agosto 29, 2005
Até sempre
Há momentos para tudo na nossa vida. Momentos para sair com os amigos. Momentos para dançar com os nossos filhos. Momentos para nos rirmos. Momentos para chorarmos. Momentos para ser dura. Momentos para ser terna. Momentos para optar. Momentos para lutar por causas e outros, apenas (?), para lutar por afectos. E para vivê-los.
E momentos para fazer posts. Ou para não fazer.
Há momentos em que nos sentimos em casa. E momentos em que uma casa deixa de ser a NOSSA casa.
Gostei muito dos meses que aqui passei. Vim por um convite do Monty e conheci aqui pessoas fantasticas. Criei laços. Fiz amigos. Que quero manter. Mas, neste momento, não sinto que esta seja a minha casa. Os motivos, sabem-nos quem os deve saber: os meus colegas aphixadores. O respeito que os meus leitores e comentadores me merecem nunca permitiria que esses motivos viessem parar à praça pública.
Tenho uma campanha eleitoral para fazer, tenho amigos para encontrar, o meu filho para amar, paixões para curtir, vida para viver. Com a mesma força e entrega que o fiz, aqui dentro, nos últimos meses, está na hora de fazê-lo lá fora. É tempo de mudar de ares. Há valores muito mais altos que um Blog. Mesmo que esse Blog seja o Afixe. Até sempre. A gente encontra-se por aí.
Afixado por Isabel às 17:35 | Afixadelas (26)
agosto 28, 2005
Alive

"Gracias a la vida que me ha dado tanto."
Há duas noites que me deito a cantarolar esta canção da Violeta Parra.
Há duas noites, que tenho passado horas e ver o Live 8 com o meu filho. Que temos dançado a mesma música, cantado as mesmas letras. Que eu lhe "apresento" os meus e ele os dele. Que nos deliciamos por tantos meus serem dele e tantos dele, eu descobrir que podem ser meus.
Hoje será a terceira noite de maratona. Está combinado que durmo a sesta à tarde para poder estar mais uma vez levantada até às cinco horas da manhã...é que amanhã é dia de trabalho!!!
Há duas noites que nos emocionamos com as imagens de fome e de tragédia. E que nos revoltamos com elas.
E eu que nem sabia que o meu amigo conhecia a história toda do Nelson Mandela, até ontem, quando o ouvimos ler um discurso na África do Sul. Nem que eu gostava tanto de Bon Jovi...
Continuo a cantarolar a letra da canção da Violeta Parra. O meu companheiro de noitadas ainda dorme. Está a preparar-se para esta noite. Saí do quarto, agorinha mesmo. Deve ter pressentido a minha presença porque antes de se virar para o outro lado abriu os olhos e sorriu.
"Gracias a la vida que me ha dado tanto...Cuando miro el fondo de tus ojos claros."
Afixado por Isabel às 12:37 | Afixadelas (7)
Contribuição

O homem quer ser independente. O homem fala em nome dele e, portanto, não precisa de demasiado espaço. Por razões de Orçamento, de sanidade mental e de preservação do bom estado do nosso aparelho auditivo, nós agradecemos que o homem queira ser independente.
Pelo que dá para ver, esta ilha parece, mesmo, deserta. Não nos arriscamos, portanto, a que apareça uma queixa num Tribunal Internacional qualquer, por obrigarmos quem quer que seja a coabitar com o homem.
Talvez seja necessário pagar alguma coisa mas, bem divididinho por todos, não custa nada.
Acho que é nosso dever contribuir para o bem-estar do homem. E para o nosso. Podem começar a enviar as vossas contribuições para o Afixe. Está também aberto concurso para a concepção da bandeira, que deverá ter a cara do homem e do hino que deverá conter, pelo menos, trinta e oito vezes a palavra jardim. Gostaríamos de proporcionar ao homem um Natal feliz. Aguardamos a vossa colaboração. Rápida, portanto.
Nota: A mais pequenina é o Bónus, no caso de haver mais alguém que o queira acompanhar, mas não tenha a certeza se o consegue aturar.
Afixado por Isabel às 11:59 | Afixadelas (2)
Boa noite!

Junto-me à campanha meritória da Émiéle de nos acordar bem-dispostos, tentando encontrar forma de contribuir para vos adormecer aconchegadinhos. Boa noite!
Afixado por Isabel às 00:26 | Afixadelas (2)
agosto 27, 2005
Nascer de Sol

Às vezes, saímos de casa calmamente. Temos algumas horas só para nós. Algumas compras para fazer. Talvez até dê para comprar um CD. Ou um livro. Ou uma TShirt para o Outono, que as montras já estão cheias de coisas da próxima estação.
Podemos parar para beber um café e comer um bolo cheio de chocolate, óptimo para manter a linha. Temos que fazer tempo para ir buscar o nosso filho que está numa festa de aniversário.
Às vezes, temos que sair de casa e arranjar forma de ocupar as próximas três horas. Saímos com tempo para tudo, pensamos. Apenas não planeamos que entre uma montra e a outra, enquanto tomamos o café e nos deliciamos com o chocolate do bolo, nos aparece o passado.
O passado vê-nos e, espanto, dirige-se a nós. Não podemos fugir, não vamos deixar o bolo de chocolate nem o café a meio. O passado fala e nós não lhe reconhecemos a voz. Olha-nos e não lhe reconhecemos o olhar. Conta-nos uma estória que deverá ter começado na altura em que o passado passou a passado e que parece que acabou agora, poucos dias antes de encontrarmos o passado enquanto tomamos a bica. Deduzimos, pelo tom de voz do passado, que para ele a estória deverá ter agá, mas não o conseguimos encaixar. Ainda paramos o garfo do bolo a meio caminho entre o prato e a boca, mas nada a fazer, o agá não entra. O passado pergunta-nos se nos podemos voltar a encontrar. Talvez jantar. Afinal, diz o passado, o presente foi bom de se viver. Também teve agá, repete-nos insistentemente. Nós, parece que nos lembramos que sim, mas não conseguimos ter a certeza. Já não. Olhamos o passado. Continuamos sem lhe reconhecer o olhar. Que coisa chata! Bebemos o resto do café. Comemos a última garfada de bolo de chocolate e, antes de pegarmos na mala, dizemos-lhe calmamente que não faz bem à saúde sair com o passado. Nem à alma. E que foi um prazer vê-lo. Passado. Ele diz que vai insistir. Nós sorrimos. Quando chegamos a casa ainda vamos à janela. Daí a nada está a nascer o Sol.
Afixado por Isabel às 01:32 | Afixadelas (10)
agosto 26, 2005
Sexta Feira...estava a ver que não!!!!!!!

Afixado por Isabel às 18:56 | Afixadelas (5)
A outra face
A Europa “desenvolvida”. A Europa do Concorde e das viagens espaciais. A Europa do desenvolvimento industrial. A Europa do “desenvolvimento” económico, pode acabar na fronteira de Vilar Formoso. Mas, a Europa do Mercado Comum, a Europa do neoliberalismo desenfreado, a Europa da imigração sem direitos, a Europa do desemprego, a Europa das casas degradadas, a Europa do agravamento das diferenças sociais, não tem fronteiras e ultrapassa a fronteira.
Ontem em Paris, num prédio degradado ocupado por famílias africanas, pelo menos dezassete pessoas que viviam em condições miseráveis, entre as quais um bebé de meses, morreram num incêndio.
Ontem, em Paris, num prédio degradado ocupado por famílias africanas a Europa voltou a mostrar a outra face. Em França, o berço da Igualdade.
Afixado por Isabel às 09:48 | Afixadelas (3)
agosto 25, 2005
Interrogação
"Vi muita tristeza nas pessoas, mas descobri, entre o fumo, um país ao qual quero voltar", afirmou o piloto francês de um dos aviões que vieram ajudar Portugal a combater os incêndios.
Será que esta convicção toda pode ter a ver com o facto de só cá ter estado quatro dias?
Afixado por Isabel às 20:17 | Afixadelas (4)
Desculpem-me...

Desculpem. Desculpem todos. Os leitores do Afixe. Os comentadores do Afixe. O Primeiro Ministro. Os Ministros. Os Secretários de Estado. O Governo. O País.
Desculpem por ter andado para aqui a insinuar que não se passa nada . Por já ter, até, insinuado que o Governo meteu férias prolongadas. Desculpem. Juro que não torno. Nunca mais.
O Governo vai aprovar hoje em Conselho de Ministros, o aumento para os 65 anos, da idade de reforma para os funcionários públicos, a partir de Janeiro de 2006. Mais, como prova da minha total parcialidade e das minhas calúnias, o Governo vai aprovar hoje em Conselho de Ministros, o aumento dos anos de desconto, de 36 para 40, para os funcionários públicos, a partir de Janeiro de 2006.
Desculpem-me todos. Afinal eles existem. E tomam medidas.Temos todos que lhes estar agradecidos. Nada como um Governo forte para aumentar a idade de reforma . É, apenas disto, que o País precisa. De poupar dinheiro e de retirar direitos. Quem é que se vai preocupar com o facto de haver não sei quantos helicópteros parados, comprados, presumo que pagos, a pagarem mensalmente a deslocação de um técnico estrangeiro para manutenção e que ainda ninguém se lembrou de requesitar para combater os fogos? Quem é que no Governo tem tempo para estas ninharias? Coisas sem importãncia. Bagatelas. O Goveno está cá para Governar. Só toma medidas importantes. Aumentar a idade da reforma é uma medida importante. Declaro-me culpada. Desculpem-me.
Afixado por Isabel às 10:19 | Afixadelas (27)
agosto 24, 2005
Os meus discos

Andei a dar uma vista de olhos pelos meus posts anteriores. Parei um pouco nos posts que fiz com o titulo: Os meus discos. E fiquei em estado de choque. Literalmente. Nem uma voz de mulher. Uminha. Mesmo que fizesse parte de uma banda, qualquer coisita. Algo que justificasse o facto de uma gaja de esquerda que se preze, ter que ter uma costela feminista.
Andei a dar volta aos CDs cá de casa. Há lá algumas mulheres. Umas integradas nos CDs de Música Celta, por exemplo (e que vozes têm as mulheres dos cantares celtas), há a Dulce Pontes, a Amália, a Marisa, a Cesária, a Edith Piaf, a Mafalda Veiga...são mulheres que ouço e que gosto de ouvir. Mas não há lá o meu disco.
Já muito desesperada, quase a achar que tinha que rever uma porrada de conceitos, descobri uma mulher. Não resolvi o problema do disco, porque, daquele disco, eu tenho, essencialmente, duas canções. O resto, acho que nunca ouvi com ouvidos de ver...mas são duas canções lindas, que falam de amor, de perda de amor, de paixões e de entregas, de encontros e de partidas. Que têm ainda a vantagem suprema de me fazerem lembrar os filmes do Almodôvar. São canções a rosa, preto e escarlate..."Piensa en mi" e "Un año di amor", do álbum A contraluz de Luz Casal.
Porque já que tenho fama (não é Sharky?) que tenha o prazer de ter o proveito.
Piensa en mi, cuando sufras
Cuando llores tambien, piensa en mi
Cuando quieras quitarme la vida
Para nada, para nada me sirve sin ti.
Ok, um bocadinho lamechas e meloso (que niguém se atreva a sugerir pimba...) mas lá que é uma coisinha linda de se cantar (e de se dizer...mas aí...), lá isso é. E aquela música que nos embala? Ai aquela música...ideal para Verões quentes.
Afixado por Isabel às 20:10 | Afixadelas (13)
Perdi 24 horas...
Ontem não liguei a televisão. Só agora é que cheguei à empresa e ouvi notícias. De vez em quando faz bem parar. Desligar um pouco. Esquecer os incêndios. Esquecer as imagens que todos os dias nos entram casa adentro. Esquecer a nossa revolta e esquecer a nossa incapacidade. Há dias em que sabe bem esquecer tudo menos o prazer de se estar vivo. Soube bem um dia assim.
Só que...só que, depois, como tudo na vida não há nada que seja 100% positivo. E nem é por ter que voltar à terra e por isso custar sempre um bocadito. É porque, finalmente, há neste país, uma notícia digna desse nome, acontece uma coisa inesperada, uma novidade, algo porque há muito ansiávamos e que há muito aguardávamos, um acontecimento que nos vai tirar da letargia, que nos dá ganas de sair à rua e de festejar. Finalmente, neste país, acontece algo assim, e eu só sei quase 24 horas depois. Eu sei que foi bom ter estado fora. Fez-me bem. Passei umas horas que não vou esquecer. Mas não consigo evitar uma certa mágoazinha por só saber hoje. Agora. Acabei de perder quase 24 horas de futuro. Foi por uma boa causa, mas custa.
O que vale é que ainda tenho mais uns meses para aproveitar a novidade, para me sentir recompensada por meses de falta de motivos de interesse, de falta de coisas novas.
Vou pensar duas vezes antes da próxima vez em que me decidir ausentar tão radicalmente.
Jerónimo de Sousa é o candidato do PCP às próximas eleições presidenciais. E, de repente, tudo volta a fazer sentido.
Afixado por Isabel às 14:56 | Afixadelas (11)
agosto 23, 2005
Comunicado
Venho por este meio comunicar a V. Exas que hoje não me apetece escrever.
Apetece-me:
Namorar.
Ir para a praia.
Dormir.
Namorar.
Ir para a praia namorar.
Dormir depois de namorar.
Namorar depois de dormir.
Namorar.
Fazer um picnic no campo, debaixo duma árvore (ainda há?, ok...hoje não me apetece...)
Namorar.
Namorar enquanto faço um picnic debaixo da árvore (ainda há? porra, cala-te...)
Venho por este meio comunicar a V.Exas que volto mais tarde. De preferência depois de namorar. Obrigado.
Afixado por Isabel às 12:53 | Afixadelas (7)
agosto 22, 2005
Uma pequena resposta a um post da M

