agosto 26, 2005

A MINHA CONVERSÃO (2)

Sim, irmãos; sei que estou em falta. Depois dos primeiros anúncios, tinha ficado de vos revelar ontem os surpreendentes e maravilhosos detalhes da minha súbita conversão. Mas os afazeres aqui no mosteiro ocupam-me a alma e ajoujam-me o alquebrado corpo. Sim; apesar de ter escalado uma série de degraus espirituais de uma só vez, ainda continuo meramente humano (um problema técnico que em breve, com a ajuda do irmão Bernardo, por certo ultrapassarei).
Vou agora desvendar os passos gloriosos que conduziram à minha conversão; esperando que iluminem também as vossas tristes existências, caros leitores.
Como vimos no último episódio, andava eu em busca de uma teoria cosmogónica completa, ontologicamente correcta e metafisicamente inatacável. Estudei com atenção reverente os textos sagrados do Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível; avancei até aos arcanos iniciáticos da Igreja de Bob, passando, claro está, pelo límpido pensamento de René Guénon. Mas algo continuava a faltar; a minha alma não se satisfazia com tão pouco, a centelha do Senhor não brilhava com plenitude em tais recantos.
E eis senão quando dou de caras com a Igreja Unida do Monstro Voador de Espaguete; os Pastafarianos.
O seu Profeta, Bobby Henderson, sentiu a Inspiração para criar esta abençoada Igreja quando soube que o Kansas School Board aprovara o ensino do Criacionismo nas aulas de Ciência (sob a designação hip de "Intelligent Design"), para alegria do Grande Apóstata, George Bush. Aí viu logo o rumo a seguir: escrever a este organismo exigindo que todas as teorias capazes de explicar a Evolução sem recorrer a qualquer prova física ou raciocínio apurado tivessem igual acolhimento oficial. Começando pela sua, que postula que o Universo (e Todas as Coisas Que o Habitam) foi criado por um enorme Monstro Voador composto por Espaguete e Almôndegas.
Os argumentos em favor desta cosmovisão eram esmagadores. Admirável, por exemplo, a forma como o empirismo da ciência é demolido sem apelo: "He built the world to make us think the earth is older than it really is. For example, a scientist may perform a carbon-dating process on an artifact. (...) But what our scientist does not realize is that every time he makes a measurement, the Flying Spaghetti Monster is there changing the results with His Noodly Appendage. We have numerous texts that describe in detail how this can be possible and the reasons why He does this." A arte sacra que esta Fé já inspirou tem todas as marcas do Autêntico, como este maravilhoso desenho, que nos mostra a Santa Massa a criar um monte, algumas árvores de bom porte e um anão.
Ainda por cima, o Céu desta Igreja deixa a um canto as alucinações da concorrência, mesmo aquelas que incluem 40 ou 50 virgens para cada recém-chegado. Atenção à Boa-Nova: o Paraíso, afinal, oferece-nos um Vulcão de Cerveja e uma Fábrica de Strippers!


Não se riam, incréus malditos; olhem que, bem vistas as coisas, a minha religião não é assim muito mais ridícula que a vossa. Prova disto, caso ainda fosse necessária, está no desafio que foi lançado por estes homens de Fé: ele pagam 250.000 dólares ao primeiro que provar que Jesus Cristo não é filho do Monstro Voador de Espaguete (isto em resposta a um conhecido desafio que recompensa quem conseguir provar que a Teoria da Evolução é verdadeira).
E mesmo os campeões do materialismo, os odiados cientistas, já se renderam à Suprema Lógica do Pastafarianismo. Por exemplo, Stephen D. Unwin, cientista e autor, expressou o seu entusiasmo num mail enviado ao nosso Profeta: "se o sobrenatural for necessário, a família teológica das massas parece ser a mais plausível, e sem dúvida a mais saborosa com queijo". E que dizer das fotografias astronómicas em que a Sua Silhueta é claramente visível? Esclarecedor. Definitivo.

Tenho de sair, que o sino do mosteiro está a tocar para o lanche de massa putanesca. Bem; julgo que já vos deixo com alimento espiritual para digerir durante todo o fim-de-semana. Depois, podem falar comigo para tratar da vossa inscrição na Igreja Unida do Monstro Voador de Espaguete, assim como da petição a favor do meu iminente ascenso a Cardeal Supremo.
Até lá, que a Massa esteja convosco.

