica, que não é nova mas que recebeu agora grande destaque, consiste em fazer do grave problema que tem- os padres pedófilos- um ataque aos homossexuais.
Foi isso o que a Joana leu? Deveria ler a notícia outra vez...
Em vez de resolver o crime que se passa no interior da sua própria organização, a Igreja Católica entende que passando ao ataque aos homossexuais dá a imagem à opinião pública que o problema vem de fora.
Se esta medida não traz nada doutrinamente novo, como a Joana (oh incoerência) tão claramente dá a entender que afinal até sabe, então porque é que isto seria um "ataque" aos homossexuais? Há razões de doutrina para esta tomada de posição, que não é nova. Sendo assim, discordando ou não das razões da Igreja, não entendo como é que isto pode ser visto como um ataque aos homossexuais (se assim fosse, a Igreja não os acolheria no universo dos crentes), e muito menos entendo o que é que isto tem a ver com pedofilia!
Se a Joana nos dissesse que, por exemplo, a Igreja "ataca" os hereges porque os expulsa e às suas heresias, ainda seria ligeiramente compreensível, apesar do peso desproporcionado do verbo "atacar", uma vez que uma decisão de expulsão pode ser legítima e justa sem ter que ser vista como um ataque.
Agora, sabendo a Joana (porque o saberá), que a Igreja não expulsa os homossexuais, em que pé fica este suposto ataque aos homossexuais? Um ataque incompleto?
Porque é que a Igreja não expulsa os homossexuais da comunhão dos crentes?
Será que a Joana alguma vez pensou nisto?
Parece que não.
Mas, lá dentro, e perante a própria exigência de celibato, as perversões sexuais continuarão, obviamente, a existir.
Ou seja, é a exigência do celibato que gera perversões sexuais?
E um celibatário que não seja sacerdote? Será sempre alguém sexualmente perverso?
Ou só os sacerdotes é que, com o celibato, se podem tornar pessoas sexualmente perversas?
Se não posso fazer sexo, tenho que praticar perversidades sexuais?
É assim?
Não sei se percebi a dedução da Joana, que ela reforça com um "obviamente", como se a premissa de celibato nos levasse, "obviamente", à génese das perversões sexuais no seio da Igreja.
Tanto quanto a eleição de bodes-expiatórios.
Que apenas existe na imaginação da Joana!
Que texto tão pateta...
Será que certas pessoas não se enxergam?
Será que não sabem que, para falarem sobre certos temas, devem ter conhecimentos sobre a matéria que escolhem comentar?
Para finalizar, há um enorme abismo entre estas duas realidades:
A) a legitimidade do Estado de Direito em intervir, através dos Órgãos de Soberania apropriados, na aplicação de penas a crimes cometidos por qualquer cidadão (mesmo sacerdote)
B) a ilegitimidade do Estado de Direito em se imiscuir em questões de liberdade religiosa e de liberdade de associação; o Estado não pode determinar as regras de organizações privadas como é a Igreja Católica; o Estado não pode proibir as opções morais e doutrinais dos católicos
Afixado por Bernardo Motta às 16:05 | Afixadelas (13)
novembro 23, 2005
A direcção do Progresso
Alguns comentários a uma notícia no Público (mas que saiu um pouco por toda a comunicação social) que tem entusiasmado muita gente hoje, apesar de não trazer practicamente nada de novo...
A associação de "gays" e lésbicas ILGA Portugal lamenta a proibição da ordenação religiosa de homossexuais imposta pelo Vaticano e classifica esta decisão, que será oficializada na próxima semana, como "mais um erro histórico" da Igreja Católica e um retrocesso em relação às orientações de outras igrejas.
Por muito que me espante o interesse da ILGA Portugal em proteger os interesses dos gays (e porque não das lésbicas) no que toca ao acesso ao sacerdócio, devo dizer que o facto de a Igreja Católica marcar a diferença em relação "às orientações de outras igrejas" é, para mim, um óptimo sinal.
De facto, há duas formas de ver o problema:
1. A usada pela ILGA: ou seja, a Igreja Católica está em "retrocesso", enquanto que as "outras igrejas" estão em "progresso"; mais uma vez, um óptimo exemplo da preferência do pensar moderno pelo conceito enganador do Progresso, e pelo uso criterioso desta palavra mágica;
2. A oposta à usada pela ILGA: ou seja, a Igreja Católica seria a única que não estaria em retrocesso.
São formas exclusivas. Se uma está certa, a outra está errada.
Dá que pensar, não dá?
Veja-se a quantidade de coisas que cabem dentro da caixa do Progresso: o aborto livre é "progresso", o sacerdócio para os gays e lésbicas é "progresso", a manipulação genética de embriões humanos é "progresso", o abandono de uma religião é "progresso". Admirável mundo novo, este que se aproxima, hã?
Vejamos o resto da notícia...
"Julgamos que se trata de mais um erro histórico, numa longa história com bastantes erros da Igreja Católica Apostólica Romana, num momento em que, precisamente, as outras igrejas, mostram uma boa filosofia de inclusão, nomeadamente, a Igreja Anglicana e recentemente na Igreja Sueca, que, inclusivamente põe a hipótese de abençoar as uniões entre as pessoas do mesmo sexo".
Vou descodificar. Paulo Côrte-Real, o dirigente da ILGA Portugal, diz julgar que se trata de "mais um erro histórico". Caro leitor, eu ajudo. Ele quer dizer que a recusa do acesso dos homossexuais ao sacerdócio é um erro histórico. Olhe, assim como foi a Inquisição, por exemplo! A mente moderna conhece bem este erro histórico da Igreja Católica, e assim, a negação do sacerdócio aos gays é um pouco como uma Inquisição outra vez, mas agora contra os gays! Tudo erros históricos!
Ah, o poder das palavras...
Continuemos. Segundo Paulo Côrte-Real, as "outras igrejas" mostram uma boa "filosofia de inclusão" (sic)! Numa total ignorância (intencional) dos requisitos da ordenação sacerdotal, este senhor defende a "filosofia de inclusão" das "outras igrejas". Sim, as "outras igrejas" são as "igrejas boas", ou se quisermos ser mais intelectuais, são as "igrejas progressistas".
Agora o leitor está mesmo confuso! Mas então os activistas gays não costumam, pelo menos aqueles que vemos mais nas televisões e nos jornais, demonstrar um desprezo pela atitude religiosa? Então como é que existiriam igrejas boas?
Pois é. Grande confusão!
Mas parece que, para a ILGA Portugal, são boas as Igrejas protestantes que querem dar o passo em frente para o aval ao matrimónio gay, e que gostam da diversidade colorida que os gays e as lésbicas trazem ao seu já misto e animado sacerdócio.
Agora mais a sério, todas estas questões, como a da ordenação das mulheres, a da validação do matrimónio religioso homossexual, ou como a do acesso dos homossexuais à ordenação, são tudo questões mais intimamente ligadas do que poderíamos supor. São todas questões que nos mostram claramente os "sinais dos tempos".
A Reforma protestante marcou na História o ponto de viragem e o nascimento da já complexa árvore protestante. São precisos anos de experiência para dominar, mesmo superficialmente, o complexo mundo matizado do protestantismo. Eles são luteranos, adventistas, calvinistas, baptistas, metodistas, evangélicos, e infinitas outras variantes. Consciente do risco que corro ao escrever isto, a árvore do protestantismo representa para mim a realidade do cristianismo fragmentado.
É na direcção da fragmentação do cristianismo que corre o rio do protestantismo. É esta, segundo os "novos pensadores", a direcção do futuro!
A direcção do PROGRESSO!
Afixado por Bernardo Motta às 19:02 | Afixadelas (7)
A direcção do Progresso
Alguns comentários a uma notícia no Público (mas que saiu um pouco por toda a comunicação social) que tem entusiasmado muita gente hoje, apesar de não trazer practicamente nada de novo...
A associação de "gays" e lésbicas ILGA Portugal lamenta a proibição da ordenação religiosa de homossexuais imposta pelo Vaticano e classifica esta decisão, que será oficializada na próxima semana, como "mais um erro histórico" da Igreja Católica e um retrocesso em relação às orientações de outras igrejas.
Por muito que me espante o interesse da ILGA Portugal em proteger os interesses dos gays (e porque não das lésbicas) no que toca ao acesso ao sacerdócio, devo dizer que o facto de a Igreja Católica marcar a diferença em relação "às orientações de outras igrejas" é, para mim, um óptimo sinal.
De facto, há duas formas de ver o problema:
1. A usada pela ILGA: ou seja, a Igreja Católica está em "retrocesso", enquanto que as "outras igrejas" estão em "progresso"; mais uma vez, um óptimo exemplo da preferência do pensar moderno pelo conceito enganador do Progresso, e pelo uso criterioso desta palavra mágica;
2. A oposta à usada pela ILGA: ou seja, a Igreja Católica seria a única que não estaria em retrocesso.
São formas exclusivas. Se uma está certa, a outra está errada.
Dá que pensar, não dá?
Veja-se a quantidade de coisas que cabem dentro da caixa do Progresso: o aborto livre é "progresso", o sacerdócio para os gays e lésbicas é "progresso", a manipulação genética de embriões humanos é "progresso", o abandono de uma religião é "progresso". Admirável mundo novo, este que se aproxima, hã?
Vejamos o resto da notícia...
"Julgamos que se trata de mais um erro histórico, numa longa história com bastantes erros da Igreja Católica Apostólica Romana, num momento em que, precisamente, as outras igrejas, mostram uma boa filosofia de inclusão, nomeadamente, a Igreja Anglicana e recentemente na Igreja Sueca, que, inclusivamente põe a hipótese de abençoar as uniões entre as pessoas do mesmo sexo".