Dum lado tens uma montanha escarpada. Do outro tens o abismo.
Entre a montanha e o abismo tens um caminho. Um caminho estreito. Não tens escolha. Tens que o seguir. A curva apertada impede-te de ver para lá dela. Mas só até lá chegares. Quando lá chegares possivelmente encontrrás uma nova curva, mas terás andado mais uns passos. De vez em quando as curvas e as contracurvas do caminho tornam-se monótonas, sempre iguais e ficas cansada. Entediada. Mas sabes que não podes subir a encosta nem descer para o abismo. Não podes voltar para trás, porque já chegaste aqui. Algumas vezes apetece-te parar e desistir, mas a curiosidade do que está para lá da curva e, depois, da contracurva, impelem-te a seguir. Obrigam-te a não parar.
No fim do caminho sabes que algo te esperará. Nem que seja a sensação que fizeste o caminho.
E que não podias ter parado, porque querias saber o que encontravas para lá da curva.
Há uns tempos, numa dessas alturas, em que não encontrava força para ultrapassar a curva, em que me cansava de saber que a seguir a essa encontraria uma outra e outra, fiz aqui um post com uma cadeira vazia. Pensava eu que seria o que iria encontrar no fim do caminho. E doía. Afinal no fim do caminho estreito entre as rochas e o abismo, encontrei vida. Acredita. Depois das curvas apertadas, há vida. Basta resistir à vontade de parar.
Afixado por Isabel às 11:57 | Afixadelas (16)
Anomalia?
Há mais de um mês, cada vez que abro os jornais on line, os títulos são sempre iguais: Quarenta fogos por controlar, cinquenta fogos deflagraram ontem em todo o país, o concelho de Pampilhosa da Serra continua a arder e Viana do Castelo e antes Arganil e Abrantes e antes Mafra.
Há mais de um mês.
Ontem, o primeiro ministro, recém chegado de férias, logo acompanhado pelo Ministro António Costa (ou seria ao contrário?) dizia que a ajuda internacional só foi solicitada agora porque só agora foi necessária. Não se pode abusar destes pedidos, por dá cá aquela palha e só neste momento o número de incêndios foi considerado “anómalo”. Fui confirmar ao dicionário e anómalo significa irregular, que é contrário à ordem natural. Deduzo que, desde há mais de um mês para cá, os títulos dos jornais online e as aberturas dos telejornais, falavam de coisas regulares, conforme a ordem natural. O país está a arder há um mês, mas o Sr. Ministro e o Sr. Primeiro Ministro dizem que é natural. Valha-nos isso para continuarmos a suportar as imagens que diariamente nos entram pela casa adentro. E o fumo. E a não ver o Sol, escondido no céu “naturalmente” cinzento.
Hoje começam a chegar os meios aéreos que o Governo solicitou. Não eram necessários mais cedo, disse Sócrates e António Costa. Afinal, devem ter razão. Ainda há país para arder.
Naturalmente.
Afixado por Isabel às 09:34 | Afixadelas (4)
agosto 21, 2005
Tipicamente...

Acho que me apaixonei nos Amigos de Alex. Ao longo dos anos, fui devorando todos os filmes. Diziam-me os amigos, dizia a crítica que ele é sempre igual. Tem sempre os mesmos tiques, os mesmos gestos, o mesmo sorriso e o mesmo olhar. No cinema, parece-me que tenho gostos diferentes aos da vida. Gosto de actores (engraçado, só me lembro de homens) que sejam sempre iguais. Prefiro o Jack Nicholson ao Roberto de Niro, por exemplo. E não me digam que não se pode fazer este tipo de comparações, porque me apetece e pronto. Parece que, quando vou ver um filme destes actores são os gestos sempre iguais que procuro. Não vou, essencialmente, para ver um filme. Vou para matar saudades.
Vi as Noites Escaldantes, O Beijo da Mulher Aranha, os Filhos dum Deus Menor, o Turista Acidental, a Alice, a Edição Especial, o Mistério de Gorki Park, o Até ao fim do Mundo, as Viagens Alucinantes, dezenas de vezes. Sem nunca me cansar do sorriso, do ar desajeitado, do olhar perdido.
Perdi a conta às vezes que vi os Amigos de Alex e o Fumo. O ar de perdido, de coitadinho, de quem pede uma festinha na cabeça, de quem não sabe por onde nem para onde vai, ainda me dá volta à cabeça.
Parece que anda com problemas graves com o álcool, que está cada vez mais igual, que está gordo, que quase não filma, que está velho. E eu continuo aqui cheiinha de saudades. E com vontade de lhe fazer aquela festinha na cabeça, que o fizesse sorrir daquela maneira desajeitada, que usava quando a Geena Davis lhe ensinava a passear o cão ou a Kathleen Turner o convencia a matar o marido. Isto para não falar naquele arzinho que fazia quando a namorada do Kevin Costner, ou seja do Alex (deve ser porque, no fim do filme, acaba por ficar com ele, na casa do quintal, que sempre me recusei a decorar-lhe o nome...) recentemente passado para os anjinhos por conta própria, lhe pegava na mão para o levar para o escuro.
Com esta imagem de indefeso, quem é que tem tempo para reparar naqueles pormenores todos que a crítica usa para lhe chingar o juízo? Quem é que pode resistir e não continuar embevecida, estes anos todos depois daquela busca desesperada no porta-luvas do automóvel, no caminho do funeral?
Desculpem o desabafo, mas sou capaz de, esta tarde quente, ir ver pela 23º vez o funeral do dito, a amiga que empresta o marido à amiga para tentar fazer a criancinha, a amiga que volta a dar uma voltinha com o amigo para reviver os tempos antes de casar com um chato, o amigo que tenta entrar no carro pela janela como faz nos filmes...para poder encontrar aquele arzinho infeliz a enrolar um charro. A gente não manda na vontade. Ponto final. Viva o meu Williamzinho. Como diz um amigo, tipicamente “gaja”. Com aspas. Ou sem elas? Sei lá...vou pegar no DVD. Que eu, nestas coisas ( e noutras que não vêm para o caso, mas os amigos conhecem bem...) gosto muito de ser típica.
Afixado por Isabel às 13:37 | Afixadelas (9)
agosto 20, 2005
Deixem-me respirar!!!!

- Quem? Nunca ouvi falar...
- Vais ver que gostas. Não sejas chata...leva e lê...
- Mas é japonesa?
- Achas? Já viste o título? Chinesa, "miga". Vá leva, Lês no fim-de-semana e trazes Segunda...
- E tu achas que eu vou ler isto no fim-de-semana? Tenho mais que fazer...
- Cala-te e pega no livro!!!
Tive que vir respirar. Já é a segunda vez que tenho que vir respirar. Faz demasiado calor. Agora vou lá voltar. Até logo!
Afixado por Isabel às 17:54 | Afixadelas (2)
Uma fábula

Poderia parar e imaginar que me ocupavam a minha casa. Destruíam tudo o que encontravam. Não queriam nada que os fizesse recordarem-me.
Anos depois, em nome de interesses que não os meus, em nome de justiça que não a de me devolverem a casa que era minha, abandonavam o local onde fora a minha casa. Antes, destruíam tudo. Assim, não poderia lá voltar a viver. Assim, teria que encontrar força para tudo reconstruir. Que eles sabiam que eu não tinha.
Poderia falar da casa da minha irmã que tinha sido ocupada quando a minha e que não lhe seria devolvida. Poderia falar no dinheiro que receberiam para deixar a minha casa. E que continuariam a receber, mesmo que a deixassem em cacos.
Poderia falar...mas, ao buscar uma foto no Google, dei-me com o Cordeiro e o Lobo, de La Fontaine.
Ainda não encontrei a fotografia que procurava. Uma que falasse de Paz.
Fica a fábula.
Na água limpa de um regato, matava a sede um cordeiro,
quando, saindo do mato, veio um lobo carniceiro.
Tinha a barriga vazia, não comera o dia inteiro.
- Como tu ousas sujar a água que estou bebendo? – rosnou o Lobo a antegozar o almoço. - Fica sabendo que caro me vais pagar!
- Senhor – falou o Cordeiro – encareço à Vossa Alteza que me dsculpeis mas acho que vos enganais: bebendo, quase dez braças abaixo
de vós, nesta correnteza, não posso sujar-vos a água.
- Não importa. Guardo mágoa de ti, que no ano passado,me destrataste, fingido!
- Mas eu nem tinha nascido.
- Pois então foi teu irmão.
- Não tenho irmão, Excelência.
- Chega de argumentação. Estou perdendo a paciência!
- Não vos zangueis, desculpai!
- Não foi teu irmão? Foi o teu pai ou senão foi teu avô.
Disse o Lobo carniceiro. E o Cordeiro devorou.
Afixado por Isabel às 17:07 | Afixadelas (1)
Era apenas isto que eu queria...

Ontem à noite saí para jantar fora. A intenção era ir à Trindade comer um daqueles bifes óptimos para a saúde com muito molho, onde se pode comer muito pão e beber muita cerveja. Quando chegámos à minha cervejaria (e, apesar do serviço que muitas vezes é muito pouco profissional e nada amistoso, aquela é a minha cervejaria) estava completamente cheia, com uma fila que saía da porta.
Uma das minhas amigas mais impacientes e a quem doía um pé, propôs que fossemos a outro lado.
Rumámos para o Bota Alta. Que estava cheio e com uma fila até à porta do vizinho.
A minha amiga disse que o pé não parava de doer e que há anos costumava frequentar um restaurante onde se servia uma paella muito boa.
O meu filho e a filha dessa amiga que nos acompanhavam estavam a começar a ficar algo impacientes com fome e decidimos aceitar a sugestão da paella.
Quando entrámos à porta começou o filme de terror.
Em cima do balcão, dentro duma fruteira (?) três bananas com ar de sofrerem de doença incurável, não paravam de me olhar. Chamei a atenção, aos meus amigos, para o aspecto das ditas, ainda antes de chegar a ementa, mas recebi um coro de e entãos.
Fiquei caladinha. Quando a ementa chegou o sr. disse-nos que a Paella levaria mais de uma hora a fazer. Olhámos uns para os outros e decidimos pedir outra coisa. Como tem tudo a ver com paella, eu e o João Pedro pedimos uma carne de porco à alentejana.
Entretanto já tinha chegada a sangria. Nunca tinha visto grãos de café numa sangria mas alguém me disse que era sofisticado (!!??).
Quando os pratos começaram a chegar, começou a ficar tudo um bocadinho para o amarelo. O que era aquela coisa que acompanhava as costeletas, perguntava um. Onde á que andam as batatas das iscas, questionava-se o outro.
O meu prato demorava e, entretanto, eu não conseguia tirar os olhos duma "mousse de chocolate" que estava dentro duma taça. O ar de cimento era-me familiar, apesar de não lhe reconhecer a cor.
Quando, finalmente, a carne de porco à Alentejana chegou, foi o fim. Aquilo sabia a um sabor novo, esquisito, enjoativo. O meu filho olhava para mim e encolhia os ombros. Dei a toda a gente a provar até que alguém disse "Isto é erva doce…!!!" Erva doce? Na minha carne à Alentejana? Mas, o pior, ainda nos estava reservado. Em vez de amêijoas aquela coisa vinha acompanhada de três mexilhões. Ok, pensei, se estive quatro dias na Bélgica e sobrevivi, devo aguentar estes. Mandei-me para o primeiro mexilhão. Não abria. Pedi reforços. Não abria. Finalmente um colega mais forte e encorpado abriu o gajo. Que estava cru. Completamente cru...os outros, pedi para não tentarem.
Chamei a menina que nos servia e perguntei-lhe que prato era aquele. Entretanto o meu filho só dizia "Mãe, tem calma" e eu dizia "Claro que tenho..." A sra. respondeu "O que a sra pediu" "OK, mas o nome" "Carne de porco à Alentejana" "Isto é carne de porco à Alentejana? onde é que estão as amêijoas? E os coentros?" "Aqui...ah, tem razão, são mexilhões" "E estão crus!" "Ah, tem razão e estão crus..." " E os coentros?" "Nunca usanos coentros...""E está doce…" "Ah, mas isso é normal, a cozinheira é estrangeira e gosta de pôr erva doce e canela nos pratos...".
A menina afastou-se, sem me perguntar se queria trocar por outra coisa, sem um pedido de desculpas, uma palavra. Perguntei ao João Pedro se conseguia comer aquela mistela. Disse-me que achava que não.
Fim da história: pela primeira vez na minha vida, agora com esta provecta idade, decidi sair dum restaurante sem comer nem pagar a conta. Chamei a menina, de novo, e disse-lhe que queria pagar a coca cola , o queijo e o pão. "E o resto?" perguntou. "Arranja-me carne de porco à Alentejana?".
Combinei com os meus amigos que nos encontraríamos um pouco mais tarde e fui com o João Pedro comer duas tostas mistas cada um, ele bebeu coca-cola e eu imperial. Tivemos direito a esplanada e tudo. Quando nos encontrámos, mais tarde, os meus amigos vinham todos com ar de doentes. Nós os dois estávamos satisfeitos e felizes. Recebi uma chamada há pouco dum deles que diz que está mal dos intestinos. Respondi-lhe que é o resultado de não saberem ser intolerantes. Nestas coisas, as únicas assevero-vos, eu sou. Aprendi a ser. Não saio de casa para jantar fora para me darem carne de porco à Alentejana doce e com mexilhões crus. Não pactuo com faltas de qualidade e de profissionalismo, nem com espertezas saloias. Há unos anos, deveria andar aqui, hoje, a correr para a casa de banho. Hoje estou aqui satisfeitíssima com as tostas mistas.
Não me lembro o nome do maldito restaurante. Sei que fica no Príncipe Real e que diz que é especializado (???) em paella. Pela vossa rica saúde, não entrem.
Afixado por Isabel às 11:54 | Afixadelas (5)
agosto 19, 2005
Volta!