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agosto 24, 2005

A MINHA CONVERSÃO (1)

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Como já vos confessei ontem, há muito que a minha alma errava por este mundo afora, sequiosa de sabedoria, faminta de elevação espiritual. Graças à sabedoria de ilustres criacionistas, descobri que a Ciência é um beco sem saída fechado no empirismo mais soturno. Não é, de todo, a porta para a iluminação que eu imaginava. E agora?
Assim começou a minha Demanda Espiritual. A minha busca para lá dos limites da ciência moderna, em busca de Metafísica, Hermenêutica, Arquétipos e outras coisas importantes com montes de sílabas. Mas, no meio de tanta e tão variada oferta, como reconhecer a Verdade, como distinguir o Rosto luminoso do Único Deus? Estabeleci a priori meia dúzia de exigências básicas:

1- A Religião eleita tem de responder cabalmente à minha necessidade de encontrar uma Origem para Todas as Coisas, desmentindo a maldita teoria da evolução
2- tem de encerrar uma cosmologia coerente, o que já se sabe que é meio caminho andado para ser verdadeira
3- tem de explicar de forma agradável a balbúrdia que a árvore genealógica da bicharada aparenta ser
4- apesar de se tratar de acontecimentos sem testemunhas, deve apresentar-me uma narração escrita das Primeiras Coisas. De preferência em volumes encadernados a couro satisfatoriamente épicos, misteriosos e espirituais
5- vou passar muito tempo no Além. Assim sendo, convém que a religião a escolher descreva adequadamente tais paragens e que estas sejam bem aprazíveis
6- era porreiro aderir a uma Igreja jovem. Em organizações vetustas como o Catolicismo, os bons lugares (de apóstolos e santos principais) já estão todos tapados e a lista de espera para novas vagas é enorme.

Bem. Estão a chamar-me para as orações diárias. Amanhã, voltarei. E partilharei então convosco a teofania que mudou a minha vida. Atenção: Ele vai mudar também as vossas vidas!

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agosto 23, 2005

ALELUIA, IRMÃOS! EU VI A LUZ!

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Aproveitando estes dias estivais em que a canícula desencoraja o trabalho, segui os santos conselhos do irmão Bernardo. E em abençoada hora o fiz. Abri o meu espírito ao Transcendente. Olhei para lá do empirismo que limita a Ciência a que prestava vassalagem ilimitada.
E vi. Vi e soube que se uma verdade religiosa entra em contradição com uma verdade científica, a primeira, por via da sua imanente proximidade do Divino, tem de estar certa. Em potência, o meu espírito, até aqui supostamente ateu, já era o de um fervoroso crente. Como bem tinha notado a minha namorada já há uns anos, eu era apenas um peregrino desorientado, ainda em busca do altar certo. Eu não conseguia discernir a Verdade, quando ela andava mesmo debaixo do meu nariz empinado, sempre tão orgulhoso da sua suposta sabedoria.
Agora, eis que chega o momento da teofania, do desdobramento das potencialidades que a minha alma encerra. Abracei a metafísica, reneguei a minha visão redutora do Universo, não mais me quedarei por uma weltanschauung simplória e puramente materialista. Não; a minha cosmovisão agora é outra. Mais luminosa. Mais pura. Também isto faz parte dos arquétipos que o intelecto divino concebeu, dando forma à substância, na proporção e na medida de cada criatura. Aleluia!

Em suma: descobri o Senhor. E, a partir deste dia de Glória, cientista algum me poderá convencer de que a Sua obra não é coetânea com o próprio tempo e o próprio espaço. Em breve, irmãos e irmãs, em breve vos darei mais novas desta mudança maravilhosa.

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agosto 22, 2005

SE ELE O DIZ…

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O papa Bento XVI veio queixar-se publicamente do pouco empenho que a sua Entidade Patronal anda a dedicar ao bem-estar cá da malta.
"Em numerosas partes do mundo existe hoje um estranho esquecimento de Deus", afirmou ele. Essas "partes" devem incluir o sudoeste asiático, ainda a penar os efeitos do tsunami, África, ainda e sempre condenada à fome, e mesmo Portugal, onde tudo arde e nada de jeito cresce.
É um bocadito feio pôr a boca no trombone e chamar assim "esquecido" ao patrão; mas louva-se o desassombro, de qualquer forma.

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agosto 17, 2005

UM POUCO DE DECORO, SENHORAS!

O gineceu aqui da casa tomou o freio nos dentes. Vai daí, temos o Afixe inundado por fotografias de moças e moços seminus, num assomo de lubricidade que não fica nada bem a uma casa com os pergaminhos intelectuais deste blogue. Mas ainda podemos resgatar o Afixe de um vergonhoso destino como lupanar cibernético condenado a servir os instintos mais baixos do mulherio.
Sim; ainda vamos a tempo de encher esta página com posts plenos de conteúdo cultural, vibrantes de elevação artística. Embuído deste espírito quase missionário, deixo-vos aqui uma lembrança dessa grande cantora e autora, a senhora Carla Bruni. Escusam de agradecer. Eu sou mesmo assim: um mãos-largas, apenas e sempre preocupado com o vosso bem-estar.