Vou descodificar. Paulo Côrte-Real, o dirigente da ILGA Portugal, diz julgar que se trata de "mais um erro histórico". Caro leitor, eu ajudo. Ele quer dizer que a recusa do acesso dos homossexuais ao sacerdócio é um erro histórico. Olhe, assim como foi a Inquisição, por exemplo! A mente moderna conhece bem este erro histórico da Igreja Católica, e assim, a negação do sacerdócio aos gays é um pouco como uma Inquisição outra vez, mas agora contra os gays! Tudo erros históricos!
Ah, o poder das palavras...
Continuemos. Segundo Paulo Côrte-Real, as "outras igrejas" mostram uma boa "filosofia de inclusão" (sic)! Numa total ignorância (intencional) dos requisitos da ordenação sacerdotal, este senhor defende a "filosofia de inclusão" das "outras igrejas". Sim, as "outras igrejas" são as "igrejas boas", ou se quisermos ser mais intelectuais, são as "igrejas progressistas".
Agora o leitor está mesmo confuso! Mas então os activistas gays não costumam, pelo menos aqueles que vemos mais nas televisões e nos jornais, demonstrar um desprezo pela atitude religiosa? Então como é que existiriam igrejas boas?
Pois é. Grande confusão!
Mas parece que, para a ILGA Portugal, são boas as Igrejas protestantes que querem dar o passo em frente para o aval ao matrimónio gay, e que gostam da diversidade colorida que os gays e as lésbicas trazem ao seu já misto e animado sacerdócio.
Agora mais a sério, todas estas questões, como a da ordenação das mulheres, a da validação do matrimónio religioso homossexual, ou como a do acesso dos homossexuais à ordenação, são tudo questões mais intimamente ligadas do que poderíamos supor. São todas questões que nos mostram claramente os "sinais dos tempos".
A Reforma protestante marcou na História o ponto de viragem e o nascimento da já complexa árvore protestante. São precisos anos de experiência para dominar, mesmo superficialmente, o complexo mundo matizado do protestantismo. Eles são luteranos, adventistas, calvinistas, baptistas, metodistas, evangélicos, e infinitas outras variantes. Consciente do risco que corro ao escrever isto, a árvore do protestantismo representa para mim a realidade do cristianismo fragmentado.
É na direcção da fragmentação do cristianismo que corre o rio do protestantismo. É esta, segundo os "novos pensadores", a direcção do futuro!
A direcção do PROGRESSO!
Afixado por Bernardo Motta às 19:02 | Afixadelas (7)
novembro 15, 2005
As filhas e os filhos da República

Foi esta a expressão usada por Jacques Chirac ontem no seu primeiro comunicado ao país desde o início dos tumultos. Curiosa, a expressão, porque há uns dias que eu ando a fazer uma leitura parecida dos acontecimentos. Eu também acho que estes revoltosos são mesmo os "filhos" da República, mas num sentido um pouco diferente do do senhor Chirac.
Vejamos...
A França trouxe-nos a inovação moderna da Revolução Francesa.
Inaugurou, portanto, a "era moderna" na Europa. Foi o raiar da aurora dessa senhora simpática de mamocas ao léu, que no entanto, gostava no início de ver rolar umas cabeças na guilhotina.
Será coincidência que a França seja, precisamente, o primeiro país da "velha Europa" a recolher os frutos da pós-modernidade? Uma pós-modernidade que é consequência directa da "modernidade" inaugurada com a Revolução Francesa?
Isto de jogar às causas e consequências é jogo perigoso, porque não podemos cair em generalizações ou falsas causalidades, mas dá que pensar...
Mudando um bocado de ponto de vista, fala-se muito hoje em dia do controlo dos fluxos migratórios, dos chamados "problemas das etnias" e da integração dos estrangeiros.
Ou seja, faz-se cada vez mais o jogo das ideias imbecis da extrema direita e dos adeptos da "higiene racial"!
O que mais me pasma é que bastaria olhar (e é só um exemplo) para o vizinho Reino Unido, país que pulula de indianos que no entanto estão perfeitamente integrados e prosperam, para nos apercebermos que o problema não está nas etnias nem nas comunidades estrangeiras. E não se confunda a heterogeneidade cultural com a formação de "ghettos"!
As comunidades estrangeiras podem coexistir em grupos relativamente fechados, como forma de preservação da sua cultura, e no entanto estarem economica e laboralmente integrados no seu país de acolhimento!
O problema, a meu ver, está na própria França e nos frutos que está a colher de três séculos de opções ideológicas desastrosas...
Apesar de as causas para estes fenómenos serem muitas e variadas, também estamos a assistir a uma das consequências da campanha do "tira o véu" lançada recentemente em França pelos extremistas da laicização forçada. Juntem a fome e o desemprego à proibição dos símbolos religiosos (intolerância pura e dura) e depois queixem-se da falta de "francesismo" dos imigrantes!
Afixado por Bernardo Motta às 10:26 | Afixadelas (15)
As filhas e os filhos da República

Foi esta a expressão usada por Jacques Chirac ontem no seu primeiro comunicado ao país desde o início dos tumultos. Curiosa, a expressão, porque há uns dias que eu ando a fazer uma leitura parecida dos acontecimentos. Eu também acho que estes revoltosos são mesmo os "filhos" da República, mas num sentido um pouco diferente do do senhor Chirac.
Vejamos...
A França trouxe-nos a inovação moderna da Revolução Francesa.
Inaugurou, portanto, a "era moderna" na Europa. Foi o raiar da aurora dessa senhora simpática de mamocas ao léu, que no entanto, gostava no início de ver rolar umas cabeças na guilhotina.
Será coincidência que a França seja, precisamente, o primeiro país da "velha Europa" a recolher os frutos da pós-modernidade? Uma pós-modernidade que é consequência directa da "modernidade" inaugurada com a Revolução Francesa?
Isto de jogar às causas e consequências é jogo perigoso, porque não podemos cair em generalizações ou falsas causalidades, mas dá que pensar...
Mudando um bocado de ponto de vista, fala-se muito hoje em dia do controlo dos fluxos migratórios, dos chamados "problemas das etnias" e da integração dos estrangeiros.
Ou seja, faz-se cada vez mais o jogo das ideias imbecis da extrema direita e dos adeptos da "higiene racial"!
O que mais me pasma é que bastaria olhar (e é só um exemplo) para o vizinho Reino Unido, país que pulula de indianos que no entanto estão perfeitamente integrados e prosperam, para nos apercebermos que o problema não está nas etnias nem nas comunidades estrangeiras. E não se confunda a heterogeneidade cultural com a formação de "ghettos"!
As comunidades estrangeiras podem coexistir em grupos relativamente fechados, como forma de preservação da sua cultura, e no entanto estarem economica e laboralmente integrados no seu país de acolhimento!
O problema, a meu ver, está na própria França e nos frutos que está a colher de três séculos de opções ideológicas desastrosas...
Apesar de as causas para estes fenómenos serem muitas e variadas, também estamos a assistir a uma das consequências da campanha do "tira o véu" lançada recentemente em França pelos extremistas da laicização forçada. Juntem a fome e o desemprego à proibição dos símbolos religiosos (intolerância pura e dura) e depois queixem-se da falta de "francesismo" dos imigrantes!
Afixado por Bernardo Motta às 10:26 | Afixadelas (15)
novembro 10, 2005
Como é possível?
Retirado do Público de hoje (o sublinhado é meu):
Casa Pia: testemunha mantém acusação de abusos sexuais a cinco arguidos
10.11.2005 - 19h45 Lusa
O jovem que hoje começou a depor no julgamento do processo Casa Pia confirmou ter sido abusado sexualmente por Carlos Silvino da Silva ("Bibi"), João Ferreira Diniz, Hugo Marçal, Jorge Ritto e Carlos Cruz.
No inquérito e na instrução do processo, o jovem, actualmente com 22 anos, disse que tinha sido abusado por estes cinco arguidos, tendo mantido hoje a mesma versão, implicando também a arguida Gertrudes Nunes, ao dizer que era ela que lhes abria a porta quando se deslocavam à sua casa em Elvas para alegados encontros sexuais com adultos.
Apesar de a testemunha acusar de abusos sexuais estes cinco arguidos, apenas respondem em tribunal relativamente a este jovem Carlos Silvino da Silva (por 31 crimes de abuso sexual de pessoa internada e sete de lenocínio - favorecimento da prostituição), Gertrudes Nunes (dois de lenocínio) e Hugo Marçal (um de lenocínio).
Os restantes arguidos acusados pela testemunha não respondem por qualquer crimes relativamente a este rapaz alegadamente devido à prescrição do prazo de apresentação de queixa.(...)
Há muito que perdi a vontade de tentar compreender o caso Casa Pia...
Alguém mais versado do que eu poderá ajudar-me a entender esta notícia? Como é que alguém deixa prescrever o prazo de apresentação de queixa?
Esquecimento?
O que é que se está a passar?
Será que vão sair todos em liberdade? Todos, excepto Carlos Silvino, obviamente?
Afixado por Bernardo Motta às 20:25 | Afixadelas (5)
Como é possível?
Retirado do Público de hoje (o sublinhado é meu):
Casa Pia: testemunha mantém acusação de abusos sexuais a cinco arguidos
10.11.2005 - 19h45 Lusa
O jovem que hoje começou a depor no julgamento do processo Casa Pia confirmou ter sido abusado sexualmente por Carlos Silvino da Silva ("Bibi"), João Ferreira Diniz, Hugo Marçal, Jorge Ritto e Carlos Cruz.
No inquérito e na instrução do processo, o jovem, actualmente com 22 anos, disse que tinha sido abusado por estes cinco arguidos, tendo mantido hoje a mesma versão, implicando também a arguida Gertrudes Nunes, ao dizer que era ela que lhes abria a porta quando se deslocavam à sua casa em Elvas para alegados encontros sexuais com adultos.