Nunca nos entendemos. Nunca entendeste a minha loucura, eu nunca entendi a tua passividade. Nunca entendeste as minhas paixões, eu nunca entendi nunca te ver apaixonada. Talvez, quando o teu neto nasceu, tivesse visto laivos de paixão no teu olhar, mas sempre te preocupaste tanto com tudo, que nunca te sobrou muito tempo para que, mesmo então, os teus olhos brilhassem
Talvez bastasse um gesto. Mas eu não sei o gesto.
Nunca nos entendemos. Quando te falava de voar, respondias-me que estavas demasiado cansada para andar. Dantes, há muito tempo, ainda nos entendiamos a fazer bolos – lembras-te das bolachas de manteiga? E da torta de chocolate? Com o tempo, começaste a dizer que o forno não funciona bem.
Talvez bastasse uma palavra, mas eu não sei a palavra.
Nunca nos entendemos no tempo. Quando havia um dia de Sol, dizias sempre que a aragem indicava que vinha aí chuva, quando chovia, eu dizia-te sempre que aquela nuvem branca lá ao longe, por cima de Santarém, anunciava que o Sol estava a chegar. Nem no outro tempo. Quando eu dizia que era tarde tu dizias que era cedo. Quando eu dizia que tinha tempo, tu dizias que eu nunca tinha pressa para nada.
Hoje, sinto que terei que encontrar a forma. De te trazer de volta. Não quero acreditar que seja tarde. Mas não sei o que fazer para ainda ir a tempo.
Ontem, à noite, aproveitando o facto do teu marido e do teu neto andarem a passear, disse-te que precisava de ti. Mais uma vez não nos entendemos. Perguntaste-me para quê e eu não soube responder. Nunca entendeste que nunca há um para quê quando preciso das pessoas. Nunca entendeste que só te saberia responder se me perguntasses porquê. Ontem repeti-o três vezes na esperança que fizesses a pergunta.
Pergunta-me porquê, por favor. Para poder dizer que é porque te amo. E para poder voltar a rapar a tigela da massa da torta de chocolate.
Afixado por Isabel às 09:36 | Afixadelas (9)
agosto 18, 2005
Colegas

Na Quinta Feira tive uma agradável surpresa. Tenho um colega. Estava cansada de trabalhar com mulheres. Só com mulheres. Se gostar de homens é uma questão de feitio, gostar de trabalhar com homens é, mesmo, uma questão de preservação da sanidade mental.
A diferença nota-se logo nos primeiros dias e nas pequeninas coisas.
Nos gelados, por exemplo.Nenhuma das minhas colegas se ofereceu nunca para me ir buscar um gelado ao meio da tarde. Nunquinha.
E namorar ao telefone? A diferença que faz namorar ao telefone com um colega ou com uma colega de gabinete. Elas nunca saem. E quando lhes dou a entender que é uma chamada pessoal, têm sempre milhares de coisas para fazer. É o saco que está na cadeira e que tem a escova de dentes e a escova de dentes é precisa naquele momento. É o telemóvel que está na secretária e que pode tocar a qualquer momento, apesar de saberem que só toca uma vez por dia... Que contraste com a disponibilidade contida num “Quando acabares avisa...eu tenho o móvel...Até já!” e é vê-lo sair apressado, porque há sempre coisas inadiáveis para fazer num gabinete e eles tãm perfeita consciência disso.
E as conversas? Quando é que eu podia falar de cinema ou de futebol, ou dos U2 ou do Mário Soares? Nunca. Começava a falar no Sócrates e acabava a conversa a falar na roupa por passar, falava no Hugh e acabávamos a falar na mania do marido deixar os sapatos na sala.
Só para termos a exacta noção da diferença, ontem, o meu colega veio pedir-me opinião sobre a melhor marca de panela de pressão porque queria oferecer uma à namorada (claro que não há ninguém perfeito...mas estes “pequenos” pormenores, com calma, eles também acabam por aprender...) e acabámos a falar do “Carteiro toca sempre duas vezes”.
Claro que há conversas que não se podem ter com colegas de trabalho. Sexo, por exemplo. Não há nada como uma colega mulher para falar de sexo. As mulheres são normalmente muito mais abertas nestas coisas. O problema é que as nossas colegas de trabalho não sabem, já não se lembram ou não estão a ver o que isso é. E fica-se com o tempo todo desocupado para falar no tia que está doente, no marido que ressona ou no preço dos livros do filho.
Eu também tenho essas coisas todas (ok, nem todas...) mas, acho que o tempo que passamos no local de trabalho deve ser aproveitado para fazer coisas importantes : namorar, comer gelados, falar de cinema ou aprender o que é um fora de jogo. E nisso, minhas caras, os homens são muito melhores colegas do que vocês.
E não pensem que eu faço o mesmo. Cá por mim, adoraria que uma colega passassa horas a namorar ao telefone. Tenho uma Bertrand mesmo do outro lado da rua e preciso de beber vários cafés por dia. E tenho uma bolso especial onde meto sempre o telemóvel ( mesmo que só toque uma vez por dia...) Na volta, no local de trabalho, nasci homem. O que não me desagrada nada, diga-se.
Afixado por Isabel às 09:42 | Afixadelas (22)
agosto 17, 2005
Quem é amiga? II

Émièle, desculpa lá não aproveitar cabalmente a ausência dos nossos colegas, mas temos que ser boazinhas e o Afixe é um verdadeiro serviço público.
Confesso que o meu stock de fotos femininas é um bocadito mais limitado e não tive outro remédio senão ir surripar esta ao o mundo perfeito.
Espero que os nossos leitores gostem e que se continuem a sentir, aqui, em casa.
E agora talvez devesse, mesmo, ir fazer qualquer coisita.
Afixado por Isabel às 11:48 | Afixadelas (5)
Quem é amiga?

Andei à procura de um assunto interessante para fazer um post. Agora que a Émièle está de férias e aproveitando as férias de mais alguém aqui no serviço, comecei a manhã a ler os jornais online para tentar descobrir algo e cumprir, assim, a minha obrigação, justificando os trocos que o Afixe me paga ao fim do mês.
Entre o Mário Soares que diz que é o único, o genuíno e o da Bayer e que, sem ele, o professor iria dar um passeio (ainda estou um bocadito traumatizada com a ideia de, ao descer calmamente a Avenida, me deparar com um pastel de bacalhau a sair daquela boca...é por estas e por outras que eu não gosto que a Émièle vá de férias...estes traumas logo de manhã não fazem nada bem à saúde) e mais umas notícias sobre mais uns incêndios e ainda umas outras sobre umas declarações sobre o Ganda Nóia ou do Ganda Nóia sobre um gajo qualquer (parece que esta já tem uns dias, mas eu não tenho tido tempo para me inteirar dos factos importantes que se vão passando neste país...), desisti.
Decidi ir limpar o meu Email que há que se ser produtivo, nas horas de serviço. E, entre os milhares de mails para apagar, descobri este senhor que uma amiga me enviou, há uns tempos.
Achei que estava com um ar tão desprotegidinho ( e por mais que as mulheres digam que não, fica-se sempre comovida com este ar...tá bem que a comoção não dura muito, mas que mexe com a gente não vale a pena negar), que decidi fazer a boa acção do dia e publicá-lo aqui.
Há por aí alguém que lhe faça companhia? Que o ajude a perder aquele arzinho tristonho e desamparado?
Entre o passeio do pastel de bacalhau, a entrevista do insubstituível e o granda nóia, desculpem lá, mas eu até sou amiga.
Vou ver se descubro mais coisas de interesse. Já volto.
Afixado por Isabel às 10:18 | Afixadelas (11)
agosto 16, 2005
Missão cumprida

Pronto, está entregue. Depois de dias sem dormir, sem comer, sem quase ter tempo para respirar, a totalidade das listas da Candidatura de Sá Fernandes à Câmara de Lisboa, foi, hoje, entregue. Não é meu costume fazer campanha eleitoral no Afixe, mas não resisto a deixar, aqui, duas notas pessoais, com a promessa que não torno...muitas vezes:
José Sá Fernandes é uma pessoa extraordinária. Daquelas pessoas que, com um sorriso, nos faz esquecer a fome, o cansaço, a falta de dormir. Que se mantém calmo, mesmo quando tudo parece correr mal ou não correr, como tantas vezes parecia ser o caso. Daquelas pessoas que, quando encontramos a primeira vez, parece que conhecemos desde sempre e que não nos apetece voltar, nunca, a perder de vista. Se mais nenhuma razão houvesse e eu acredito sinceramente que haverá, estes dias de contacto diário com o José Sá Fernandes, teriam valido a pena por ter tido a oportunidade de o conhecer de perto.
Com as listas, foi a minha lista. Agora começa a parte que me dá gozo. Ajudar a fazer a minha casa melhor. Não há mais nenhuma razão para me meter, de coração aberto, nesta embrulhada: esta é a minha casa e eu adoro a minha casa.
Afixado por Isabel às 19:43 | Afixadelas (6)
Eu também!!!!

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem duvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
Álvaro de Campos
Afixado por Isabel às 10:53 | Afixadelas (0)
Coisas que aprendemos com a idade...

Às vezes, basta uma resposta para o Sol voltar a brilhar. Com o tempo, com a idade, com a maturidade, aprendemos que a única forma de confiar é não deixar que as dúvidas se instalem. Não há amor nem amizade sem confiança. A cumplicidade não é possível se calarmos perguntas com medo das respostas ou do efeito das perguntas. Na amizade. No amor. Na paixão. Na vida.
Há alguns anos nunca teria feito a pergunta que esta manhã ousei fazer. Com medo da resposta? Ou porque me escudaria sob a desculpa de que ao fazê-la estaria a interferir com a liberdade de alguém? Por qualquer uma destas ou de outras dezenas de hipóteses, a pergunta teria ficado aqui. Guardada. À espera do momento para sair. Ou calada para sempre. A vida muda-nos. Gosto que a vida me tenha mudado. Gosto mais de mim com coragem para fazer perguntas. Sobretudo porque, para mim, isso significa que aprendi a confiar. Nas respostas. Das pessoas de quem gosto e que amo.
Muitas das perguntas que calei, ao longo dos anos, talvez tivessem sido caladas por sentimentos muito nobres (até sou capaz, de assim, à posteriori, acreditar nisso...). A que hoje coloquei foi feita pelo sentimento mais nobre de todos. E estou bem. A sério. Às vezes basta uma pergunta para o Sol voltar a brilhar.
Obrigado a quem me ajudou a aprender a confiar. Ao longo dos anos. E hoje.
Afixado por Isabel às 10:32 | Afixadelas (2)
agosto 15, 2005
Poesia no feminino - II

Atravessa os campos da noite
e vem.
A minha pele ainda cálida de sol
Te será margem
Nas fontes, vivas, do meu corpo
Saciarás a tua sede
Os ramos dos meus braços
Serão sombra rumorejante
Ao teu sono, exausto
Atravessa os campos da noite
e vem
Luísa Dacosta - Apelo
Afixado por Isabel às 13:13 | Afixadelas (1)
Os meus sítios
Viena - Monumento às vítimas do nazizmo
Falta alguma coisa a Viena. Muito pouco. Que me lembre faltam guardanapos nos cafés (é verdade, nunca me deram um guardanapo de papel enquanto lá estive ou vi um guardanapo de papel perdido em cima de uma mesa, nos locais onde tomava a bica ou lanchava).
De resto, Viena tem tudo. Tem uma Escola de Equitação que fez as delícias do meu filho e onde ele me enumerou o nome de todos os passos que cavalo e cavaleiro, faziam. Tem centenas de pessoas a andar de bicicleta que fazem a delícia de qualquer um que chegue de Lisboa, tem pessoas que dançam ou que tocam em cada esquina, tem um pequeno monumento que se descobre quase por acaso mas que, talvez pela sua singeleza, nos emociona, às vitimas do nazismo, e onde pessoas que passam teimam em deixar flores (no dia em que lá estive havia dois cravos vermelhos). Tem um hotel pequenino, lindo de morrer, com uma empregada velhota que conhecia o Zé Afonso e que sabia tudo do 25 de Abril, onde ficámos as duas últimas noites, tem jardins onde nos perdemos, tem carros que nem nos filmes, como dizia o João Pedro, e que fez, com que, do dia em que ficou sozinho e que foi fazer um tour à cidade, que eu não teria oportunidade de repetir, existam, sobretudo, fotografias de Jaguars, BMWs, Ferraris e outros que nem me passa pela cabeça de que “raça” são, tem café, café verdadeiro, quase igual ao nosso, que, em qualquer local, vem sempre acompanhado de um copinho de água dentro de uma pequena travessa de inox (ah, se não fosse ter que limpar a boca às costas da mão…).Tem Multibancos (raros, que isto de Multibancos em cada esquina é mesmo caracterítica nossa) onde tentei deseperadamente levantar 60 Euros e a maquineta se recusou a dar-me menos de 200.
Viena tem tudo. E, no entanto, tal como os outros locais, Viena só passou a ser minha, porque foi a minha primeira viagem ao estrangeiro com o meu filho. De Quinta ao fim da tarde, quando acabou a reunião onde participava, até Sábado à noite, andámos quilómetros, conhecemos os cantinhos, descobrimos praças escondidas. De Quinta até Sábado à noite, fizemos jus à teoria do meu filho sobre o nosso “grau de parentesco”.
Quando se fala em Viena, ele diz sempre “curtimos bué”. Tem que ser nosso, um sítio onde se curte bué. Sobretudo acompanhada por um amigo lindo, moreno, de olhos verdes e que me explicava cada carro que encontrava na estrada, que ele achava merecedor de ter a história contada. O que em Viena, era, mais ou menos, carro sim, carro sim.
Afixado por Isabel às 12:25 | Afixadelas (1)
agosto 14, 2005
15 de Agosto de 1945 - Fim da 2ª Grande Guerra