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ALGUNS PROBLEMAS DO CRIACIONISMO

Bernardo,
Eu não tenho nada a ver com a variedade de superstição que cada um escolhe para aligeirar a sua vida. Whatever floats your boat, como dizem os camones. Por mim, até podias acreditar na Grande Abóbora, que tal nem uma sobrancelha me faria erguer.
Agora se me quiseres convencer que as estrelas são, na realidade, pevides gigantescas no interior desse divino vegetal, aí já me tens à perna. É mais ou menos o que se passa com esta história do criacionismo.
E não colhe, por muito que te custe, o argumento segundo o qual "o criacionismo é uma tese que não pode ser tratada pelas ferramentas da ciência moderna", pois lida com questões "supra-empíricas". Isto é um erro. Melhor: uma tremenda confusão, logo denunciada quando falas de uma "tese cosmológica", coisa que o criacionismo não é.
Confundes, mui singelamente, religião com ciência. Isto porque o criacionismo é uma tentativa de explicar parcelas do nosso mundo material que aceita a intervenção de uma quantidade metafísica no mesmo; não é em si um sistema metafísico. E, ao proceder a uma explicação de aspectos observáveis e mensuráveis deste Universo, tem que se poder confrontar com o corpo de conhecimento que já acumulámos sobre o mesmo. Se se recusa a tal, admite claramente o seu estatuto de charlatanice inverificável. Ou pensarás tu que ramos do saber como a Teoria das Cordas também podem fugir às exigências do rigor científico, só porque se mantêm teimosamente longe das evidências empíricas?
Por outro lado, olha que a tua versão "b)" dos criacionistas, pura e simplesmente, não existe. Um criacionista, por definição, nega a Evolução. Se te sentes próximo das ideias – muito bem estruturadas e ainda fascinantes – de um Teilhard de Chardin, por favor não insultes o homem ao metê-lo no mesmo saco da pandilha insalubre que anda por aí aos berros a proclamar a falsidade da teoria da evolução, inventando provas, falsificando curricula, distorcendo provas, etc. A Noosfera de Chardin, assim como os propósitos que ele detectava na Criação, não são, de todo, facetas ou variantes do Criacionismo. Este, como aliás o seu nome determina, obriga à crença na intervenção directa de Deus na configuração actual da bicharada que por aí anda.
Aliás, não consigo entender por que é que alguns cristãos se encarniçam tanto na procura de uma constante acção do Criador neste mundo. Não será mais admirável um Universo que contém em si, desde o início, os planos, as linhas que fazem germinar e evoluir a Vida, a Consciência? Que raio de conforto é que se pode retirar de um Deus que tem de passar milhões de anos a dar retoques constantes na sua obra, empurrando-a para aqui e para ali? De onde terá surgido a ideia de que a Evolução e a selecção natural excluem a existência de Deus e o seu papel na criação original? Pelo menos, folgo em ver que não segues esta linha de "pensamento"…