Apesar de a testemunha acusar de abusos sexuais estes cinco arguidos, apenas respondem em tribunal relativamente a este jovem Carlos Silvino da Silva (por 31 crimes de abuso sexual de pessoa internada e sete de lenocínio - favorecimento da prostituição), Gertrudes Nunes (dois de lenocínio) e Hugo Marçal (um de lenocínio).
Os restantes arguidos acusados pela testemunha não respondem por qualquer crimes relativamente a este rapaz alegadamente devido à prescrição do prazo de apresentação de queixa.(...)
Há muito que perdi a vontade de tentar compreender o caso Casa Pia...
Alguém mais versado do que eu poderá ajudar-me a entender esta notícia? Como é que alguém deixa prescrever o prazo de apresentação de queixa?
Esquecimento?
O que é que se está a passar?
Será que vão sair todos em liberdade? Todos, excepto Carlos Silvino, obviamente?
Afixado por Bernardo Motta às 20:25 | Afixadelas (5)
Joseph Pearce
Foi com muito gosto que ontem à tarde assisti à conferência que inaugura mais uma presença de Joseph Pearce em Portugal.

Eis um trecho retirado do site que o apresenta:
One of the goals of his work, Pearce emphasizes, is to show how the Christian beliefs of men such as Chesterton and Tolkien informed their views about everything: politics, social ills, literature, and family life. "Deconstructionism attempts to separate the lives and beliefs of these authors from their work. This is simply literary relativism." Pearce insists, "Tolkien couldn’t have written The Lord of the Flies, nor could William Golding have written Lord of the Rings. The Catholic dimension is a key part of my biographies." Whether readers realize it or not, books such as Lord of the Rings influence their view of Catholicism, God, and reality.
O que me fascina em Pearce é que eu partilho totalmente a sua leitura do panorama cultural da actualidade. Não faz sentido fazer crítica literária a estes autores fundamentais, como Chesterton ou Tolkien, despindo-os das suas profundas crenças católicas. Sem se aperceberem, os entusiastas visionadores da saga cinematográfica O Senhor dos Anéis (eu sou um deles), estão a ver na tela uma recriação de um mundo fantástico criado com base numa vivência espiritual profundamente católica e profundamente tradicionalista. A obra de Tolkien é uma forma artisticamente graciosa e brilhante de contestar fortemente a agressividade das ideologias modernas do relativismo, do agnosticismo, do materialismo, e em geral todo o modernismo. Contudo, notamos que a propaganda à trilogia cinematográfica foi cuidadosa no ocultar da raíz católica do pensamento espiritual e filosófico de Tolkien.
Regressemos a Pierce...
Nascido numa família protestante, e revoltado pela presença de asiáticos no seu bairro natal, o autor viveu toda a sua juventude como activista agnóstico e neo-fascista. Contudo, a leitura da obra The Well and the Shadows, do jornalista e autor católico inglês G. K. Chesterton (1874-1936) lançou Pearce numa profunda busca intelectual que terminou com a negação do agnosticismo e a sua conversão ao catolicismo.
Com uma história de conversão tão viva, e pelo facto do Prof. Pearce ser uma autoridade nas vidas de grandes escritores importantes para o catolicismo contemporâneo (mesmo não sendo todos eles católicos) como T. S. Eliot, Oscar Wilde, G. K. Chesterton, Graham Greene, C. S. Lewis e Tolkien, as suas conferências são de se recomendar vivamente.
Ontem o tema foi "Catolicismo e modernidade", na qual Joseph Pearce traçou um quadro vivo da reacção católica ao modernismo através dos séculos XIX e XX, sempre com um enquadramento literário localizado na Grã-Bretanha. Foi interessante assistir à exposição de Pearce, e assim que tiver um pouco de tempo, gostaria de escrever um post a sintetizar o que consegui aprender ontem na conferência.
Aqui fica um calendário das suas próximas conferências:
10 Novembro, 5ª fª, 18h00 – “Catholic thought and Culture”
Conferência integrada no ICNE
UCP, Anfiteatro A1
Entrada Livre
11 Novembro, 6ª fª, 19h30 – “G K Chesterton: Wisdom and Innocence”
Conferência promovida pelo Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano, integrada no ICNE
UCP, Anfiteatro A1
Entrada Livre
12 Novembro, sábado – “CS Lewis and The Chronicles of Narnia”
Tertúlia em hora e local a determinar
Afixado por Bernardo Motta às 13:21 | Afixadelas (3)
novembro 09, 2005
Cristo não existiu...
Por incrível que pareça, há quem defenda esta ideia com unhas e dentes.
Não se trata de uma moda nova...
Em vez de estar sempre a implicar com os textos revisionistas da praxe, desta vez deixo em paz os donos do blogue em causa e vou falar um pouco sobre um dos tópicos do Fórum Ateísmo.net.
Neste Fórum, movimentam-se pessoas da mais variada proveniência, mas unidas por uma concepção singular do ateísmo que, em vez de radicar na filosofia, encontra fundamento e razão de ser no anticlericalismo. O nome do Fórum deveria ser "Fórum Anticlerical". Não que eu tenha alguma coisa contra a livre expressão de ideias anticlericais, só me parece que se deveriam dar os nomes correctos às coisas.
Adiante...
Por puro acaso, tropecei num tópico intitulado "As Origens do Cristianismo". O pomposo título dava um ar académico à coisa e decidi clicar para ver o que sucedia...
Antes de prosseguir, esclareço que este tópico não é da responsabilidade dos autores do Fórum, mas apenas dos participantes. Não quero ser injusto, porque a minha crítica irá incidir, sobretudo, na credulidade de um tal Óscar Pinto, que brindou aquele Fórum com um texto inspirado em Asharya S.
"Em quê?", pergunta-me o leitor...
Vou repetir: um texto inspirado em Asharya S.!
"O que é isso?", pergunta-me o leitor...
Vou tentar ajudar... Asharya S. recebeu, recentemente, um elogio de Barbara Walker:
You deserve to be recognized as a leading researcher and an expert in the field of comparative mythology, on a par with James Frazer or Robert Graves--indeed, superior to those forerunners in the frankness of your conclusions and the volume of your evidence.
Agora pergunta o leitor:
"Mas quem é essa Barbara Walker?"
Sinceramente, é um bocado irrelevante. Basta fazer umas pesquisas na Internet para também ficarmos a conhecer a obra de Barbara Walker. Ora bem, regressando à nossa Asharya, segundo a própria e os seus amigos, ela é uma "autoridade em cristianismo e mitologia".
Vemos assim o participante Óscar Pinto brindar o Fórum Ateísmo.net com um texto pretensamente "académico" sobre o "mito de Cristo", da autoria da ufologista Asharya! A figura de Asharya S. é bem conhecida no mundo da Ufologia, contudo, o seu academicismo resume-se a uma questionável peritagem neste último "ramo do saber".
Para os interessados, eis o site de Asharya S.:
Truth Be Known
Penso que, navegando um pouco mais neste site, não serão necessárias mais explicações sobre a competência desta escritora. É bem certo que o Fórum Ateísmo.net não pode ser responsabilizado por ter nas suas páginas propaganda ufológica mascarada de pretenso academicismo. Contudo, a ideia brilhante da falsidade histórica de Cristo não é estranha à equipa que gere este espaço.
O problema é que Asharya S. não tem a sofisticação nem o requinte de um bom impostor, como por exemplo, o clássico Kersey Graves, que em 1875 publicou a sua pérola The World's Sixteen Crucified Saviours.
A obra de Graves é hoje contestada fortemente como pseudo-história tanto por ateístas como por teístas. É um caso clássico da literatura anticlerical do século XIX. Mas o que vemos neste tópico que referi é algo de muito pior, de muito mais fajuto do que Graves. Recorrer à conspiracionista delirante Asharya S. como se fosse uma autoridade no tema é como possuir automaticamente um certificado de imbecilidade!
Caros amigos do Fórum Ateísmo.net, porque não fazer um pouco de moderação, para manter uma certa qualidade nos vossos tópicos? Vou dar um exemplo...
Richard Carrier, do site ateísta www.infidels.org, faz nesta página um importante exercício crítico à obra pseudo-académica de Graves:
Kersey Graves and The World's Sixteen Crucified Saviors (2003)
É estranho que, se encontramos em bons sites ateístas estrangeiros críticas sérias a obras pouco sérias sobre o cristianismo, o mesmo não esteja a suceder com o vosso site, que no entanto pretende ser uma referência (com aspirações científicas e tudo) no panorama ateísta nacional.
Afixado por Bernardo Motta às 10:44 | Afixadelas (20)
novembro 08, 2005
Potencial burla usando o nome da Amazon
Ainda há poucos minutos eu ia sendo vítima de uma potencial burla que usa indevidamente o nome e a credibilidade da Amazon. Recebi um email com este teor:
Dear Amazon® member, It has come to our attention that your Amazon order Information records are out of date.That requires you to update the order Information If you could please take 5-10 minutes out of your online experience and update your order records, you will not run into any future problems with Amazon online service. However, failure to update your records will result in account termination. Please update your records in maximum 24 hours. Once you have updated records, your Amazon session will not be interrupted and will continue as normal. To update your Amazon order Information click on the following link:http://www.amazon.com/exec/obidos/account-access-login/ref=/index
Best Regards ,
Amazon Security Departament
Por distracção, nem me dei conta de que o inglês estava mau, e faltava pontuação no texto. Trata-se com grande probabilidade de um logro. Ao clicar no endereço indicado, somos levados para uma página num outro servidor na rede, cujo endereço não corresponde ao que lemos no texto, e que não pertence à Amazon. Nesse servidor suspeito, enfeitado com símbolos da Amazon e com os menus do costume do site da Amazon, pedem-nos a "confirmação" dos dados do cartão de crédito.
Outro dado que me faz pensar que se trata de um logro é a ausência do típico cadeado no browser, que indica que os dados estão a ser enviados através de um canal encriptado. Nunca se devem preencher dados pessoais em páginas que não exibam o símbolo do cadeado de encriptação!