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.
Bertold Brecht
Afixado por Isabel às 19:49 | Afixadelas (3)
Monólogo

Porque é que és preguiçosa? E comodista? E não te apeteceu dormir uma noite na rua? Que mal tem passar uma noite na rua? Agora ficas aí a roer as unhas até aquela coisa que tem um nome muita feio... É para aprenderes, filha, que quando queremos mesmo as coisas temos que fazer sacríficios. Já tinhas idade para saberes isso. Vá, contenta-te com veres o Sampaio a entregar-lhes a ordem da Liberdade...e não vale a pena ficares de beicinho caído que agora não há a fazer...vai meter o CD e tomar um duche frio. E vê lá se aprendes!!! Às vezes, até tenho desgosto em tu seres eu!!! Brrrrr!!!! Que raiva!
Afixado por Isabel às 17:09 | Afixadelas (2)
Às vezes...um post com destinatário

Num minuto se nasce.
Às vezes, acontecem, na nossa vida, momentos assim. Em que um mês não são trinta dias. Em que um mês não é, apenas, mais um mês. Às vezes, acontecem, na nossa vida, meses que são 43200 minutos em que nascemos.
Nascemos nas palavras e nos gestos que redescobrimos, no desejo que não calamos, na ternura que em nós transborda, no prazer que nos enche o corpo e a alma. Nascemos na voz e nascemos na pele e nascemos, ainda, no sorriso. E na paixão.
Às vezes, acontecem meses, na nossa vida, em que nascemos. Apenas nascemos.
Às vezes, acontecem momentos nas nossas vidas em que não nos preocupamos como será daqui a um mês ou daqui a um ano. Às vezes, acontecem meses na nossa vida em que só o 43201º minuto conta. E nesse, eu estou contigo.
Afixado por Isabel às 00:05 | Afixadelas (4)
agosto 13, 2005
Até mais logo !!!

Afixado por Isabel às 10:26 | Afixadelas (4)
agosto 12, 2005
Cinco horas
9.20h – Atendo o telefone e a minha colega telefonista, diz: “Isabel vou-te passar um cliente.”
O cliente pergunta se é possível pedir para fazer um bolo de aniversário para oferecer à esposa que faz anos, amanhã. Respondo que sim. Pergunto-lhe quantos, para poderem colocar a vela e ele diz “43, apanhou-me...”. Começo a fazer seguir o pedido.
10.15h – No lobby, vejo parar uma ambulância à porta. É um cliente que se sentiu mal, diz-me o meu colega.
11.00h – O cliente sai numa maca para o hospital.
13.15h – Somos avisados que o cliente faleceu.
13.40h – Aviso a pastelaria que o bolo de aniversário ficou sem efeito.
14.05h – Ainda tenho a voz nos meus ouvidos.
Temos, mesmo, tempo para dar importância a coisas insignificantes?
Afixado por Isabel às 14:12 | Afixadelas (7)
Socorro!!!!!
Não consigo escrever. Não consigo trabalhar. Tou completamente coitadinha. Vi-me agora mesmo ao espelho e se me restasse alguma forcita teria gritado ou fugido. Assim, limitei-me a bocejar. Não quero ver mais Juntas de Freguesia. Nem candidatos. Nem declarações, nem certidões até, pelo menos...Terça Feira. Só quero...

...please!!!! Só um cachochinho!!!
Tou com tanta pena de mim, que não sei se me sinto indio ou galinha...ou se não me sinto...Socor...zzzzzz
Afixado por Isabel às 11:14 | Afixadelas (4)
agosto 11, 2005
País de forretas e desconfiados
Parece que o Governo escolheu a Ota para a construção do novo aeroporto sem qualquer estudo de viabilidade económica do investimento.
Se o Aeroporto é uma prioridade, se o Primeiro-Ministro disse que era uma prioridade, como é que querem que se tenha tempo para essas miudezas???
E, mesmo a sério, numa altura de vacas gordas como a que o País atravessa é mesmo necessário perder tempo com tostões?
E, depois, se não tiver sucesso pode-se sempre construir outro. Ainda deve haver espaço. E com a construção do TGV, outra prioridade de Sócrates, depressa se há-de lá chegar, seja lá onde for.
Vamos mas é ganhar juízo e deixarmo-nos destas esquisitices. Se é uma prioridade não há tempo a perder. Que se lixe a viabilidade económica da coisa.
Afixado por Isabel às 11:28 | Afixadelas (0)
Poesia no feminino - I

Acho estimulantes aa discussões sobre se há uma maneira feminina e outra masculina de estar na vida. Estou, claramente, do lado dos que acreditam que sim. Que não estamos, sonhamos, vivemos e sentimos da mesma forma.
Claro que temos sonhos e objectivos comuns. Somos seres humanos. Claro que amamos e nos apaixonamos. Somos seres humanos. Claro que choramos. Somos seres humanos. Mas não creio que o façamos da mesma forma. Com a mesma forma. E acho uma maravilha que assim seja.
No entanto, já não acho tão discutível que haja uma escrita feminina. Sobretudo, uma poesia feminina. Aqui, confesso, sou bem mais categórica. Há. Acredito que haja. E dificilmente me conseguirão convencer do contrário.
Há dias, numa das minhas habituais peregrinações pela FNAC (confesso que é a única ”grande superfície” que me faz trair com prazer as lojas de bairro), descobri uma colectânea de poemas, compilados por José Fanha e José Jorge Letria com o nome “Cem Poemas Portugueses no Feminino”.
Dessa recolha, já aqui publiquei o corpo de Maria Teresa Horta.
Porque gosto de poesia e acredito que o que dá verdadeiro sabor à vida é a alegria da diferença, aqui irão ficar mais alguns.
dá-me vinho meu amor
dá-me vinho
vinho pela tua boca
deita-me junto ao rio
abraça-me contra a terra
abraça-me dentro de água
mas dá-me vinho
dá-me
sem parar
hoje quero ser tua
da maneira mais louca
Lua cheia - Y.K.Centeno
Afixado por Isabel às 10:41 | Afixadelas (0)
agosto 10, 2005
Parece que eu apoio...

Pelo Jornal de Notícias de hoje soube que Mário Soares tem garantido o meu apoio na sua “quase certa” candidatura a Belém.
Eu que ainda nem tinha tido tempo de pensar no assunto – aliás, a perspectiva de, algum dia, ter que optar por votar em Mário Soares (e não se trata só, nem essencialmente, de divergências politicas, trata-se, sobretudo, da sensação de vazio que isso implica) para impedir a eleição de Cavaco Silva é tão deprimente que adormeço antes de, sequer, conseguir visualizar o rosto de qualquer um deles, fiquei toda contente por saber que, afinal, já tinha decidido e não sabia.
Agora parece que Mário Soares já está na fase de tentar cativar os eleitores do PSD, a Igreja e os empresários, mas, aí, eu já não entro. Comigo, parece que já está tudo certo e decidido. Tenho que me começar a pôr a pau. Agora jé nem dou pelas decisões que tomo nem pelos apoios que dou. Senilidade, certamente. Fico um bocadito aflita sem saber o que virá a seguir neste meu irreversível caminho para a distração total. Mas que é um alívio e me evita a grande trabalheira de pensar, lá isso é verdade.
Afixado por Isabel às 10:45 | Afixadelas (7)
Os meus discos
The Waterboys

Vamos aprendendo a descobrir as nossas próprias terapias. Ontem, depois de um dia de cão e de uma noite de conversas, nem sempre fáceis, dei por mim, aproveitando o facto de me poder dar ao luxo de ficar a ouvir música até às tantas (vantagens que Agosto me dá), a procurar no meio da confusão dos CDs lá de casa (até nos CDs sou desarrumada, caraças...) os Waterboys. Por uma qualquer associação de idéias sempre achei que a música dos Waterboys é para se ouvir no Verão. E em alturas de crise.
Só tenho dois discos dos Waterboys – This is the Sea e Fisherman’s Blues. São suficientes para me deliciar com The Whole of the Moon, do primeiro ou com o violino de Steve Wickham, no segundo.
The Waterboys foram o inicio da paixão que ainda hoje (ou cada vez mais hoje?) cultivo pela música irlandesa e pela música celta.
Vi-os ao vivo, há muitos anos, no Campo Pequeno. Dançar ao som daquela música é uma terapia para qualquer alma em apuros. Ontem à noite tive, de novo, a confirmação da suas inquestionáveis qualidades terapêuticas.
Afixado por Isabel às 10:12 | Afixadelas (2)
agosto 09, 2005
Para um amigo ausente

Só agora olhei o calendário. Já passa muito da meia noite, eu sei.
Custava-te a descer as rochas. Cansavas-te a percorrer o areal. Naquele ano, percorremos a costa alentejana num Diane castanho. Tinhamos acabado de nos encontrar. Ainda acreditávamos que poderiamos nunca nos perder. Até tu acreditavas que querias viver.
Acampámos, ali, bem juntinho à praia. Durante aqueles dias enormes e aquelas noites ventosas do fim de Junho, vivemo-nos.
Nunca se deve voltar aos lugares onde se foi feliz, dizia o poema. Os poetas são uns fingidores.
Hei-de voltar à Carrapateira.
Seguramente não iriamos à Carrapateira juntos, hoje. Mas queria tanto que tu lá pudesses estar. Talvez por ser 9 de Agosto.
Parabéns, meu amigo. Não é todos os dias que se faz cinquenta anos. Mesmo estando longe.
Afixado por Isabel às 14:31
Agosto em Portugal

Cenas da pré-campanha eleitoral
Afixado por Isabel às 11:01 | Afixadelas (1)
Sem título

Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente.
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego
Afixado por Isabel às 10:36 | Afixadelas (6)
agosto 08, 2005
Como é que se explica?

De repente, no meio da pasmaceira de Agosto, vi na Sic online, a notícia que Cristiano Ronaldo, está com o seu valor publicitário em baixa, devido a umas fotos postas a circular por uma ex-namorada.
Fico estarrecida. Já não me bastavam os chocantes e imorais valores que jogadores, treinadores e outros “artistas” levam para casa depois de um anunciozeco ao BES ou ao American Express (só para nomear dois que me estou a lembrar), agora entra-nos pela casa adentro esta outra ausência de princípios. De dignidade. Este vale tudo em que nos transformámos. Alguém que tem uma relação afectiva ou sexual com alguém e que usa fotos de momentos dessa relação para sacar dinheiro (seria, apesar de tudo, mais “romântico” pensar que era por ciúme ou por vingança...mas a venda a um jornal inglês, não nos permite estas veleidades). E, depois, o despudor com que se diz que o BES (que tem a circular anúncios publicitários com Cristiano Ronaldo) está a investigar o caso, a ver qual é a gravidade dos fetiches do jogador do Manchester, com que se diz que foi pedir “explicações” ao representante do jogador.
Ao que parece, felizmente (?), o Banco ficou convencido com as “explicações”.
Aqui, fico a pensar como é que isto se faz. Como é que se explicará ao patrão que dentro de nossa casa, nos nossos momentos intímos, somos, desde que isso não prejudique ninguém e nos dê prazer, o Capuchinho Vermelho ou o Lobo Mau, dependendo dos gostos, da companhia e das circunstâncias? Ok, não é bem como se explica. É como se explica para ele ficar “satisfeito” com a explicação?
Desculpem, mas este mundo está louco.
Afixado por Isabel às 21:21 | Afixadelas (8)
Grita filha, grita!!!!

Estou a ouvir os REM. A chefe devia ter ido de férias e não foi de férias. Eu queria-me baldar à tarde, usando aquela treta do patrão fora e assim, mas não me vou poder baldar porque a chefe além de não ter ido de férias anda, ali, aos gritos e aos saltos, parece uma barata tonta. A vingança é terrivel. Estou a ouvir os REM, e estou com esta cara. Enquanto ela andar aos saltos e aos gritinhos, não dá por nada. Vou continuar a ouvir o Michael Stipe.
Há-de arrepender-se de não ter ido de férias, carago.
Afixado por Isabel às 15:02 | Afixadelas (6)
Que excitação!!!!

Vinha cheia de vontade. Há tanto tempo que não me apetecia escrever um post sobre a situação no País. Com as férias, o Sol, o Mar, a militãncia, já lá vão uns tempitos em que não sai nada.
Abri, esperançada, os jornais on line, a Lusa, o Sapo, já fiz uma viagenzita nos meus blogs de estimação. Nada.
Voltei ao principio. Pensei que se primeiro começasse pelos Blogs de estimação e depois fosse à Lusa, finalmente aos jornais... Nadica.
Então e se fosse primeiro à Lusa e depois aos Blogs...???
Os incêndios que continuam a consumir o País. A novela Soares / Manuel Alegre. A medalha de bronze de Susana Feitor nos 20km marcha e o 4º lugar de Obikwelu nos 100m, nos Mundiais de Atletismo, e pronto. Já está. Missão cumprida.
Soube que o Primeiro Ministro continua de férias em África, que Rui Rio congelou a polémica sobre o Tunel de Ceuta até depois das Autárquicas e que...e que...
Se não fosse a animação da pré campanha eleitoiral estava feita. Escrevia sobre quê?
Afixado por Isabel às 10:06 | Afixadelas (6)
agosto 07, 2005
Teve que ser...