Dizes também que te parece "razoável definir o evolucionismo" como estando apoiado em dois sustentáculos essenciais: as mutações e a selecção natural. Ora tal já não é só assim há muitos anos: conceitos como a transferência horizontal de genes e a Neutral Drift tornaram o assunto bem mais complexo. A tua definição não é "razoável": é lacunar, ultrapassada e redutora. As afirmações peremptórias acerca da raridade das mutações ou do número de "milagres" necessário para "criar" o Homem valem o que vale a maioria dos palpites: muito pouco.
Repara: eu também me poderia afirmar "altamente crítico" da Teoria Geral da Relatividade; sei que ela tem bastantes zonas de sombra e que muitos cientistas reputados estão, neste momento, a desafiá-la abertamente. Mas nada disto dá qualquer peso ou importância às minhas "críticas": eu sou um leigo, não compreendo a matemática envolvida e as minhas desconfianças são todas em segunda mão. Mas a leitura de alguns artigos na Science et Vie ou na Nature não fazem de mim um físico nem dão qualquer relevância às minhas opiniões sobre temas tão complexos. Um pouco de modéstia não fica mal a ninguém, julgo eu.
E, por amor das alminhas, não te coloques na posição de vítima, patente em tiradas do jaez de "como eu gostaria de ver nestes tempos as mentes mais brilhantes debaterem estes temas sem entrarem na infantilização do adversário e sem entrarem em jogadas políticas de ataque à religião", "esperemos que os neo-darwinistas possam encontrar a calma e a lucidez para poderem efectuar verdadeiro trabalho científico, ao invés de promoverem agendas anti-religiosas" e "hoje em dia, só vejo agendas anti-religiosas... A religião é o alvo a abater, e o truque é infantilizar o crente". Olha que é precisamente ao contrário: os criacionistas é que se lançaram numa cruzada para impor, mormente nas escolas, a presença estridente das suas congeminações. Eles fazem isto em manobras políticas sem qualquer escrúpulo de respeito pela verdade, pelas opiniões alheias ou pelos séculos de evidências que a Biologia já acumulou (à laia de confirmação disto, repara bem no bonito boneco que ilustra este post...).
E a tua cruzada pessoal contra o tal "empirismo" também tem muito que se lhe diga. Que significa "os cinco sentidos são uma boa ajuda para a compreensão do que nos rodeia. Mas também temos um intelecto. É o que nos distingue de outros animais também providos de sentidos"? Acharás porventura que os cientistas se recusam a usar o intelecto? Pensarás que algo como a Teoria da Evolução é pensada exclusivamente em laboratórios? Que não requer criatividade, imaginação, rasgos de génio? Estranha ideia de Ciência a tua… Onde caberão nela temas como a Cosmologia, a Física Quântica e muito outros domínios do saber que nada têm em comum com o que os nossos sentidos observam e que contradizem todos os instintos do "bom senso"?
Aquilo a que tu chamas o "estrito empirismo no qual se encerrou grande parte da ciência moderna" é precisamente a única garantia que temos de poder confiar na Ciência: se ela se mostrar incongruente com a nossa observação do Universo, deixa de merecer a nossa confiança. É exactamente isto que se passa com o criacionismo.

PS: vou ler com atenção o texto do Burckhardt. Depois te direi de minha justiça. Mas não me parece que tal músculo dê bifes ao gosto do dente dos leitores do Afixe; provavelmente, a resposta seguirá por mail...

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julho 29, 2005

MAS QUE PROMOÇÃO DO...

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Jovem rapagão luso em busca de diversão estival: queres impressionar as moçoilas da tua praia de eleição? Gostavas que todas desatassem a suspirar ansiosas, submersas em sonhos lúbricos, mal te pusessem a vista em cima?
Então, esta espectacular promoção dos pneus Goodrich é mesmo para ti! Na compra de um conjunto de pneumáticos para o teu Punto kitado, recebes logo um fantástico "colhão de praia insuflável"! A sério!
Agora, imagina a tua pinta, fazendo flexões na praia de Quarteira, com este equipamento insuflável a potenciar o volume do teu aparelho reprodutor… Vais ter de andar com um mata-moscas para afugentar as resmas de miúdas que vão cair-te em cima!

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julho 28, 2005

A VERDADEIRA NOVELA DO AFIXE

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Bem fundo nas catacumbas do Afixe, decorrem ainda os derradeiros episódios do psicodrama que veio sacudir o morno ramerrame de um blogue em pleno Verão. O cataclismo, que eu estou ainda a léguas de perceber, deve ter sido grave, a ponto de vermos o Monty a imaginar-se no lugar do Daniel Oliveira. Cousa perturbante, há que convir.
Mas falava eu do curso subterrâneo da intriga, longe dos olhos ramelosos do vulgo, ao alcance apenas das caixas de correio dos iniciados. Pois. A imagem que aqui vos trago é um retrato da minha humilde aplicação de e-mail. Como se vê, só mensagens a anunciar o término do sangrento enredo – com aparentemente definitivos "Para terminar" – já são 11. Nem a saga inteira do "Alien" teve tantos false endings, caramba!
No meio do torvelinho de estocadas, paradas e respostas, lá consegui receber uma acuada missiva acerca de trabalho. Eis uma excelente metáfora da perda de tempo e energia que este assunto lamentável tem sido desde o início.

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julho 25, 2005

GORA MONTY!