Este possível logro pode causar muitos danos, porque tem um ar credível. Muita gente irá, sem o saber, enviar a terceiros os seus dados de cartão de crédito.
Por favor, divulguem isto o mais possível!
Afixado por Bernardo Motta às 12:01 | Afixadelas (8)
novembro 07, 2005
Acudam que é taxista!
O título desta posta pode induzir em erro. Não quero, de forma alguma, generalizar aquilo que aqui vou escrever para o conjunto da classe profissional dos condutores de táxi. Profissão nobre essa a do taxista, que pode e deve ser exercida com orgulho e dignidade, e cujo trabalho é infelizmente manchado tantas vezes por maus profissionais.
O que vou contar de seguida não merece ser catalogado na categoria de "Mito Urbano: o Taxista agressivo", uma vez que não se trata de um mito, mas sim da mais pura das realidades. Que a cidade é uma selva, já se sabe. Que nessa selva há animais ferozes, também é sabido. Contudo, não consigo equiparar a ferocidade de um leão com a ferocidade de um taxista agressivo. Porque não encontro animal em todo o reino, não consigo escolher uma só espécie, que mereça ser comparada ao taxista agressivo. Por isso, a partir de agora, para o efeito desta história, vou chamá-lo de ogre. Usando um termo do mundo da fantasia, não ofendo ninguém (salvo o taxista ogre) e consigo passar bem a ideia que quero passar.
Esta história trata, então, de um animal feroz, mas ao qual falta toda a sofisticação e aristocracia do leão. Melhor, falta-lhe toda e qualquer sofisticação ou aristocracia.
Estava eu no meu carrito, metido na minha vida, a deambular por Lisboa num Sábado ao final da tarde. Ruas desertas, nem vivalma. Uma tarde simpática, com sol, sem chuva, sem vento nem frio.
Distraído, eu entrei num cruzamento sem me acautelar em dar prioridade a quem poderia vir da direita. Erro óbvio da minha parte, de alguma gravidade, que se deveu ao facto de eu assumir que a calma geral era tal que não havia mesmo ninguém por perto.
Mas havia!
Pela direita, descia vertiginosamente um taxista. Vinha a uma velocidade digna de um rally, de um apuramento para a Fórmula 1. Todos conhecemos bem a confiança com que guiam muitos taxistas, usando pouco ou nada do travão quando sabem que têm prioridade.
Era esse o caso: ele sabia que vinha da direita, e não via qualquer razão para abrandar à chegada ao cruzamento. Ora sucedeu que eu vinha distraído, e estando eu já a meio do cruzamento, este ogre não teve hipótese senão reagir. Primeiro, vendo-me entrar no cruzamento, o seu instinto de animal levou-o a acelerar ainda mais. Percebendo que eu não o estava a ver, foi obrigado a travar a vinte centímetros do meu carro.
Aí eu vi o ogre! E assustei-me...
Quando ele parou o carro e eu olhei para as suas narinas, todo ele era vapor!
O táxi parecia uma árvore de natal. Ele acendera todas as luzes, e agora dava todo o gás às suas quinze buzinas.
O dito ogre, em tom ameaçador, avançou o carro mais dez centímetros, fazendo questão de, embraiagem a fundo, acelerar a todo o gás. Tudo aquilo tremia!
Mais cinco centímetros... Já lhe sentia o bafo!
Então, tendo recuperado alguma confiança, e atrevido e gingão como todos os tugas, eu convidei-o, em tom desafiador, a avançar os cinco centímetros que ainda separavam a sua caranguejola do meu carrito. Afinal, já só faltavam cinco centímetros, tinhamos ambos seguro contra todos, e eu queria ver até onde é que aquilo ia...
O ogre, na sua linguagem e vocabulário rudimentares, interpretou o meu convite como um desafio para que passássemos à agressão física, da pura e da dura, como todos nós não gostamos.
Abre-se a porta da carroça do ogre... O tipo vinha fulo. Começa a ferver palavrão, como numa cena de teatro do Pinter, e o tipo em três tempos já está à beira do meu "roditas" a preparar-se para me moer. Felizmente, os vidros estavam fechados, mas apressei-me a carregar no trinco, último reduto que me separava da fera, do seu hálito ácido e corrosivo, e da sua massa de sebo vociferante e ameaçador.
Ele queria mesmo que eu saísse do carro para me desferir umas murraças valentes.
Era esse o meu castigo por não lhe ter dado prioridade, e por o ter desafiado a avançar os últimos cinco centímetros para cima do meu móbil. Era um castigo merecido, convenhamos...
Afinal, eu atrevera-me a entrar no seu território, o território da selva urbana, que é propriedade do ogre taxista.
Intuitivamente, com toda a confessa cobardia do mundo, pisei o acelerador e pus-me a milhas.
Aquilo iria acabar mal, compreendam-me... Já estavam espectadores na rua! É incrível, mas segundos antes era o deserto texano naquelas ruelas de Lisboa. Assim que cheirou a molho, era vê-los a chegar aos quilates!
E eu pensei para mim mesmo: "Testemunhas!? Massacre ao vivo com plateia!? Nada disso!". E pus-me ao fresco.
Sou cobarde. Pronto. Não se discute mais isso...
Momentos mais tarde, já mais refeito do episódio, tive que reconhecer que, de facto, eu violara uma regra de trânsito e agira sem prudência. E ponderei uns momentos sobre a eficácia punitiva deste ogre: eu, condutor incauto e criminoso, aprendera a minha lição. Para quê desperdiçar recursos em polícia de trânsito quando poderíamos ter apenas ogres destes?
E imaginei uma acção deste tipo em França. O que seriam capazes de fazer uns trezentos destes ogres largados à solta nos suburbios parisienses? Aqui fica a sugestão...
Afixado por Bernardo Motta às 14:38 | Afixadelas (5)
novembro 04, 2005
Pobres Templários...

Nestes últimos anos, assiste-se a um crescer exponencial do interesse pela ordem medieval dos Templários. Evidentemente, a massificação do interesse é sempre compensada pela superficialidade desse mesmo interesse. Nunca tantas pessoas terão falado tanto sobre os Templários como nos últimos anos. Contudo, também nunca se disseram tantas asneiras sobre eles como agora!
A ideia errada de que uma sociedade secreta como o Priorado de Sião é descendente da Ordem do Templo faz hoje parte de milhares de obras conspiratórias de pseudo-história. Também esta mesma ideia alimenta rios de obras de ficção que se multiplicam pelos escaparates das livrarias até esgotar todo o espaço de venda.
Contudo, tal ideia está longe de ser novidade. Os Templários são a "grande prostituta" do universo do esoterismo de má qualidade. Há séculos que grupos e grupelhos esotéricos procuram inserir na sua imaculada ascendência a dignidade e o prestígio de uma ligaçãozinha à Ordem do Templo.
É interminável a lista de organizações esotéricas ou semi-esotéricas que recrutam membros com base na afirmação de que descendem dos últimos Templários. No século XVIII, discutia-se, em certos meios, se a Maçonaria era ou não herdeira (nem que fosse "espiritual") da Ordem do Templo. No século XX, a discussão mantém-se, mas em torno do Priorado de Sião. Mais recentemente, através da publicidade feita pelos media, assistimos ao trágico final da Ordem do Templo Solar, criação do maníaco Luc Jouret, quando dezenas de membros morreram imolados pelo fogo. Este caso extremo demonstra bem a perigosidade da alienação que certos grupos exercem sobre as mentes mal preparadas dos seus elementos.
Os pobres cavaleiros de Cristo surgem, nestas organizações, travestidos de hereges, de profanadores, carregados com todo o tipo de metamorfoses anticrísticas, para servirem o propósito de serem inimigos secretos do catolicismo romano.
A versão "oficial" destes movimentos pseudo-esotéricos é sensivelmente a mesma: os Templários, portadores de um qualquer grande segredo esotérico, teriam sido sufocados e destruídos pelo Papado para que esse segredo não viesse a lume. Versões mais eruditas destas lendas esotéricas afirmam, fazendo alguma justiça à História, que a culpa da extinção dos Templários não pertence ao Papado mas sim à Coroa de França, mais concretamente ao monarca Filipe IV, o Belo. É verdade, mas nestas versões encontramos a ideia não provada de que os Templários praticavam rituais esotéricos secretos, centrados nalgum arcano que seria herético para a Igreja Católica.
Por tudo isto, nenhuma organização medieval está a precisar mais de uma lavagem de imagem do que estes pobres cavaleiros. Muitos deles seriam brutos e incultos, é certo, mas não merecem a injustiça a que assistimos nos dias de hoje.
Deste modo, é de louvar a intervenção da Dra. Barbara Frale, italiana, da Scuola Vaticana di Paleografia, que tem produzido nos últimos anos uma vasta documentação sobre os Templários. Em Português, está disponível nas livrarias uma obra sua sobre os Templários, uma obra que vale a pena ler.
A sua descoberta, em 2001, nos Arquivos do Vaticano, do chamado Pergaminho de Chinon (nome do castelo onde os altos dignitários templários estiveram detidos), veio revolucionar o trabalho dos investigadores que se dedicam a este tema.
Até 2001, era tese comumente aceite que os Templários tinham sido extintos basicamente por duas razões principais: por um lado, a vontade indómita do monarca francês Filipe IV em se apoderar dos bens e do poder da Ordem; por outro lado, a fraqueza do papa Clemente V (Bertrand de Got), também ele francês e cujo papado estava sedeado em França, em Avignon, em lidar com a pressão diplomática do rei Filipe e em evitar ser manipulado. Por outras palavras, Clemente V teria sido coagido a condenar os Templários, o que teria aberto as portas para o uso da força por parte de Filipe IV.
O resto já se sabe...