Durante muito tempo adiei a conversa que tinhamos que ter. Fui adiando, não só por ter medo da resposta, mas, sobretudo, por não ter a certeza se te provocaria alguma dor. Acredita, meu amor, que não somos capazes de, conscientemente, nos arriscarmos a provocar sofrimento aos nossos filhos.
Ontem, aproveitando o fim de tarde, com o mar a molhar-nos os pés e o Sol a ser, finalmente, piedoso para a nossa pele, naquele infindável passeio à beira mar, “quando não aguentares mais eu levo-te às cavalitas”, tinhas-me dito ao deixarmos os nossos amigos, ganhei, enfim, coragem.
Quando me pegaste na mão “Antes que o mar te leve, que tu já estás um bocadito cota e o mar, aqui, puxa muito”, à pergunta, tantas vezes adiada, respondeste calmamente “ Não, Mãe, não sinto. Eu sou muito feliz contigo. E agora chega de palermices...Vamos mas é fazer a corrida que prometeste”. Desculpa ter insistido. Mas, agora, que tinha finalmente, “saído”, agora que és um homem, agora que, como dizes, sou mais amiga que mãe, senti que não poderia deixar de aproveitar a oportunidade.
Apertaste-me a mão com força e perguntaste se queria que escrevesses na areia.”O mar, depois, leva…”, disse. “Só o que nós queremos que ele leve”, respondeste.
Fiquei com o coração mais quente. E compreendi que, afinal, não tinha adiado a pergunta. Só a poderia ter feito, agora. Ali. Na praia. Ao pôr do Sol e ao pé do Mar.
Afixado por Isabel às 19:29 | Afixadelas (8)
"A rosa de Hiroshima"
Sabia que a Émiéle não se esqueceria de assinalar o dia. Obrigada amiga. O que seria o Afixe sem ti? E nós sem ti?
Fica, no entanto, a minha pequena achega para que não nos esqueçamos nunca onde nos pode levar a estupidez do homem, com a letra da “Rosa de Hiroshima” dos Secos e Molhados.
Os Secos e Molhados e Ney Matogrosso, são daquelas coisas mágicas, que se nos pegam, um dia, ao corpo, à pele e à alma e das quais nunca mais nos libertamos. Com o decorrer do tempo, não vamos aderindo da mesma forma. Às vezes, as palavras e os sons mais recentes já não nos parecem iguais. Chegamos, até, a sentir saudades dos mais antigos.
Mas, depois, um dia, vimos Ney, ao vivo, cantar a Rosa. E compreendemos que uma magia verdadeira se bem feita, é magia para toda a vida.
Pense nas crianças mudas,
telepáticas
Pense nas meninas cegas
inexatas
Pense nas mulheres, rotas
alteradas
Pense nas feridas como rosas
cálidas
Mas! Não se esqueça da
rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima, a rosa
hereditária
A rosa radioativa, estúpida
inválida
A rosa com cirrose a anti-rosa
atômica
Sem cor, sem perfume,
Sem rosa, sem nada
Afixado por Isabel às 17:36 | Afixadelas (2)
agosto 06, 2005
O meu dia
Descobri a NET na Aldeia do Meco. Estão uns gajos lá fora a tocar o Angie. Acabei de comer uma massada de peixe. Tive um dia óptimo de praia. Bebi um vinho branco de cair para o lado. Um doce da casa daqueles cheios de natas e leite condensado. Fui ao Cabo Espichel. E no dia em que se vai ao Cabo Espichel, mesmo que não haja Angie, nem massada, nem praia, nem vinho branco, nem NET, nem doce da casa, já há dia.
Ah, é verdade, ao jantar o meu filho disse que cada dia que passa eu sou mais amiga e menos mãe. Não tenho a certeza que isto seja totalmente positivo, mas parece-me que, pelos olhos brilhantes, ele acha que sim. Amanhã, com mais tempo e sem o Angie a tocar lá fora, penso melhor no assunto.
Há dias assim. Até o Afixe me mudaram. E eu adorei a mudança. Dia em pleno?
Claro que não. Falta sempre uma coisinha. Qualquer coisinha. Hoje faltou ter chegado a tempo ao telemóvel.
Até amanhã. Em Lisboa.
Afixado por Isabel às 22:24 | Afixadelas (7)
agosto 05, 2005
Até Domingo

Até Domingo. Bom fim-de-semana. Tentem aproveitar o Sol, se o Céu nos deixar respirar.
Afixado por Isabel às 15:36 | Afixadelas (4)
Verde
We shall overcome!!!

Afixado por Isabel às 11:25 | Afixadelas (5)
Os meus sítios II

Convento de Begijnof, logo à entrada, a "minha" capela.
Bruges. Não creio que seja possível visitar Bruges, sem ficar cativo. Bruges não é uma cidade. É Bruges.
Estive lá duas vezes. Da última vez, Bruges acordou fria, cinzenta. Chuvosa. Como se, no espaço de dois anos, a cidade passasse dum paraíso onde se quer ficar para sempre para um local onde o silêncio do rio e a força do passado se tornam insuportáveis. Claro que Bruges não teve culpa. Nem de ter acordado cinzenta, nem, sobretudo, da força insuportável que, entretanto, o passado recente tomara.
É da primeira Bruges que me lembro. Acompanhada de um colega italiano, Fabrízio, percorremos as ruas, ouvimos o som dos sinos da Catedral, passámos horas nos alfarrabistas e nas tendas de antiguidades, entrámos nos museus, nos monumentos, nas Igrejas, comprámos toda a espécie de chocolates e até descobrimos uma casa de artesanato sul americano, donde saí cheia de embrulhos, porque, qualquer turista que se preze, tem que vir de Bruges cheio de bugigangas dos Andes...
Na entrada de Bruges, no caminho que nos leva da estação para o centro da cidade, o Convento. Uma pequena capela. Enquanto Fabrizio, um militante comunista italiano da velha guarda, se passeava pelos jardins, fiquei mais um pouco. Lá dentro, um silêncio e uma paz que raramente encontrei. Sozinha, numa capela pequenina, quase sem luz, com o som dos pássaros que enchiam as árvores cá fora, não deixei de ser o que sempre fui, mas tive a confirmação que a paz, se encontra nos locais e nos momentos mais, para nós, inesperados (e, mesmo a sério, que nada deve ter tido de transcendental, já tentei entrar noutras igrejas e capelas, e nada...a admiração das obras de arte e dos vitrais, algum incómodo pelo inebriante cheiro a cera queimada...e a necessidade de apanhar ar...).
Uma viagem de barco pelo rio, com o condutor, depois de saber que a Donna era portuguesa (apresentação do Fabrízio com aquela mistura de italiano e de francês que ainda me arrepia) me diz, ao sair de debaixo de uma ponte para olhar para a esquerda. Numa casa linda de arquitectura flamenga, bem coladinha ao vidro, uma fotografia do Figo. Penduradas, na mesma janela, uma bandeira de Portugal e outra do Benfica.
Definitivamente, estamos em todo o lado...o Fabrizio perguntava-me “Será que não haverá nenhum italiano, aqui...não vi nenhuma bandeira...”. Não lhe respondi. Afinal, de Portugal, ele só conhecia o Benfica, a Amália e...o Álvaro Cunhal. Só, a partir daí, ficou a conhecer uma “ragazza portugaise três sympathique”.
Não se volta igual de Bruges. Creio que, dois anos depois, não teria ousado lá voltar, se não fosse o feitiço. Não soube ao mesmo. Voltei a entrar na pequena capela e já não encontrei paz. Foi dolorosa a busca pela paz perdida. Teimava em, de lá, não sair, na esperança de que o milagre acontecesse. Afinal, só quase dois anos depois voltei a ter a confirmação que os milagres podem acontecer em qualquer parte. Mesmo nos locais mais inesperados. Como na pequenina capela do Convento de Bruges. Ou, ali, à saída da minha porta.
Quem me dera voltar a Bruges, agora. E saber que me voltaria a deixar inebriar pela mistura do verde dos jardins, com o azul do rio e com as cores das casas flamengas. Pela mistura do som dos cascos dos cavalos nas pedras da calçada com o som único dos sinos da Catedral. E, mesmo que Bruges acordasse cinzenta, hoje voltaria a ter-me cativa.
Afixado por Isabel às 00:08 | Afixadelas (11)
agosto 04, 2005
Não falem, por favor!!!!

Ontem, saí para beber uns copos. Não foram muitos copos. Foram só dois copos.
Pequeninos, ainda por cima. Ou melhor, grandes mas, praticamente, vazios.
Hoje não posso virar a cabeça. Nem me apetece escrever. Não falo com ninguém. Estou com uma ressaca de todo o tamanho. Estive no mesmo local de sempre. Bebi o mesmo de sempre. Não me deitei tarde, nem nada...porque é que não posso virar a cabeça sem ver os dosssiers a dançar e cada som que sai, mesmo que seja um suave e inocente “bom dia, Isabel” me parece um martelo pneumático?
Somos estranhos. O Bar é o mesmo. Os amigos são de sempre. O whisky é igual. A noite estava linda e uma pessoa tem uma ressaca só porque a parva da mesa teimou em estar vazia? A nossa mesa? Já tive ressacas de quase tudo. Faltava-me uma ressaca de mesa.
Afixado por Isabel às 11:11 | Afixadelas (6)
agosto 03, 2005
Temos lá tempo p'rá Pizza...

Tou cansada. Já não posso ver mais declarações, certidões, e outras coisas acabadas em ões, como cartões, à frente.
O trabalhão que dá esta história da militância. Uma pessoa telefona, depois encontra-se com os candidatos, no café ou no jardim, não tens onde escrever, olha escreve aqui em cima das minhas costas, depois espalha tudo na mesa, depois escreve o que os candidatos não tiveram paciência para escrever, coitadinhos, têm que repetir 3 vezes a mesma coisa, fotocópias, qual quê, tem que ser original, vá lá não custa nada...arquivo de identificação de...nome do pai...já escreveste duas vezes, eu sei...ok, deixa lá, assina só...não vá o gajo desistir e fazer-nos falta para a Graça, depois contam-se, depois ainda faltam alguns em Belém, têm-se que se ir roubar a Alcântara, mas a Ajuda é mais pertinho, é mais pertinho? sei lá, tens aí o mapa? onde é que está o mapa?...depois contam-se outra vez com a esperança que aquilo da multiplicação dos pães funcione com os candidatos, depois embaralha-se tudo, atão mas faltavam 200 e agora já faltam 204...onde é que se meteram os 4? depois volta-se ao princípio e amanhã tem que se ir à Junta de Freguesia e depois esperar que a sra. carimbe aquela coisada toda e depois ainda se tem que ir à outra, que as Juntas são mais que as mães e depois esquecemo-nos que temos que jantar e mesmo que nos lembremos disso não temos tempo que já só faltam 10 dias...já só faltam dez dias? atão e os duzentos, que agora já são 204...vá lá começar outra vez a usar a lista telefónica do telemóvel. Ser eleito? Claro que não, amigo...eu sei que tu não percebes nada de autarquias mas só vais aparecer no 21º lugar...e ainda há o PSD e o PS e a CDU e a Zézinha, que são bem capazes de meter alguns, não tenhas medo, vá lá, falta-me um para a Pena, a Pena é tão giro, tem um jardim e tudo e patos e uma estátua, não sabes onde é a Pena? Mas eu trago-te cá e depois há o PS e o PSD e a Zézinha e a CDU...e que tal mandar vir uma pizza? Uma pizza? Mas se a gente começa a comer a pizza não tem tempo para acabar isto...e temos que contar tudo outra vez...vá lá...olha apareceu um, agora já só faltam outra vez 203, o que é que este do Socorro estava a fazer em Marvila? Marvila, sei lá onde é Marvila, eu sou pela Pena, não sabes onde é a Pena, tem uma estátua...
Alguma vez vamos ficar, assim, grandes como o PS ou organizadinhos como o PCP?
Duvidas? Porra, eu também…vamos lá então...Penha de França, um, dois...sete...quinze...São Jorge de Arroios...quatro...vinte e dois…são quantas ao todo? 53? Ok...só falta 51...Alvalade...onze...vinte...
Afixado por Isabel às 00:29 | Afixadelas (13)
agosto 02, 2005
Os meus sítios
Tenho sítios. Com o decorrer do tempo, vou perdendo a noção do que fez que um sítio, me passasse a pertencer. O momento em que lá estive, as pessoas com quem lá estive, a magia das suas formas, o encanto das casas, as gentes, o ar, a cor do Céu.
Não tenho muitos sítios que sejam meus (eterna luta esta, a de ser de esquerda…), mas, nos que tenho, sou extremamente possessiva.
Pensei fazer, agora que o mês de Agosto se instalou definitivamente, uma pequena viagem guiada pelos meus sítios.
Guiada pelo que me lembro de lá ter sido ou encontrado, não guiada para vos mostrar o que lá vão encontrar. Porque, apesar de possessiva, no fundo, bem no fundo, eu até gosto de partilhar (eterna alegria esta, de ser de esquerda…).
Piódão, manhã de Outono. Muito tempo atrás. Um fim-de-semana de encontros e de fuga. Dois amigos de sempre e uma paixão de então. Para que a combinação fosse perfeita, os amigos de sempre decidiram apaixonar-se.
A estrada que atravessa a serra do Açor, um local onde, por uma qualquer ilusão de óptica, parece que nos vamos perder no precipício, que a estrada acaba ali e, depois, os olhos esbugalhados perante o inesperado, o encanto do inesperado. As casas de pedra, a Igreja branca, o café feito numa cafeteira de alumínio no único “café” da aldeia, o calor de uma mão, o relato entusiasmado de uma voz. As juras de amizade e paixão eterna. A felicidade de saber que, estes anos todos depois, as de amizade perduraram. E a visão da serra, vista da aldeia e da aldeia, vista da serra. Como se tivéssemos, ali, mesmo a nosso lado, a confirmação que há, sempre e em tudo, pelo menos, duas visões. Com a vantagem que, aqui, ambas são (receio usar este verbo no presente, depois do último fim-de-semana) duma beleza avassaladora. Como se a pedra das casas e a encosta da serra nos quisessem provar que, assim, também é na vida. Basta olharmos com olhos disponíveis. Para encontrar calor na pedra fria e liberdade numa serra íngreme e rochosa. E, ao partir e deixar para trás Piódão, lembro-me de me questionar se a aldeia estava presa ou aconchegada na serra e se esta protegia ou dominava a aldeia. As duas visões, da aldeia de pedra ou do despertar de cada dia.
Afixado por Isabel às 07:43 | Afixadelas (7)
agosto 01, 2005
De manhã

Muito jovem, ainda. Era cedo, pouco mais das 8 horas, da manhã.
Levantou-se davagar, sacudiu a roupa de mansinho, foi lavar a cara. Molhou e ajeitou os cabelos.
Pegou no cobertor e dobrou-o calmamente. Fez um rolinho. Olhou em volta, como se para ver se tudo estava arrumado.
Sacudiu, de novo, a camisola, meteu a camisa nas calças, voltou a passar a mão pelos cabelos louros e revoltos.
Quando eu já tinda apanhado o autocarro ainda o vi com um passo firme e decidido. Não parecia cansado e parecia ter um objectivo. Claro. Com o rolo do cobertor ao ombro, pouco depois das 8, cabelo mais composto e camisa dentro das calças, louro, jovem ainda, desapareceu no meio da manhã de Segunda Feira.
Fiquei a pensar na razão porque terá escolhido aquele banco do jardim do Campo Santana.
Afixado por Isabel às 09:05 | Afixadelas (8)
julho 31, 2005
Pronto!!!...
...
Dr – Não me parece que seja muito grave. Não precisa de recorrer já à metadona...vai precisar de fazer um regime…no máximo, dois posts por dia...meia hora à noite...nem mais um minuto!!!
Eu – Mas eu vim para casa e deixei toda a gente pendurada, Dr...
Dr - Mas foi mesmo só por causa do Blog???
Eu - Não, também estava cansada. Tinha sido uma semana de muitas emoções...
Dr - E as emoções tinham a ver com a Net?
Eu - Claro que não, Dr. Foram emoções ao vivo e a cores. Nada de virtuais. Daquelas que se apalpam, e assim...
Dr – E pensava no blog, nessas alturas?
Eu – No blog?...qual blog?
Dr – Tem outros vícios? Álcool, drogas, tabaco?
Eu – Sim. Mas nada disso, Dr. Outras coisas...tá a ver?
Dr - Não. Sintomas?
Eu - O coração a bater feito parvo, um nó no estômago, ando a cantar em casa e a dançar na rua...depois tem ressacas horríveis…
Dr - Tá em ressaca?
Eu – Não Dr,tou pedrada…
Dr - Para isso eu tenho uns comprimidos bons...dois de manhã...Minha Sra!!!Dois de...Minha Senhora, vai aonde? A receita...a sua receita…Minha senhora, então não se quer tratar????
Cá estou.
Afixado por Isabel às 17:31 | Afixadelas (6)
julho 29, 2005
Já venho
Já ao almoço tinha tido o primeiro aviso, quando, com uma voz desesperada e enfadada, alguém me dizia “Será que podes falar de outra coisa. Sei lá, do Governo ou da plantação de batatas, por exemplo???!!!”.
Depois, ao jantar, com amigos que já não via há anos a coisa agravou-se. Antes de mandar o táxi avançar rapidamente ainda tive tempo de ouvir um uníssono “Esta gaja tá doida”. Quando olhei pelo vidro, vi uns pares de olhares hesitantes entre se me haviam de dar uma carga de porrada, enviar-me para o Miguel Bombarda ou deixar-me nas Taipas. Cheguei a casa eram onze da noite. Por volta da meia noite o telefone toca e, do outro lado da linha, uma voz jocosa diz “Olha, querida, estamos nos copos. Está uma noite linda. O Afixe tá bom? “.
Vou estar uns dias fora, num local sem NET. A seguir, uns tempos com muito trabalho e num local em que o uso da NET não vai ser fácil. Muita gente está de férias e temos as listas para as Autarquias para entregar até ao meio de Agosto. De dia não pode ser. Terá que ser à noite.
Creio que esta é a altura ideal para não me arriscar à bata das risquinhas (ou é aos quadradinhos?). Para além do mais, estou um bocado cansada e esta também tem que ser a altura ideal para descansar. Se, portanto, não me virem tanto, por aqui, não se preocupem. Está tudo bem. Estou a tratar de fugir à bata. E a ver se descanso um bocado, depois das férias.
Inté.
Afixado por Isabel às 08:05 | Afixadelas (7)
julho 28, 2005
When the Belfast Child sings again

O IRA anunciou a renúncia à luta armada na Irlanda do Norte.
Para que a Paz seja duradoura, para que a Liberdade seja possível os próximos passos, não podem ser, só, dos Irlandeses. Para que as crianças de Belfast, voltem a cantar, oxalá Tony Blair entenda isso.
One day we'll return here,
When the Belfast Child sings again,
When the Belfast Child sings again
So come back Billy, won't you come on home?
Come back Mary, you've been away so long.
The streets are empty, and your mother's gone.
The girls are crying, it's been oh so long.
And your father's calling, come on home.
Won't you come on home, won't you come on home?
Extracto de "Belfast Child", poema irlandês, cantado pelos Simple Minds.
Afixado por Isabel às 18:34 | Afixadelas (1)
O post (para mim) necessário
Não sei lidar com estas situações. Reconheço e, para que não restem dúvidas, deixo-o aqui, publicamente, expresso. Sempre tomei opções difíceis na minha vida pessoal. Tenho posições claras em relação a muitas coisas. Luto incansavelmente pelo que considero justo. Entrego-me apaixonadamente a tudo em que acredito. Mas não sei lidar com estas situações.
Sei que era altura de ser clara. Mas, sem saber como, duma forma que não consigo controlar nem alterar, salto de mim, ponho-me na posição dos outros, de cada um dos outros e de todos os outros, procuro justificação e explicação, procuro desesperadamente entender (desculpabilizar?) o outro, os outros e não sai nada.
Consigo ser duríssima quando luto por causas, não consigo ser clara quando lido com pessoas. Pertenço, seguramente, àquela velha escola, em que tudo se tende a explicar. Não se mente porque se é mentiroso. Não se rouba porque se nasce ladrão. Vou lá longe, vasculho, procuro, interrogo-me e, a maioria das vezes, não consigo julgar.
Creio que seria capaz de enfrentar um touro para salvar um amigo. Fujo desesperada e incontrolavelmente duma lagartixa que se me atravessa no caminho.
Sou cobarde? Sou incoerente? Sou dúbia? Sou inconsequente? Ou procuro, desesperadamente, ser completamente justa e a justiça completa não existe? Ou teimo em sonhar com um mundo em que as pessoas não mentem, não são arrogantes, não deturpam, não são injustas, não fingem? Sou tudo isso, talvez. Serei, aqui, num blog, em que não nos conhecemos, não nos tocamos, não nos olhamos, em que, apenas, as palavras contam, o que vocês acharem que eu sou.
Nada do que transparecer destas palavras e da ausência de outras, muda o facto em si. Gostaria muito de já ter aprendido. Já tenho idade e vivências mais que suficientes para isso, mas não sei lidar com estas situações. Lamento. Não vos peço desculpa por esta incapacidade. Faço-o diariamente a mim própria. E nunca aceito as desculpas.
Vou sair. Beber um café, ver o Tejo, passar mais uma vez pelos sem abrigo do Martim Moniz, depois, almoçar com amigos. Ao fim da tarde, possivelmente, ter uma reunião para discutir possíveis respostas aos problemas dos trabalhadores portugueses. Enfim, vou olhar. Com estas situações eu sei lidar.
Afixado por Isabel às 09:25 | Afixadelas (13)
julho 27, 2005
O Corpo

Digo do corpo, o corpo: e do meu corpo,
digo no corpo os sítios e os lugares
de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso, em seus vagares
Lazeres do corpo: os ombros, as lisuras - o colo alto
a boca retomada
No fim das pernas a porta da ternura,
dentro dos lábios o fim da madrugada
Digo do corpo, o corpo: e do teu corpo,
as ancas breves ao gosto dos abraços,
os olhos fundos e as mãos ardentes
com que me prendes em súbitos cansaços
Vício de um corpo: o teu, com o seu veneno
que bebo e sugo até ao mais amargo,
ao mais cruel grau de esgotamento
e onde em segredo nado em cada espasmo
Digo do corpo, o corpo: o nosso corpo
Digo do corpo o gozo do que faço
digo do corpo o uso dos meus dias
e a alegria
do corpo sem disfarce
O corpo - Maria Teresa Horta
Afixado por Isabel às 13:34 | Afixadelas (5)
Trinta anos depois

Viriato Teles, lança, hoje, um livro intitulado: “Contas à vida”, que contém 20 entrevistas a 20 figuras públicas, que participaram, de algum modo, no processo que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.
Passam, agora, 30 anos sobre as datas mais marcantes do PREC. Seguramente que, hoje, dia 27 de Julho, há 30 anos, se passava alguma coisa. Uma manifestação de soldados, de trabalhadores da cintura industrial de Lisboa, um assalto a uma sede de um partido de esquerda, a ocupação de uma herdade, uma aula de alfabetização para adultos, ou, apenas, uma sessão de canto livre numa qualquer colectividade deste país.
Para uma miúda, como eu era, é essa a imagem que guardo. Todos os dias, duma forma ou de outra, sentia que estava a construir o mundo. Um mundo. Não entendia muitas coisas, mas ninguém se preocupa em não entender coisas com essa idade. O frenesim, a euforia, a festa tinham efeitos perfeitamente alucinantes e viciantes para uma jovenzinha, nascida numa família, tradicionalmente, de esquerda, numa pequena localidade, tradicionalmente, de esquerda, naquele ano de brasa.
Claro que 1975 foi, para mim, também, o ano da descoberta do sectarismo. Vivendo numa localidade onde o PCP tinha tido mais de 90% dos votos nas eleições para a Constituinte, uma “perigosa esquerdista” como eu, mesmo que, quase, ainda usando fralda, era então (ou já?) um perigo latente, a ser controlado e vigiado.
Não chegou para me estragar a festa, chegou para ter a certeza que muitas vezes, os nossos ídolos têm pés de barro e que as perseguições, afinal, não eram apanágio exclusivo, daqueles que, em festa e em euforia, tínhamos acabado de derrubar.
Numa pequena localidade como a minha, em que a “reacção” não tinha voz, em que os “fascistas” não tinham lugar, em que o PS, com tudo o que na altura o PS representava, não cabia, a imagem de estragar de festa que me fica é a do PCP, da sua intolerância, das ocupações sem rumo e sem princípios, da segregação, do ostracismo a que sujeitavam todos os que, deles, discordavam.
Acabei de receber, em minha casa, como acontece todos os meses, o Jornal da minha terra. Numa página central um comunicado, a meia página, da concelhia do PC, repete os argumentos, as difamações, a intolerância e, sobretudo, o autismo de há 30 anos. Sei a quem é dirigido. Apesar de lá não estar, diariamente, sei que me é, também, dirigido. E tenho pena. Muita pena. Afinal, eles não aprenderam nada.
E, afinal, com tempo e com a história, todos acabamos ou deveriamos acabar por aprender tanta coisa.
Ao longo destes anos, aprendi muito. Mudei muito. Faria tudo o que fiz? Acreditaria como acreditei? Continuo a lutar por sonhos e utopias e esses sonhos e utopias, nasceram, sobretudo, nesse dias quentes de 1975? Reconheço. Mas aprendi. Aprendi a tolerância. A aceitar os outros. O pragmatismo. A questionar-me. A duvidar de mim, em cada dia que passa.
Eles não aprenderam nada. Continuam eles. Iguais. Fechados.
Desculpem o desabafo. Sobretudo se o Viriato Teles ler o Afixe, ele que me desculpe, o ter usado o mote do lançamento do seu livro para o desabafo, mas se lessem aquele comunicado, iriam entender. Não o transcrevo. Ele deve ter sido feito por homens e mulheres que eu, muitas vezes, encontrei. Antes e depois, quando o calor passou e a “normalidade” se instalou. Mas tenho pena, muita pena, de não me apetecer nada, mesmo nada, voltar a encontrá-los. De cada vez que de uma forma ou outra me entram em casa, fico com menos vontade de, com eles, me cruzar. Possivelmente, amanhã passa. O próximo jornal leva um mês a chegar, cá a casa...
Afixado por Isabel às 10:45 | Afixadelas (11)
julho 26, 2005
Reflexões pós férias