Foi numa sexta-feira, 13 de Outubro de 1307, pela aurora, que Jean de Verretot, o bailio de Caen, reuniu à sua volta algumas pessoas da sua confiança e lhes deu a conhecer o teor da carta que lhe enviara o rei Filipe a 14 de Setembro último:
“Uma coisa amarga, uma coisa deplorável, uma coisa seguramente horrível de pensar (…). Um crime detestável, um acto execrável (…). Uma coisa totalmente desumana, ou pior, estranha a toda a humanidade, chegou, graças ao relato de várias pessoas dignas de fé, aos nossos ouvidos (…). Os irmãos da ordem da milícia do Templo, escondendo o lobo sob a aparência do cordeiro e, sob o hábito da ordem, insultando miseravelmente a religião da nossa fé (…) negam a Cristo, cospem sobre a cruz (…) entregam-se a gestos obscenos (…) e obrigam-se, por voto da sua profissão, e sem temor de ofender a lei humana, a entregarem-se uns aos outros, sem se recusarem, sempre que se lhes pedir (…). Atendendo que a verdade não pode ser descoberta de outra forma, que uma suspeita veemente se estendeu a todos (…) decidimos que todos os membros da dita ordem do nosso reino sejam detidos, sem excepção alguma, mantidos prisioneiros e reservados ao julgamento da Igreja, e que todos os seus bens, móveis e imóveis, sejam capturados, colocados sob a nossa mão e fielmente conservados (…). É por isso que vos encarregamos e vos prescrevemos rigorosamente no que respeita ao bailio de Caen.”- Alain Demurger, Vie et Mort de l'Ordre du Temple, pp. 298-299.
O trabalho da Dra. Barbara Frale traz, contudo, informação nova surpreendente. O dito Pergaminho de Chinon consiste nas actas de um julgamento papal, realizado secretamente por Clemente V à revelia do rei francês, aos altos dignitários da Ordem. O Papa teria insistido em interrogar pessoalmente os dirigentes templários, na tentativa de ajuizar em primeira mão o teor das acusações. Frale, num artigo intitulado The Chinon chart - Papal absolution to the last Templar, Master Jacques de Molay (publicado no Journal of Medieval History, Volume 30, N.º 2, Junho de 2004, pp. 109-134), demonstra que o papa Clemente aceitou as justificações dadas pelos Templários no referente às acusações de heresia e blasfémia. Clemente V aceitou a explicação de que os casos de sodomia eram esporádicos e aceitou a explicação dada para existência de inúmeros relatos de cerimónias "heréticas". Os altos dignitários explicaram ao Papa que tais práticas consistiam num exercício preparatório para os cavaleiros, na expectativa do que teriam de enfrentar sob cativeiro mouro e sob tortura. A justificação era esta: se os cavaleiros fossem capturados e obrigados a abjurar a fé e renegar Cristo, então deveriam estar preparados e treinados para negarem Cristo com o corpo, e se necessário cuspir na Cruz, mas não negarem Cristo com o espírito.
Clemente V aceitou a explicação e absolveu secretamente os Templários!
O Pergaminho de Chinon, finalmente descoberto em 2001, demonstra-o cabalmente!
Assim, a desfaçatez das acções de Filipe IV de França tornam-se ainda mais nítidas. O Papa, possivelmente temendo uma situação de cisma, não publicou a acta de absolvição dos pobres cavaleiros, eliminando assim a possibilidade de travar o impulso indómito do rei francês. Ficam ainda por determinar com clareza os contornos da espionagem e diplomacia que resultaram na ocultação desta acta de absolvição, que assim selou o destino do grão-mestre Jacques de Molay e dos seus subordinados.
Esperemos que este "banho de realidade histórica", servido pela Dra. Frale, arrefeça um pouco os entusiasmos pseudo-esotéricos daqueles que andam a ganhar muito dinheiro com a adulteração da verdade histórica e à custa da ignorância do leitor comum sobre estes temas.
Não queria, contudo, com este mísero texto, riscar todo o mistério da História do Templo. Há ainda muito por explicar, e seria precipitado e ingénuo afirmar que todos os mitos sobre os Templários nascidos nos meios esotéricos são totalmente falsos. Sobretudo, os mitos mais antigos e não adulterados podem ter ainda muito para nos contar...
Afixado por Bernardo Motta às 18:58 | Afixadelas (4)
Instantâneos Cingaleses - VII

O relógio marcava as oito da manhã quando nos começámos a aproximar de Sigiriya, a Montanha do Leão. Estavam quase trinta graus centígrados! Um dos locais mais fascinantes do Mundo, Sigiriya é ao mesmo tempo um marco geográfico e histórico. Trata-se de uma formação rochosa de origem vulcânica: um planalto localizado a duzentos metros de altura que se ergue no meio da selva.
Este rochedo foi o palco de um breve reinado, do rei Kasyapa (477-495 d.C.). Segundo o Mahavamsa, a grande crónica nacional do Sri Lanka, este rei assassinou o seu pai Dhatusena, que reinava na antiga capital Anuradhapura. O parricida usurpou o trono que pertecia ao seu irmão Mogallana, que em breve procurou vingar-se. Para se proteger, Kasyapa construiu em Sigiriya uma fortaleza inexpugnável. A fotografia seguinte mostra um dos lados escarpados do rochedo, evidenciando uma estrutura em madeira que foi construída pela primeira vez no século XX para visitas turísticas.

Contudo, a fotografia também mostra uma parede de cor alaranjada que é a original! O excelente estado de conservação desta parede deve-se ao facto de este lado do rochedo estar mais protegido das chuvas. Do lado de dentro do muro, espalhava-se cera e polia-se a superfície. As centenas de mulheres do rei Kasyapa penteavam-se e pintavam-se reflectidas no polimento do muro, antes de estarem dignas para aparecerem perante o monarca.
Sigiriya é um local inesquecível. Hectares de selva densa esconderam durante catorze séculos um impressionante achado arqueológico: um grande complexo de piscinas, fontanários e jardins que eram usados por Kasyapa para servirem o seu palácio de verão, também ele edificado nos terrenos que circundam a base do rochedo. O tamanho das piscinas é enorme, e eram todas feitas em tijolo. Ainda hoje em dia, na época das chuvas, a pressão das águas nos reservatórios faz com que as fontes originais funcionem, aspergindo água em vários pontos dos jardins!
No Inverno, Kasyapa refugiava-se no topo do rochedo, no seu palácio repleto de luxos. Dispunha também de uma piscina em pleno palácio, alimentada com as águas das chuvas, e o palácio era utilizável enquanto houvesse água disponível da última estação pluvial. Estima-se que seria servido por um total de 2.500 pessoas.
Um dia, Kasyapa foi informado da aproximação do seu irmão Mogallana, que vinha com um exército para o capturar. Kasyapa levou as suas tropas para o confrontar. Diz a lenda que o confronto se deu num rio, cada exército ocupando um dos lados. Kasyapa, contemplando os primeiros efeitos da batalha, julgou que os seus homens desertavam, e desesperado, pôs fim à sua vida.
O período áureo de Sigiriya foi, assim, de uns curtos mas impressionantes dezoito anos.
Mogallana ofereceu Sigiriya aos monges budistas, que rapidamente transformaram o palácio de opulência num austero mosteiro. Os frescos, que muitos deles retratavam belas mulheres em trajes reduzidos, foram picados pelos monges: afinal, os atributos generosos da beleza feminina não eram adequados à correcta meditação sobre os ensinamentos de Gautama Buda!

Da enorme riqueza de frescos da altura, restam apenas meia dúzia deles, protegidos numa das escarpas do rochedo, e que naquele tempo estavam inacessíveis ao zelo destruidor dos monges. O que se vê na fotografia é ainda o fresco original, com as cores originais feitas à base de minérios e plantas. Nada disto foi retocado!
Subir a Sigiriya não é para qualquer um! São milhares de degraus sob um sol escaldante. Deve-se ir o mais cedo possível, ou o mais tarde possível, mesmo antes do nascer do sol ou mesmo depois do pôr do sol. Além disto, os inúmeros vespeiros não devem ser incomodados pelo barulho dos turistas, senão estes incorrem numa corrida algo perigosa e precipitada para o abrigo mais próximo, que fica a meio da subida! É um percurso extenuante mas que compensa todo o esforço.
Sigiriya devia ser considerada como uma das maravilhas do mundo antigo.
Para saber mais:
The Wonder and Beauty of Sigiriya
Galeria de fotografias de Sigiriya
Afixado por Bernardo Motta às 10:08 | Afixadelas (0)
novembro 01, 2005
Halloween em Portugal
Assistiu-se um pouco por todo o lado aos festejos do Halloween. Desde há uns anos a esta parte, o costume surgiu também entre nós, ou melhor, ressurgiu entre nós.
É comum escutarmos os críticos da praxe com o discurso costumeiro de que Portugal é um país de imitadores, que só gostamos de ter aquilo que os estrangeiros têm, que só gostamos de fazer aquilo que os estrangeiros fazem... Que injustiça!
Quem conheça o amor do português pelas suas tradições, o seu amor pela história e cultura do seu país, só poderá ficar indignado com estas opiniões! Haverá povo algum mais pronto a abdicar de todas as pressões culturais estrangeiras para defender as suas tradições do que o português?
Este nobre país cujos governantes não descansam enquanto não promovem lá fora os nossos vinhos, a riqueza da nossa gastronomia, a nossa música, a nossa História, as nossas paisagens?
Este nobre país que há anos compreendeu a importância vital de um instrumento como a guitarra portuguesa (só para citar um exemplo), instrumento único no mundo, tendo desde cedo promovido a construção de locais de ensino, perpetuação e preservação do legado musical desse cordofone, para passar a sua tradição às novas gentes?
Pois são injustos, como vemos, estes críticos que se assustam com certas pressões culturais estrangeiras! E logo em Portugal! Tenham vergonha...
Comecei por falar no Halloween e já estarão todos a pensar para onde é que vai este post.