Não gosto de nadar em mares calmos. Gosto da calma que a visão do mar me dá.
Gosto do mar, assim, indomável, forte, livre, de difícil acesso.
Gosto do mar, rodeado de verde, castanho, cinzento, para, aos meus olhos, nunca aparecer monótono e previsível. E de cor de rosa, quando uma florzinha teimosa, decide nascer, ali mesmo, à sua beira.
Às vezes, entre uma onda e outra, parece que o mar me vai fugir. Ilusão de óptica. O mar, continua lá, indomável e mágico, à espera que a florzinha nasça e pronto para me encantar.
Outras, com um mar assim, parece que nele, me quero perder. Mas não me perco. O mar foi feito para nele viver. Faço-lhe a vontade. E vivo-o. E, se algum dia, para ser mar e ser verdadeiro, tiver que dele me afastar, será este mar que hei-de continuar a procurar. Mágico, forte, livre, indomável. E terno, capaz de me afagar os pés doridos, com as suas ondas de cor de prata.
Afixado por Isabel às 20:49 | Afixadelas (9)
Dia dos avós

Esta manhã, ouvi na Rádio, que hoje é Dia dos Avós. Nunca fui muito dada a dias. Mas fiquei a pensar nos comentários adicionais. Dizia-se que, segundo um estudo, recentemente realizado, esta é a primeira geração que conheceu (conhece) os quatro avós. E, ainda, alguns bisavós.
Nunca sei muito bem qual é a geração, que é esta. A minha, a do meu filho? Ainda é a minha e já é a dele? Sei lá. Mas deu-me um bocadinho para o sentimento. E para a memória. Recordei que conheci uma bisavó a sério e outra emprestada. Que, com uma, aprendi a fazer crochet (mal, que sou péssima aluna em coisas de mãos...) e, com a outra, a fazer velhozes. Que gostei da mesma forma, e a mesma forma, é muito, das duas e que a uma, a verdadeira, chamava avóita (ou avó Ita, desvantagens de nunca se escrever o que, verdadeiramente se sente, na altura em que se sente…) e à outra, a emprestada, chamava, Filha. Porque costumávamos brincar às mães e às filhas e ela era, sempre, a filha.
Conheci uma avó a sério e outra emprestada. A outra avó, a a sério, foi-se embora muito cedo, era a minha mãe muito pequenina. Conheço-a da saudade da minha mãe. Que é uma forma muito completa e muito bonita, mas também muito triste de se conhecer alguém. A avó emprestada, foi sempre, uma avó a sério, tirando, claro está, na saudade da minha mãe. E conheci os dois avôs. Aprendi a fazer muitas coisas com as avós, conheci a França e a I Guerra com um dos avôs e aprendi a pintar paredes, com o outro. A sério, que é das poucas coisas que faço bem com as mãos, pintar paredes. Para aí na 10ª tentativa, o meu avô, reconheceu, embevecido que eu tinha deixado de fazer gatafunhos com o pincel.
Por um qualquer acaso do destino, a que se juntou uma opção de vida, o meu filho conhece menos avós que eu conheci. E conheceu, apenas, um bisavô e uma bisavó. Não me parece que ele sinta a falta. Quero sempre acreditar que só sentimos, verdadeiramente, a falta de alguma coisa se alguma vez a conhecemos ou tivemos. De qualquer forma, hoje é dia dos Avós todos. Dos que ele conheceu (conhece) e dos outros. E, acho, que ele sabe isso.
Afixado por Isabel às 11:36 | Afixadelas (11)
julho 25, 2005
A porta da sala - recado

Por favor ou partidas da vida, tinha vindo a adiar o momento. Não que não acreditasse. Nem sequer por medo. O passado não tinha sido fácil. Muitas vezes, a festa dera lugar à tristeza, a paixão ao desencanto, mas não era mulher de desistir. Apenas, pensava, não tinha calhado.
Claro que já sabia que não iria entrar da mesma forma. Não iria, dizia sempre para se convencer, esquecer. Das lágrimas, das palavras, dos gestos. Do frio. Do silêncio.
Também se lembrava, vagamente, que já tinha dito e pensado isto, outras vezes, e afinal...afinal, também não era de meias tintas, meias entregas, meias paixões. Meias vidas.
Voltar a fechar a porta para a sala, seria um momento especial. Mais especial, ainda, por ter sido, por tanto tempo, adiado.
No dia, em que se encontraram, sentiu que não tinha desistido. Não sabe quando nem onde percebeu que se encontraram. Sabe, apenas, que esperara. Agora, agradecia à Vida, ter-lhe permitido esperar. Não foi uma partida, mais uma, que esta lhe pregara. Desta vez teria que lhe agradecer o favor.
Sabe que vai fechar a porta da sala, por tanto tempo aberta. No momento de a fechar, sabe que não vai haver lágrimas nem frio. Nem silêncio. Apenas gestos. E palavras. E ternura. E prazer.
Há pouco, a falar com um amigo de sempre, daqueles dos momentos de festa e de tristeza, contou-lhe. Do outro lado da linha ouviu um cauteloso e assustado “Vê lá...não te magoes. Estás tão bem… Andas tão bem...”.
Quando desligou, pensou “E eu sou lá gaja de ter medo de me entalar em portas de sala??!”.
Pensou, ainda, que a espera valera a pena. Fechar a porta da sala é sempre uma espera que vale a pena. Quando, lá dentro, se guarda, por horas, por dias ou para sempre, alguém, como tu.
Ao pensar isto, esperou que ele a ouvisse. Olhou o relógio. E esperou.
Afixado por Isabel às 21:46 | Afixadelas (12)
Férias II

Na residencial onde ficámos, o dono, um alentejano pequenino, com tudo de alentejano, cor, pronúncia, ar, com boné e camisa aos quadradinhos, convidou-me para ficar lá a trabalhar com ele. Perguntei-lhe, a fazer o quê. O sr. disse que depois, lá, se havia de ver. Presumo que deixar o Bilhete de Identidade na recepção dê azo a estes convites.
O meu filho diz que isto é o resultado de passar a vida a rir-me.
Prometi ao alentejano da Residencial que voltava para o ano e que iria pensar no convite.
Esta manhã, antes de partirmos, esperava-nos com um pão fresquinho e um queijo.
Para o ano, vou tentar o Minho. Quando se anda sempre a rir no Alentejo deve andar-se sempre a rir em todo o lado e, quanto ao Bilhete de Identidade, está ali para as curvas.
Afixado por Isabel às 14:44 | Afixadelas (5)
Férias I

Nas férias, como na Vida, nunca achei que quantidade fosse sinónimo de qualidade.
Não foram só quatro dias, foram 4 dias. Inteiros. Para mim e para o João Pedro. Para apanhar Sol, comer pão alentejano, muito pão (ok, aqui, a qualidade ganha muito com a quantidade...), nadar, atravessar o rio Mira, de barco e andar de bicicleta. E ainda sobrou tempo para ir à Zambujeira.
Ontem à tarde, decidimos aproveitar a oportunidade e lá fomos. Não está na mesma. Não sei se está mais bonita, não creio que esteja. Continua lá a minha casa com esquina para o mar, o café onde tomava o pequeno-almoço. E o banco onde me costumava sentar. Nas esquinas, não encontrei fantasmas. Nunca me assolaram dúvidas. Não creio, sequer, que o que tenha sentido, fosse nostalgia. Senti uma vontade enorme de viver, uma alegria enorme por estar viva e confirmei que, amanhã, quero estar em Lisboa.
Não precisei de ir à Zambujeira para ter a certeza que tinha que regressar hoje, mas tenho a certeza que se não tivesse lá estado há vinte anos, amanhã não estaria cá, assim. E gosto, mesmo a sério, gosto muito, de, amanhã, estar cá, assim.
Afixado por Isabel às 14:36 | Afixadelas (5)
julho 20, 2005
Férias

Amanhã vou, finalmente, sair uns dias de Lisboa. Poucos, apenas o suficiente para apanhar um pouco de Sol, ver o Mar (o outro), saborear o Pôr de Sol do Alentejo, brincar com o João Pedro, comer pão alentejano, tomar uns bons banhos e descansar. Ainda pensei em deixar uns posts, com data futura. Um poema, uma foto, uma ideia. Mas não dá gozo. O gozo que me dá o Afixe, são os vossos comentários. Ler-vos, poder imaginar que vos tenho aqui, pertinho, discordar de vocês, muitas vezes, mas ter sempre prazer na vossa visita. Que gozo dá deixar-vos a porta aberta se não estiver lá (cá) para vos receber?
A Émièle costuma dizer que eu sou transparente. É verdade, não sou capaz de estar triste ou desencantada sem que todos notem. Nem de estar feliz sem que todos saibam. Não se é feliz, dizias tu, amiga, na semana passada, está-se feliz, algumas vezes. Estou feliz. Vou de férias numa altura em que estou feliz. Lembro as vezes em que tal não aconteceu, ao longo dos anos (tantos anos...) e fico, ainda, com mais vontade de o dizer, aqui. Bem alto. Para vocês ouvirem. E para eu aproveitar. Nunca se sabe quanto tempo dura. Não importa o tempo. Enquanto durar, quero aproveitar.
De amanhã de manhã até à próxima Terça feira, não estou aqui. De amanhã de manhã até à próxima Terça Feira, continuo aqui.
Um abraço.
Voltei cá...qual "Um abraço", qual carapuça. Que coisa formal e fria (apesar do bem que sabem,ao vivo e a cores...), milhares de beijinhos.
Afixado por Isabel às 19:00 | Afixadelas (17)
julho 19, 2005
Já chegámos à Madeira?
Já anteriormente, aquando duma entrevista ao Expresso do Comandante da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, eu e a Émiéle tinhamos deixado dois posts, sobre o arrastão que, afinal, não foi arrastão.
Hoje, num relatório entregue na Assembleia da República, a PSP nega a existência de qualquer arrastão, no passado dia 10 de Junho, na Praia de Carcavelos.
Agora que, oficialmente e não porque alguém foi "enganado por uma jornalista ao serviço de interesses partidários", a Assembleia da República, tem em sua posse o relatório que desmente o que inicialmente foi divulgado pela Polícia e pela quase totalidade da Comunicação social, quem vai pedir responsabilidades? Quem vai ser responsabilizado? Quando e como?
Inventar uma história, divulgá-la, alimentá-la e com ela alimentar o ódio e a desconfiança, vai merecer o quê da Assembleia e do Governo? Dos tribunais ? Ou do Presidente da República?
Ou será que ninguém vai pedir contas a ninguém, confirmando que, afinal, a Madeira fica mesmo ali ao lado...??
Afixado por Isabel às 21:10 | Afixadelas (8)
A post from an ex-londoner
Tenho andado a pôr em dia a leitura atrasada de alguns blogs. Da nossa madge, por exemplo. E acho que esta posta merece bem ser destacada e lida por quem ainda o não tiver feito.
Afixado por Gibel às 17:35
Pretextos...

Todos os pretextos são bons para ir ao Coliseu ouvir Maria Bethania. Estar de férias é um pretexto. Bom. Por isso decidi sair de casa, já a seguir, e ir a correr à procura de bilhete para hoje ou para amanhã.
Todos os pretextos são bons para recordar Vinicius de Moraes. Bethania está a cantar Vinicius, no Coliseu.
Para publicar um poema de amor não é preciso pretexto. Basta viver. Aqui fica, de Vinicius de Moraes, com a esperança que não seja demasiado tarde para encontrar bilhete e a certeza que nunca é demasiado tarde para cantar o Amor, Soneto do Amor Total.
Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Afixado por Isabel às 10:31 | Afixadelas (7)
julho 18, 2005
Contra o medo...