Pois bem... O Halloween não é uma importação cultural!
Ora tomem, ó críticos maldizentes, que só sabem denegrir este nosso país tão patriota e orgulhoso de si mesmo!
O Halloween é bem português!
O Afixe foi ao interior profundo de Portugal e fez uma longa pesquisa etnográfica.
E o que encontrámos nós?
Encontrámos a tradição perdida da Festa da Alduína!
A Alduína, diz a lenda, era uma bruxa que aterrorizava as populações porque era daquelas que andavam de vassoura e tinham uma higiene oral terrível.
Há quatrocentos anos, todos os meninos e meninas tinham medo da Alduína!
E os pais e as mães, para os sossegarem, faziam uma festa pelo 1 de Novembro na qual os miúdos podíam ir de porta em porta, vestidos de Alduína, à cata de bolotas caramelizadas. Quando batiam à porta, eles diziam:
"Trincó dente!", que era como quem queria dizer: "Ó tia Alice, venham daí umas bolotas caramelizadas!".
E foram os nossos grandes amigos (e velhos aliados) ingleses, durante os tempos em que nos prestaram o belo trabalho de nos ajudar a rechaçar os nossos outros grandes amigos franceses, que levaram daqui a tradição da Festa da Alduína. Não contentes por nos limparem as pratas e o ouro dos altares e das casas, os nossos amigos e aliados ingleses, como soldo pela ajuda contra os exércitos napoleónicos, fanaram-nos a Festa da Alduína!
Passados dois séculos, o país esqueceu-se da Alduína. Os ingleses levaram a tradição da Alduína para os Estados Unidos da América, onde se difundiu com o nome espúrio de Halloween. Hoje, erradamente, julga-se que o Halloween é uma festa "dos amaricanos", e que se devem pôr as nossas crianças a dizer, de boca aberta e dentes cariados, mas num sotaque impecável do British Council, um belo "Trick or treat"!
Errado! Antigamente dizia-se "Trincó dente!".
Está na hora de fazer renascer o orgulho que deveríamos sentir por uma das mais antigas tradições do nosso país!
Afixado por Bernardo Motta às 00:00 | Afixadelas (3)
outubro 28, 2005
Ética e Política
Vinha agora no carro a ouvir o Louçã a ser entrevistado na rádio sobre a eterna questão do aborto.
Pego nele mas poderia pegar noutro político qualquer. Haverá algum político que ainda seja da opinião que a ética precede a política?
Se assim fosse, como seria possível Louçã, e todos os outros, falarem exclusivamente de política quando a matéria em discussão extravasa largamente esse âmbito para entrar na ética?
Ouvimos Louçã e é sempre o mesmo disco: pode-se espremer o seu discurso vago e oco em uma só ideia:
"Em Portugal há um atraso cultural e civilizacional".
Para Louçã, a questão do aborto é quase uma questão de higiene. Para ele, Portugal está atrasado "em relação aos outros países". É sempre esta a tónica oca: "os outros países".
Poderíamos pensar, ingenuamente, que os políticos, quando deparados com problemáticas do foro ético, recorreriam aos especialistas em ética, pensariam de modo filosófico ou socorrer-se-iam de pessoas com competência nessas áreas. Esperava-se um amplo debate ético e filosófico sobre as implicações do aborto.
Notem bem: sendo eu católico ainda nem sequer usei uma só palavra ou um só argumento religioso. Não preciso!
É isso que é espantoso!
O que se esperaria era que o debate ético precedesse o debate político.
Mas isso não acontece.
O aborto, para estes senhores que representam a classe política hodierna, é mero factor de distinção entre progresso e retrocesso civilizacional:
País com aborto legal = país evoluído
País sem aborto legal = país atrasado
E pronto!
Está feita a política!
Aqui entre nós, devo ser franco: sendo eu anti-abortista, não tenho qualquer esperança depositada na vitória das minhas convicções. Quando se votou no último referendo, os do "não ao aborto" cantaram vitória, mas já cheirava a derrota, porque era tudo uma questão de tempo.
Uma questão de tempo...
Não tenho quaisquer dúvidas de que basta esperar uma década, talvez um pouco menos, talvez um pouco mais, para termos aborto legal, com limites muito menos duros que os actuais, eutanásia legal, controlo quase liberalizado (graças às pressões do mercado e dos fazedores de opinião da praxe) de material genético humano, entre outras coisas boas da nossa avançada civilização tecnológica.
Sou catastrófico?
Porquê?
Então, todas estas coisas que eu referi são boas ou não?
São ou não são avanços civilizacionais?
São ou não são vitórias dos direitos humanos?
Ironia à parte, eu estou seguro de uma coisa: nesta civilização em decadência (minha opinião), o declive da ética é descendente. Vimos suceder o mesmo no Império Romano. A civilização moderna está em decadência e a pouca importância que se dá à ética e à filosofia espelha-se em todos os sectores da actividade intelectual.
Mas por todo o lado, com estas pequenas "vitórias" anti-éticas que se aproximam e que acabam por chegar e por se estabelecer, o grande glutão da degradação vai-se enchendo, rodeado pelas nossas "elites" intelectuais que vão aplaudindo o espectáculo.
Podiam era ter mais vergonha.
Louçã, e os outros, poderiam tentar usar argumentos éticos sérios para o aborto (que os há, se bem que eu julgo que podem ser contestados e mesmo refutados ao nível filosófico), em vez de recorrerem ao gasto argumento do "parque infantil":
"os outros meninos já vão lá à frente e nós temos que correr mais depressa para os apanhar".
Afixado por Bernardo Motta às 09:50 | Afixadelas (6)
Ética e Política
Vinha agora no carro a ouvir o Louçã a ser entrevistado na rádio sobre a eterna questão do aborto.
Pego nele mas poderia pegar noutro político qualquer. Haverá algum político que ainda seja da opinião que a ética precede a política?
Se assim fosse, como seria possível Louçã, e todos os outros, falarem exclusivamente de política quando a matéria em discussão extravasa largamente esse âmbito para entrar na ética?
Ouvimos Louçã e é sempre o mesmo disco: pode-se espremer o seu discurso vago e oco em uma só ideia:
"Em Portugal há um atraso cultural e civilizacional".
Para Louçã, a questão do aborto é quase uma questão de higiene. Para ele, Portugal está atrasado "em relação aos outros países". É sempre esta a tónica oca: "os outros países".
Poderíamos pensar, ingenuamente, que os políticos, quando deparados com problemáticas do foro ético, recorreriam aos especialistas em ética, pensariam de modo filosófico ou socorrer-se-iam de pessoas com competência nessas áreas. Esperava-se um amplo debate ético e filosófico sobre as implicações do aborto.
Notem bem: sendo eu católico ainda nem sequer usei uma só palavra ou um só argumento religioso. Não preciso!
É isso que é espantoso!
O que se esperaria era que o debate ético precedesse o debate político.
Mas isso não acontece.
O aborto, para estes senhores que representam a classe política hodierna, é mero factor de distinção entre progresso e retrocesso civilizacional:
País com aborto legal = país evoluído
País sem aborto legal = país atrasado
E pronto!
Está feita a política!
Aqui entre nós, devo ser franco: sendo eu anti-abortista, não tenho qualquer esperança depositada na vitória das minhas convicções. Quando se votou no último referendo, os do "não ao aborto" cantaram vitória, mas já cheirava a derrota, porque era tudo uma questão de tempo.
Uma questão de tempo...
Não tenho quaisquer dúvidas de que basta esperar uma década, talvez um pouco menos, talvez um pouco mais, para termos aborto legal, com limites muito menos duros que os actuais, eutanásia legal, controlo quase liberalizado (graças às pressões do mercado e dos fazedores de opinião da praxe) de material genético humano, entre outras coisas boas da nossa avançada civilização tecnológica.
Sou catastrófico?
Porquê?
Então, todas estas coisas que eu referi são boas ou não?
São ou não são avanços civilizacionais?
São ou não são vitórias dos direitos humanos?
Ironia à parte, eu estou seguro de uma coisa: nesta civilização em decadência (minha opinião), o declive da ética é descendente. Vimos suceder o mesmo no Império Romano. A civilização moderna está em decadência e a pouca importância que se dá à ética e à filosofia espelha-se em todos os sectores da actividade intelectual.
Mas por todo o lado, com estas pequenas "vitórias" anti-éticas que se aproximam e que acabam por chegar e por se estabelecer, o grande glutão da degradação vai-se enchendo, rodeado pelas nossas "elites" intelectuais que vão aplaudindo o espectáculo.
Podiam era ter mais vergonha.
Louçã, e os outros, poderiam tentar usar argumentos éticos sérios para o aborto (que os há, se bem que eu julgo que podem ser contestados e mesmo refutados ao nível filosófico), em vez de recorrerem ao gasto argumento do "parque infantil":
"os outros meninos já vão lá à frente e nós temos que correr mais depressa para os apanhar".
Afixado por Bernardo Motta às 09:50 | Afixadelas (6)
outubro 26, 2005
Leiigos para o Desenvolvimento
VOLUNTÁRIOS PARA ÁFRICA E TIMOR Início de mais um ANO DE FORMAÇÃO dos "LEIGOS PARA O DESENVOLVIMENTO" Os "Leigos para o Desenvolvimento" (LD) vão dar início a mais um ano de Formação. Como vem sendo hábito irão realizar-se Sessões de Apresentação, nos diversos Núcleos Regionais, a saber: - BRAGA: 25 de Outubro, 21h15 no CAB, Praça da Faculdade,16 - Tel.: 253 215 592 - PORTO: 2 de Novembro, 21h15 no CREU-IL, Rua Oliveira Monteiro, 562 - Tel.: 226 061 410 - COIMBRA: 9 de Novembro, 21h15 no CUMN, Rua José Falcão, 4 - Tel.: 239 829 712. - LISBOA: 10 de Novembro, 21h15 no CUPAV, Estrada da Torre, 26 - Tel.: 217 574 278. Estas Sessões são de entrada livre.
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A Cruz do Sul
Bem sei que estes obscuros temas esotérico-esquisitos interessam a pouca gente, mas enfim, há que fazer pela divulgação... Se soubessem os mails que eu recebo e as perguntas que me fazem, entendiam a necessidade vital desta divulgação junto de tanta gente, que continua a ver Marias Madalenas, Graals, Ísis e hieros gamos por todo o lado...
Aqui fica mais um tópico do Fórum Priorado de Sião:
A Cruz do Sul - O logótipo do Priorado de Sião
Afixado por Bernardo Motta às 11:36 | Afixadelas (0)
A Cruz do Sul
Bem sei que estes obscuros temas esotérico-esquisitos interessam a pouca gente, mas enfim, há que fazer pela divulgação... Se soubessem os mails que eu recebo e as perguntas que me fazem, entendiam a necessidade vital desta divulgação junto de tanta gente, que continua a ver Marias Madalenas, Graals, Ísis e hieros gamos por todo o lado...
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A Cruz do Sul - O logótipo do Priorado de Sião
Afixado por Bernardo Motta às 11:36 | Afixadelas (0)
outubro 24, 2005
Porquê fazer ciência?
Afixado por Bernardo Motta às 11:20 | Afixadelas (2)
Sempre o anti-semitismo...
Tenho constatado, nos vários posts que escrevo, e nas reacções a eles, que há muita confusão em relação a certa terminologia essencial.
Não poucas vezes, ao ouvirmos falar sobre o Islão, e mais concretamente sobre a questão israelo-palestiniana, deparamo-nos com certas correntes de opinião que, manchadas pelo preconceito e deficiárias da mais rudimentar cultura geral, confundem conceitos díspares numa amálgama confusa que só pode gerar mal-entendidos.
Uma típica associação de ideias consiste em falar de "extrema-direita" e de "anti-semitismo" em situações onde o uso dessas expressões é equívoco.
Para mais, é frequente notar que muitos se socorrem do "paradigma nazi" para fazer associações de ideias terrivelmente erradas, como se a expressão "anti-semitismo", mesmo mal usada, nos tivesse que levar sempre para o ideário nazi e para conotações políticas de extrema-direita.
São equívocos sobre equívocos.
Lembrei-me de escrever este post na sequência da leitura deste texto de um autor que já referi, Akhbar S. Ahmed:
"As raízes do preconceito contra o povo judeu são complexas e têm origem em fontes diferentes: o preconceito pode ser de cariz religioso e chama-se antijudaísmo; pode ser racista e chama-se anti-semitismo; e pode ainda ser político, pelo que tem o nome de anti-sionismo. O preconceito pode ser dos três tipos ao mesmo tempo, mas se for de um só tipo, não tem de subentender os outros dois; por exemplo, os que se opõem à filosofia política do sionismo não têm necessariamente de ser antijudaicos ou anti-semitas. Por definição, os muçulmanos não podem ser antijudaicos. Independentemente das diferenças internas com o judaísmo, este é parte integrante da tradição cultural e ideológica islâmica. Os judeus fazem parte do «povo do Livro». A nível cultural a afinidade é evidente nos nomes judaicos usados pelos muçulmanos, tais como Musa (Moisés) ou Ishaq (Isaac). Do mesmo modo, os muçulmanos não podem ser anti-semitas, pois os primeiros muçulmanos, os árabes, eram semitas. Quanto ao anti-sionismo, já é uma questão bem diferente. Politicamente organizado na Europa moderna, o sionismo era basicamente estranho ao Médio Oriente, era uma importação estrangeira."- O Islão, pp. 167-168, Bertrand Editora, Lisboa.
Como seria bom se guardássemos na memória estas palavras! A síntese está perfeita. De uma vez por todas, temos que nos dar conta de que a realidade do conflito entre Israel e a Palestina é complexa, matizada, e há que ter em conta estas três dimensões do conflito: a religiosa, a racial e a política!
A criação inusitada, na minha opinião, de um estado de Israel no Médio Oriente, como depósito para os judeus da diáspora, tinha que provocar, pelo menos, e sublinho, pelo menos, uma das dimensões do conflito: a política!
Do ponto de vista palestiniano, as políticas sionistas são sempre uma agressão. Para tentarmos compreender um pouco melhor o anti-sionismo dos palestinianos podemos imaginar, por exemplo, a comunidade internacional a sancionar ou a legitimar Marrocos ou a Tunísia a invadirem o sul de Espanha, reclamando para si a "terra prometida" do Al-Andaluz! O que teriam os espanhóis a dizer?
É evidente, e o leitor atento já franziu o sobrolho, que estou a esquecer-me da questão de Jerusalém, cidade santa para três religiões. É precisamente Jerusalém (e outros locais importantes, mas menos, como Belém) que dá à polémica israelo-palestiniana toda a sua complexidade. É devido a Jerusalém que entra na equação a dimensão religiosa.
Contudo, sempre que ouvirmos noticiários, sempre que nos depararmos com jornalistas ou comentadores sem formação ou equipados com uma curta bagagem dos mais gastos estereótipos, lembremo-nos disto: é possivel ser-se anti-sionista sem ter ódio religoso ou racial aos judeus. Vou até mais longe: em Israel não há só judeus! Há israelitas religiosos e israelitas ateus; há israelitas liberais e israelitas socialistas. E, espanto máximo, há israelitas muçulmanos e israelitas cristãos! Depois de reflectirmos, é evidente que isto faz sentido, mas vejamos a suprema confusão em que incorremos sempre que, em conversas com amigos, usamos os mesmos estereótipos dos media!
Por fim, falta falar de uma das três dimensões referidas: a dimensão racial. É apenas a um nível mais primário, do ódio sentido pelas camadas mais incultas e brutas da sociedade islâmica, que podemos encontrar, e mesmo assim dificilmente, um ódio puramente racial aos judeus, sendo evidente que um ódio destes é claramente contraditório, como explicou Ahmed. E mesmo assim, este ódio, quando existe, é quase sempre consequência de um ou dos dois primeiros ódios, do político e do religoso (este último também contraditório para um muçulmano). Por isso, torna-se perigoso falar em antijudaísmo, e torna-se quase sempre absurdo falar em anti-semitismo, quando se aborda a questão israelo-palestiniana contemporânea, e muito menos fazer paralelos inusitados com o nazismo. A expressão a usar é "anti-sionismo".
Há contudo, muito que se poderia dizer sobre as origens da causa sionista, sobre a influência do socialismo na fundação de Israel, e sobre a relação dos sionistas com o Terceiro Reich. Mas isso fica para outra altura...
É espantoso constatar que, no sionismo, contrariamente ao que poderia dizer-nos o senso comum, há muito mais de política do que de religião, tanto ao nível das ideias quanto ao nível das crenças dos seus impulsores e precursores.
Tentemos, por isso mesmo, usar de um certo cuidado na escolha dos termos quando falamos desta questão.
Para terminar, queria recordar uma polémica já passada, mas onde surgiu um equívoco semelhante. Alguns debitadores de opiniões, anti-clericais até ao âmago, gostaram de falar de "anti-semitismo" quando criticaram o filme de Mel Gibson, "A Paixão de Cristo", porque segundo eles este filme colocava os judeus como "maus da fita". Ignorando que a intenção didáctica do relato da Paixão de Cristo é a de colocar toda a humanidade como "má da fita", estes críticos mal informados nem se deram conta de que o guião do filme estava, todo ele, em perfeita concordância textual com o Novo Testamento da Bíblia cristã. Suprema imbecilidade falar neste caso de anti-semitismo por parte do realizador... Além disso, Jesus, o "bom da fita", era semita!
Afixado por Bernardo Motta às 10:21 | Afixadelas (15)
outubro 21, 2005
Instantâneos Cingaleses - VI

Para quem nunca viu, isto é um templo hindu!
Mais concretamente, este fica algures perdido numa estrada do Sri Lanka.
À porta ficam os sapatinhos e as motorizadas!
Afixado por Bernardo Motta às 20:45 | Afixadelas (2)
Secularismo, tradicionalismo e modernidade
É já um lugar comum afirmar que as religiões, na cultura moderna, estão em erosão. Um processo acelerado, que muitos tentam minimizar ou ignorar, provocado pelo pior lado de um secularismo com segundas intenções.
No mundo ocidental moderno, o catolicismo vive uma profunda crise cuja principal causa não consigo dissociar desse secularismo dissolvente que age sobre a nossa sociedade há mais de um século.
A grande questão social, para o futuro, jaz neste confronto entre uma cultura secularizada, "moderna" e em ascensão, e uma cultura tradicionalista em declínio. Esse confronto está já quase vencido no Ocidente, onde os católicos estão, a pouco e pouco, a deixar-se seduzir pelo fascínio inebriante das ideias ditas "modernas".
Os católicos modernos (e generalizo, porque são cada vez mais uma maioria) vivem uma fé à la carte, retirando do catolicismo aquilo que gostam e recusando aquilo que não lhes convém (aquilo que não é bem visto pelos dogmas secularizantes). Não vivem um catolicismo, mas sim uma certa catolicidade. Falando em termos mais gerais do cristianismo, há cada vez menos "cristãos" e cada vez mais "cristófilos", ou seja, pessoas que gostam da figura de Cristo e que o vêem como um bom homem e líder, mas que retêm dos seus ensinamentos apenas algumas vagas directrizes éticas, rejeitando practicamente a crença na sua divindade, deitando assim pela borda fora a quase totalidade de 2.000 anos de herança cristã.