Ao fazer a ronda diária pelos Blogs que guardo aqui em cima, na pasta dos favoritos, encontrei um post no Troll Urbano e outro no Bicho-Carpinteiro sobre o mesmo tema: O medo.
No dia dos atentados de Londres, deixei, aqui, um poema do Alexandre O’Neill sobre o tema.
O medo, tornou-se um tema recorrente, nesta época de perguntss sem resposta.
Três dias depois do 11 de Setembro, tinha viagem marcada para Bruxelas.
No aeroporto, lembro-me de procurar em cada rosto, de entre os que estavam na minha fila de check in, um rosto que me parecesse suspeito. Era uma busca irracional e incontrolável. Quem me parecia suspeito? O que me parecia suspeito? A tez, os gestos, a bagagem?
Já no avião que me haveria de levar a Bruxelas, sentada ao lado dum inglês, para aí no meio da viagem, vejo um homem levantar-se, dois bancos à frente. Levava uma pequena mala de mão e dirigia-se, pareceu-me, para a casa de banho. Era um homem. Nada de particular nem de estranho. Um homem com uma pequenina pasta na mão.
Creio que estremeci. O Sr. inglês, ao meu lado, olhou-me e disse “É inevitável, não podemos deixar que aconteça, mas é inevitável...”.
Uns minutos depois, quando o homem da mala voltou, o meu parceiro de viagem, disse-me que já podia voltar a dormir...falámos o resto da viagem. Na irracionalidade de ter medo por ver alguém levantar-se para ir à Casa de Banho.
Porque não podemos alinhar nos que usam o medo como cercear de liberdades e de vidas, temos que o ultrapassar. Basta-nos os medos a que não podemos fugir – o da morte. O da perda. O da dor. Não podemos dar a quem impõe o medo como arma, o prazer de cantar vitória. Mesmo que nos entrem pela casa adentro imagens de jovens iguais a todos os jovens que entram numa estação de metro igual a todas as estações de metro. Ou mesmo que nos entrem pela casa adentro imagens de sangue e de morte em qualquer Iraque deste mundo, sob o pretexto que se tenta combater o medo, não nos podemos deixar transformar em “ratos”. Sob pena de deixarmos de viver. Ou de, apenas, sobrevivermos em tocas fechadas sem luz, sem risos e sem gente.
Afixado por Isabel às 12:29 | Afixadelas (6)
A lição de Lance

Tenho acompanhado, durante este fim-de-semana, as etapas da volta à França. O meu filho não perde uma, desde que começou, e acabou por me contagiar. Não conheço ciclistas, não sou uma grande fã de ciclismo. Mas Lance Armstrong, não é um ciclista. É o ciclista. A força, a entrega, o olhar concentrado mas sempre luminoso com que encara a estrada, é uma lição de vida. Para alguém que sobreviveu a um cancro, que se prepara para vencer o seu 7º Tour consecutivo, os grandes planos que a televisão nos proporciona, não mostram um homem ambicioso ou cansado. Mostram um Homem. Que fez da vitória sobre a doença e sobre a morte, um motivo para viver intensamente. Sente-se, vê-se essa intensidade nas formas marcadas do seu rosto, no seu pedalar, no sorriso matreiro, quase infantil, com que ultrapassa os seus adversários e se aproxima de mais uma meta. Este ano, quando terminar, o Tour nunca mais vai voltar a ser o mesmo. Não é todos os dias, que o desporto nos dá um Lance Armstrong. Nem todos os dias que a vida nos possibilita assistir a tamanha lição. Ontem o meu filho dizia-me “ aquele homem não existe”. Tentei convencê-lo que estava enganado. Não existem muitos, assim, mas existem.
Afixado por Isabel às 08:00 | Afixadelas (12)
julho 17, 2005
Os meus livros

Como se de um feitiço se tratasse, volto sempre a Marguerite Duras e a Hiroshima Meu Amor.
Como se, em 125 páginas de livro, estivesse tudo o que, ao longo do tempo, tivesse, eu própria, para dizer.
Hoje, escolhi a página 28, em que, pela primeira vez, a actriz francesa, que roda um filme sobre Hiroshima, se encontra com o arquitecto japonês, que acabara de encontrar, num quarto escuro dum hotel da cidade. Aqui, na página 28, acabavam de se descobrir. Ainda era, então, demasiado cedo, para a partida, a que nenhum iria poder faltar. Aqui, como em todo o livro, nenhum deles terá nunca nome. Aqui, como em todo o livro, nunca lhe sentiremos a falta.
Alturas houve, em que as palavras escolhidas foram outras. Alturas haverá, em que as palavras escolhidas, serão outras.
Então, como agora e amanhã, a elas voltarei. Como se de um feitiço se tratasse. Ou de vida. Do feitiço da vida. Em que, às vezes, não nos enganamos.
Ela – Encontro-te.
Lembro-me de ti.
Quem és tu?
Matas-me.
Fazes-me bem.
Como havia eu de imaginar que esta cidade era feita á medida do amor?
Como havia eu de imaginar que tu eras feito à medida do meu próprio corpo?
Agradas-me. Que acontecimento. Agradas-me.
Que súbita lentidão.
Que doçura.
Não fazes ideia.
Matas-me.
Fazes-me bem.
Tenho tempo.
Peço-te.
Devora-me.
Deforma-me até á fealdade.
Porque não tu?
Porque não tu, nesta cidade e nesta noite, igual às outras ao ponto de nos enganarmos?
Peço-te…
Marguerite Duras, Hiroshima meu amor
Afixado por Isabel às 18:24 | Afixadelas (2)
Radical e oportuno

Ontem à tarde, ao abrir o meu Email, reparei na luzinha vermelha que indica que está na hora de tomar medidas. Tinha a caixa de correio cheia. Sou, no Email, como sempre fui com os papéis. Vai sempre uma distância de tempo até que consiga clicar no Apager. Como dantes, até conseguir rasgar o que ia escrevendo ou que me iam escrevendo.
No Email havia uma pasta para os “intocáveis”. A pasta ocupava espaço e os intocáveis há muito tempo que o deixaram de ser. Mas, cada dia, teimava em encontrar um ou outro mail para apagar e a caixa lá continuava. Cada vez que a via, sentia o seu olhar de vitória. Como se me dissesse. “Queres convencer, quem?”.
Ontem à tarde, no intervalo entre o almoço e uma reunião, com a luzinha a dizer-me está na hora e a vida a dizer-me há que tempos que está na hora, apaguei, finalmente, a Pasta. O sistema ainda me perguntou se eu tinha a certeza. Olhei para ele, com ar, ligeiramente, superior e enfadado. Claro que tinha a certeza.
Esta manhã, ao regressar do pão, recebi uma mensagem dum amigo a desejar-me um bom dia.
Tal como o Email, da véspera, a TMN decidiu avisar-me que tinha a Caixa de Correio cheia. Aqui, como lá, há mensagens que vão ficando, que não sou capaz de apagar.
Como a TMN era clara, não receberia mais MSNs se não encontrasse espaço, procurei qual seria a vítima e cliquei no apagar.
De repente, sem me perguntar nada e sem saber como, não apaguei uma, nem duas, apaguei todas as mensagens, excepto a que acabara de receber.
Por momentos fiquei um pouquinho triste. Havia lá algumas intocáveis, pensei.
Havia? Havia as dos últimos dias. Queria guardá-las. A TMN tinha que me ter perguntado se eram, mesmo, todas…
Mas, agora, já percebi. O presente não é para se guardar em caixas de memória. É para se viver. Quanto ao passado o trabalho foi eficiente e só tenho que lhes agradecer. Estou a pensar escrever-lhes uma carta. Ou será melhor ver, primeiro, se me enviam a conta deste trabalho suplementar e extremamente oportuno? Vou esperar...
Entretanto estou a ter um bom dia. Tal como a mensagem que ficou, desejava. Obrigado.
Afixado por Isabel às 15:13 | Afixadelas (9)
À porta

Esta noite ao sair de casa, encontrei o mar. Não fiquei assustada. Ninguém se assusta quando encontra o mar. Mas fiquei na dúvida se o mar sempre ali esteve ou, apenas, ali estava, hoje, porque sabia que eu o queria encontrar... Das milhares de vezes, que saí a minha porta nunca tinha dado por ele, mas, desde pequenina, que tenho fama de distraída...
Não pensei mais nisso. Usufrui o mar.
Agora a voltar para casa, já não me preocupa muito se o mar sempre ali esteve, quando lá vai voltar a estar ou se lá vai voltar a estar.
Gostaria muito que o mar voltasse mas, para já, foi muito bom ter saído de casa, aberto a porta e encontrado o mar. E, cada vez que decer as escadas, sei que vou parar um pouco e o coração vai bater mais forte. Quem sabe, se lá está o mar???
Afixado por Isabel às 04:25 | Afixadelas (9)
julho 16, 2005
O Alentejo pode esperar...

Finalmente, férias. Ter que estar em Lisboa na próxima Quarta Feira estragou-me os planos de partir, hoje, rumo ao Sul. Ao Alentejo, que o meu Sul, fica, sempre, no Alentejo.
Ontem, à noite, saí para beber um copo. Ao subir estas ruas, dei comigo a pensar que, afinal, é muito agradável ter que estar em Lisboa na Quarta Feira, que o Alentejo pode esperar e que aquele local é mágico.
No caminho e, já, em casa tive a certeza, que os meus pensamentos estavam certíssimos, nada tinham a ver com os Cutty Sark nem com as pedras de gelo e que me apetecia voltar ao Bairro Alto. E me apetecia, muito, voltar para casa, pela rua da Escola Politécnica.
Tive pena de não poder ver o amanhecer em Lisboa, talvez junto ao Tejo, mas fiz-me, logo ali, a promessa solene, que o amanhecer não espera pela demora. Para além de gostar muito de Lisboa, de amanheceres e do Tejo, gosto de ir ao Bairro Alto e de voltar pela Rua da Escola Politécnica (já tinha dito isto no inicio do post, mas há coisas que me dão um prazer especial repetir. É o caso.).
Afixado por Isabel às 11:45 | Afixadelas (9)
julho 15, 2005
Santos, Lisboa, Barraca, Ruinas...
Cheguei a casa a correr. Como sempre, aquela cambada de imperialistas e exploradores monstruosos, fazem com que as 17.30h sejam uma ficção maior que o menino da bola de râguebi.
Mal tive tempo de beber água, comer nem pensar que a emoção também tira a fome a qualquer pessoa mais ou menos normal, pegar no JP, salvo seja, que nem numa perna eu conseguia e descer a Calçada a correr.
Cheguei lá afogueadíssima. Como não vi, logo, ninguém conhecido, pensei que o melhor era pegar numa imperial, que o calor era muito, mas achei que não parecia bem. E numa vernissage temos que nos portar mais ou menos bem. Não sabia se lá estava a Caras e a Lux, mas o meu prezado, estimado e adorado colega de aqui e ali (parece que é de mais locais, mas o médico recomendou-me que não abusasse dos links) já tinha avisado que ia fazer reportagem em directo e uma pessoa nunca sabe se reportagem é reportagem ou é só reportagem. Não se perecebe muito bem a diferença, mas, no maravilhoso mundo da blogosfera, há.
Conheci uma quantidade de gente. Isto é, dei cara a uma porrada de gente. Ou melhor (a minha especialidade não é, mesmo, a crónica social) uma porrada de gente teve cara. E pernas. E braços. Cabelos e outros apêndices. Gostei. Mas gostei sobretudo quando, de repente, me apercebi que também tinham voz e olhares. Esta parte, confesso, que me encantou. Não vos imaginava os olhares, pronto. Ninguém é perfeito.
Agora que já vos conheci, podem guardar as pernas, o cabelo e os braços. Os olhares já não vos devolvo. E pensando bem, fico também com as mãos. E o sorriso. E, porque não, a voz?
Guardo, aqui, tudo bem guardadinho, mas vocês podem usar sempre que precisarem. Têm é que me prometer que devolvem.
Possivelmente, agora, entrava na parte em que contava a quem não pôde estar presente o que se passou. Mas não me apetece.
Ainda estou aqui, entretidérrima, a olhar p'ra vocês. Talvez mais logo.
Cinco notas especiais, ao lado da reportagem:
Susana, obrigado por lhes teres dado nomes.
I, obrigado pelas tuas palavras. Confesso que fiquei um pouco gaga. Mas reconheço que a gaguez é um estado de alma com muita piada.
João Pedro da Costa, tens um bocadinho de perna, logo em cima do tornozelo esquerdo, muito sexy.
Ainda nem tinha começado a beber imperiais e já me tinha lembrado que o Alentejo é muito bonito.
O meu acompanhante, ao fim, já a caminho do jantar, questionado sobre o que tinha acabado de assistir, disse que foi curtido. Faço minhas as suas palavras: foi curtido. Mais curtido do que a coisa, em si, só, mesmo, vocês.
A gente vê-se.
Ah, é verdade, agora vou ver o livro, "camarada".
Afixado por Isabel às 00:07 | Afixadelas (12)
julho 14, 2005
O sentido da vida ...
...ou a minha versão da Djalaba ideal!

(Zorro, a M avisou-te...)
(Monty, nem penses que vais começar a fazer posts...)
Afixado por Isabel às 11:58 | Afixadelas (27)
...que amava toda a quadrilha.

Extracto de poema de Carlos Drumond de Andrade, cantado por Chico Buarque da Holanda, e que define, às mil maravilhas, o actual estádio da vida afectiva do meu parceiro de casa e de vida.
E o pior é que nem lhe posso dar conselhos...quando muito, às vezes, damos connosco a partilhar experiências. Há quem diga que é do Signo...
Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
Afixado por Isabel às 09:01 | Afixadelas (13)
julho 13, 2005
Passatempo

Ligeiramente de pés para o ar e completamente de olhos de carneiro mal morto, imagem de um dos nossos Aphixadores, tentando descobrir se isto são Burkhas. E se são, onde está o véu. E para que é que a menina quer a espada. E a tentar dizer para terem cuidado com os joelhos.
Oferece-se uma Burkha com recheio a quem descobrir a identidade.
Caso prefira, o vencedor ou vencedora, poderá trocar a Burkha com recheio por uma Djalaba com recheio. Favor enviar as suas respostas para Afixe, até às 24.00h de hoje.
A Direcção
Afixado por Isabel às 21:35 | Afixadelas (9)
9 de Outubro de 2005
Há quatro anos, nas últimas Autárquicas convivi mal com a derrota da Esquerda, em Lisboa. Não tinha acompanhado o processo da formação de listas e sempre me questionei qual poderá ter sido a contribuição negativa da candidatura de Miguel Portas para a vitória da Direita, na capital. Apesar do programa de João Soares e, sobretudo, dos últimos anos de gestão de João Soares e da Coligação PS/CDU não serem o meu programa e a minha gestão, a vitória de Santana Lopes e tudo o que se lhe seguiu, ficou-me, sempre, “atravessada na garganta”.
Hoje, e tendo acompanhado de perto a apresentação de candidaturas em Lisboa, sei de quem é e de quem não é a responsabilidade da divisão da Esquerda. E como militante do Bloco de Esquerda estou de consciência tranquila.
A responsabilidade da prevísivel derrota da Esquerda tem resposáveis e eles não são nem o Bloco nem Sá Fernandes.
Nem sequer Carmona Rodrigues, mas essa é outra história.

Não conheço o processo no Porto. Vejo, no entanto, com preocupação o resultado das sondagens, ontem, divulgadas. Oito meses após a maioria absoluta, o PS arrisca-se a perder (ou não recuperar) as principais Câmaras do País.
Com responsabilidades