Mas não é apenas o catolicismo que está a mudar fortemente: não falo apenas de um fenómeno estritamente ocidental. Procuremos o taoísmo no Oriente, sobretudo junto das grandes cidades industrializadas e "modernas"... Onde está ele? Está em declínio. Vejamos o caso paradigmático do Japão... Após a derrota na Segunda Guerra Mundial, o tradicionalismo da sociedade japonesa entrou em extinção. Onde está hoje o bushido? Jaz soterrado sob a electrónica de consumo. Ou seja, o Japão "modernizou-se"!
E o que encontramos a combater esta situação?
Encontramos hoje em dia, sobretudo, o Islão, religião expansionista, que ainda mantém em larga medida a essência do ser tradicional e que deste modo desafia abertamente o mundo moderno.
O Islão é uma ameaça?
Será certamente uma ameaça, no sentido em que é sedutor e que tem um poder inegável para fascinar o ser humano (há mais de mil milhões de muçulmanos no Mundo).
Por outro lado, o Islão pode bem servir um propósito mais nobre: ser o contra-poder tradicionalista de um mundo em acelerada secularização.
Temo ser mal interpretado... Não estou a promover a submissão do mundo ao Islão!
Contudo, vejo que os crentes que vivem num mundo secularizado e moderno têm grandes dificuldades em se libertarem dos dogmas modernos, dogmas estes que são incompatíveis com as religiões que professam. Todo o viver de uma religião está condicionado por uma revelação que se crê divina. Ora qualquer revelatum, concebido divino na sua essência (e não necessariamente na sua forma), tem que ter o crivo da eternidade. A "revelação de Deus" não passa de moda! As ilacções que um crente retira de uma mensagem que ele crê revelada não são temporárias ou subordinadas ao tempo ou ao espaço.
Eis algo que causa estupefacção nas mentes modernas: "então a religião não evolui?".
Talvez na forma, mas não na essência!
O homem moderno vive preso a um sonho utópico não provado, não demonstrado e não verificável, o de que a socidedade, a "moderna", está em permanente evolução, ou progresso. É a antítese do pensar tradicional, que concebe uma "idade de ouro", um tempo paradisíaco recuado, seguido por uma progressiva degeneração desde então. Vejamos o exemplo das Idades no mundo clássico: a Idade de Ouro está no início e a do Ferro no final!
Com isto estamos, julgo eu, no cerne do conflito entre tradicionalismo e modernismo: o primeiro baseia-se em verdades perenes, aceites por fé (sem exclusão de intelectualidade); o segundo baseia-se num dogma moderno, o do progresso (ou evolução) permanente da sociedade, inventado para desculpabilizar e legitimar a postura anti-religiosa.
O dogma moderno do progresso obriga-nos a considerar frequentemente o que está para trás como mau. É esta a herança do secularismo e do modernismo. E era este, julgo eu, o grande desejo de alguns dos primeiros secularistas, que também eram frequemente anti-clericais: a religião deve morrer.
Então, porque dizia eu que o Islão nos pode ajudar?
Porque o Islão ainda resiste a estes dogmas modernos e pode mostrar-nos que o ser tradicional ainda tem forças e legitimidade para existir. Citando Akhbar S. Ahmed,
Os críticos ocidentais estão convencidos de que os muçulmanos, uma vez colocados no caminho da democracia (e da modernidade), passarão a ser como «nós» e, tal como acontece em todo o Ocidente, irão acabar por separar o lado religioso do secular na sua vida. Mas os muçulmanos ou são ou não são muçulmanos, não existe meio-termo. Não podem pegar em pedaços do islamismo e continuarem a ser muçulmanos. Se o fizerem, tornam-se algo completamente diferente.- O Islão, Bertrand Editora, Lisboa, 2003.
Peguemos nas últimas frases: os cristãos também não podem pegar em pedaços do cristianismo, recusando outros, e continuarem a ser cristãos. Ao dizer isto, a socideade moderna rotula-me imediatamente (as etiquetas estão sempre prontas a colar, e voltar a colar): sou fanático, fundamentalista. Os cristãos modernos são "tolerantes" sempre que criam o seu próprio cristianismo, uma manta de retalhos escolhida criteriosamente para não colidir com a modernidade e com uma maneira "fresca" e "jovem" de pensar. Como chegámos a este ponto?
Não tenho quaisquer dúvidas de que a origem desta perversão no modo de pensar tem o seu começo num secularismo que eu vejo como potencialmente enganador.
Mas não quero passar a ideia de que vejo o secularismo como mau sob todas as formas, ou todos os seus defensores como pessoas anti-religiosas. É evidente, e verificável, que existem muitos crentes que defendem o secularismo, ou pelo menos, um tipo diferente e não anti-clerical de secularismo.
O secularismo é uma consequência natural dos sistemas democráticos. O modelo eleitoral de sociedade obriga a ponderar os interesses diferentes dos vários votantes, e deste modo, o Estado democrático tem que se separar de toda e qualquer postura religiosa, do mesmo modo que tem que se separar de qualquer outra tomada de partido. O secularismo pode surgir, assim, como uma natural e justa consequência do viver em democracia.
Mas não será o secularismo prático que assistimos nos tempos de hoje um lobo vestido de cordeiro? Por detrás destas causas justas e aparentemente equilibradas, não surgirá um outro lado mais negro do secularismo?
Falo de um secularismo que não permite ser-se religioso na vida pública, que atira o crente para a esfera do privado, que procura activamente riscar liberdades consagradas como a da exibição pública do ser religioso, desde o vestuário à defesa de ideais. A França é pioneira neste tipo perverso de secularismo, mas outras nações seguirão o seu exemplo. Como diz Ahmed, o muçulmano não consegue viver uma dupla vida: cá fora no mundo, é secular, mas em casa é religioso. O cristão também não deveria aceitar isto, mas aceita-o cada vez mais! O resultado está à vista...
É no Islão que têm berço alguns dos piores grupos terroristas modernos?
Certamente que sim, mas são fenómenos minoritários que a comunicação social se encarrega de empolar.
Por muito terrífica e omnipresente que seja a Al-Qaeda, ela não representa o islamismo. É uma muito eficaz quadrilha de assassinos, que manipulam e se servem da religião muçulmana para obterem apoio e eficácia.
Contudo, libertando o Islão da ganga mediática que nos atiram para a cara todos os dias, surge algo de muito diferente... O Islão pode também servir para acordar as consciências dos crentes ocidentais, que vivem mergulhados na secularidade do mundo moderno, para a necessidade de um retorno ao tradicional e ao perene. Ao que não passa de moda.
É natural e razoável, para um crente seguro e consciente do que é, demonstrar publicamente as suas convicções religiosas, e com elas desafiar continuamente todo o viver em sociedade.
Afixado por Bernardo Motta às 10:00 | Afixadelas (14)
outubro 17, 2005
Instantâneos Cingaleses - V
Para desenjoar do meu último post indigesto, cá vai mais um instantâneo dessa terra linda que é o Sri Lanka. Apresento-vos o buddha de Aukana, uma belíssima estátuda de Buda feita a partir de um único bloco de rocha, esculpido no próprio local.
A estátua data do período do rei Dhatusena (459-477 d.C.) e está num esplêndido estado de conservação. Visto no local é algo de imponente (a fotografia não faz jus à grandeza do local). Neste dia estava um calor medonho, e como sempre, para nos aproximarmos da estátua, localizada em chão sagrado, tivemos que nos descalçar...
Imaginem as plantinhas dos nossos pés descalços a derreter naquelas temperaturas escaldantes!
P.S.: Para uma viagem fotográfica mais realista a este local magnífico, ver esta página repleta de fotografias incrivelmente melhores que a minha:
The Aukana Buddha
Afixado por Bernardo Motta às 12:13 | Afixadelas (0)
Instantâneos Cingaleses - V
Para desenjoar do meu último post indigesto, cá vai mais um instantâneo dessa terra linda que é o Sri Lanka. Apresento-vos o buddha de Aukana, uma belíssima estátuda de Buda feita a partir de um único bloco de rocha, esculpido no próprio local.
A estátua data do período do rei Dhatusena (459-477 d.C.) e está num esplêndido estado de conservação. Visto no local é algo de imponente (a fotografia não faz jus à grandeza do local). Neste dia estava um calor medonho, e como sempre, para nos aproximarmos da estátua, localizada em chão sagrado, tivemos que nos descalçar...
Imaginem as plantinhas dos nossos pés descalços a derreter naquelas temperaturas escaldantes!
P.S.: Para uma viagem fotográfica mais realista a este local magnífico, ver esta página repleta de fotografias incrivelmente melhores que a minha:
The Aukana Buddha
Afixado por Bernardo Motta às 12:13 | Afixadelas (0)
Sobre a Imaculada Conceição...
Com a proximidade do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, cabe-me a obrigação de qualquer católico: ajudar nesta tarefa árdua que é a de esclarecer quem quer ser esclarecido sobre alguns pontos-chave do catolicismo.
É já um lugar comum dizer que a ignorância sobre o catolicismo anda, nos dias de hoje, de mãos dadas com um fortíssimo preconceito anti-católico que se transformou numa verdadeira guerrilha, muitas vezes disfarçada sob o manto diáfano dos media.
Perdoem-me pela insistência no alvo, mas há coisas que me enervam sobremaneira com alguns dos posts que se debitam no Diário Ateísta. Mas porque é que aquela gente, que confunde o ateísmo (postura filosófica) com anti-catolicismo (preconceito) não se tenta, pelo menos, informar mais um bocadinho sobre os temas que conspurcam?
Hoje tocou à Imaculada Conceição, uma temática avacalhada pela senhora professora Palmira, que nos brindou com mais uma aula, desta vez sobre aborto, misoginia e Imaculada Conceição!
Um programão, hã?
Vejamos algumas pérolas desta aula on-line...
Para conseguirmos entender a concepção do dogma cristão em relação ao aborto é necessário abordar as raízes do cristianismo que são simultaneamente as raízes da demonização do sexo e da demonização e menorização da mulher.
Exacto. Demonização do sexo