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Um denodado labor missionário embebido no imperativo cívico de derramar um pouco de luz pelas brumas nigérrimas da incultura popular. Por vezes, arco com tarefas assim.
O Monty, quando me rogou – com a humildade estatutariamente exigida – que lhe mostrasse algo do mundo civilizado, tinha em mente uma excursão ao Colombo. Que lhe tinham contado que aquilo era um mundo, que até se vendiam lá livros, sei lá; um manancial de referências miríficas tornava imperativa a visita.
Com a necessária firmeza, temperada por alguma ternura, neguei-me a semelhante desiderato. Não. Almejaríamos paragens mais distantes, horizontes um pouco mais vastos, mesmo que tivéssemos de prescindir do simpático serviço Mr. Parking. Vai daí, apontei o norte desta viagem ao País Basco.
Como bom rústico chauvinista, o Monty sacou logo do responso costumeiro: "mas os espanhóis são antipáticos e não há lá nada para ver e é tudo caro e não me entendo com isso das línguas dos estrangeiros". "Não temas, carente alma", sussurrei-lhe aos ouvidos trémulos, "eu estarei lá para te guiar".
E assim foi. De céptico ferrenho, ele transformou-se no basco honorário e militante que agora nestas páginas testemunha as muitas maravilhas vistas, os incontáveis momentos de enriquecimento cultural e espiritual.
Pasmem, incréus: até sumiu o reaccionarismo que sempre acompanha o ascenso da ignorância à categoria de "opinião". Já é outra a música desde que ele leu uma notícia a dar conta de julgamentos por "enaltecimiento de ETA" e soube que não são apenas os bombistas a sofrer as arbitrariedades, torturas e ilegalidades que Espanha tem por indispensáveis no combate ao terrorismo.
Ainda o veremos por essas esquinas e vielas de passa-montanhas e tinta de spray fluente em Basco…
É como vêem, pequenos leitores: as viagens enriquecem-nos e mudam até o mais empedernido dos ermitas.

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julho 03, 2005

UMA HISTÓRIA DOS DIABOS (LIVRO II)

O plano de Lúcifer soubera ser simples e paciente, como todas as maquinações que ousam cortejar as graças do destino e esconder-se dos olhos Daquele que tudo vê. Em primeiríssimo lugar, ele enviara para a Terra um dos seus favoritos, demónio de língua aveludada e poderes consideráveis. Ali, o emissário pudera contar com os cúmplices do costume: a cobiça e a ignorância dos homens. E, sobretudo, com a sua vontade de acreditar em qualquer coisa que lhes prometesse poder e vida eterna. Os prodígios, que garantiam sempre olhos esbugalhados e juras imediatas de obediência sem freio, sucederam-se, embora com a parcimónia que o sigilo da missão tornava indispensável. Tal pirotecnia de feitos sobrenaturais, embrulhada em cantadas tapeçarias de sedução e promessas revelara-se, como previsto, isco por demais apetitoso para as pobres criaturas. Devagar, o número de conjurados humanos crescera; primeiro em palácios atapetados a seda, derramando-se logo depois por ruas juncadas de pedintes e destroços de pragas várias. Hoje, os braços da conspiração abraçam em segredo todos os continentes do mundo de lama.
Javé dera certamente pelo alastrar da tramóia, por muito clandestino que o seu avanço lograsse ser; mas tomara-a por apenas mais um sobressalto, mais uma pirueta inesperada e divertida dos seus dilectos palhacinhos. Algo a merecer curiosidade risonha, nunca apreensão ou escrutínio mais atento.
Erro fatal. Lúcifer aguardava apenas que o número dos seus fiéis fosse o bastante; e que a sua devoção ganhasse a força necessária para quebrar os selos com que Javé lhe cerrara a passagem para a Terra.

É chegado o momento. Lúcifer sabe que os seus servos mais denodados estão reunidos numa enorme sala em pedra, desenhada de acordo com requisitos e preceitos exactos e poderosos. Todos vestem as opas cerimoniais que há milhares de anos foram prescritas para esta ocasião. O escolhido para albergar a força vital do seu Mestre já aquiesceu ao seu destino; também ele anseia pela chegada da sua hora de glória. Lá fora, a turba agita-se e junta a sua vontade ao rio de energia espiritual que se apresta a reabrir o pórtico entre esferas.
Nada se afasta dos ditames de Lúcifer.
Antes de avançar, ele ainda gargalha ao contemplar o vigor com que os pobres bichos humanos se entregam à causa que os vai perder, obliterando toda a sua penosa história, todos os seus ínfimos esforços. O vosso tempo acabou, criaturas da lama!

Agora. Ele está na Terra. Por fim.
Em seu redor, todos se ajoelham. Um deles avança, olhos pregados ao chão e coroa pronta a colocar na cabeça daquele que agora é o seu Monarca absoluto. Surge a pergunta do Ritual: “E que nome ides agora tomar?”
Também aquele pequeno passo foi há muito ponderado e decidido. Lúcifer não hesita na resposta: “Bento XVI”.

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UMA HISTÓRIA DOS DIABOS (LIVRO I)

Naquela manhã, Lúcifer acordara mais cedo que o costume. (Há aqui lugar justificado para uma primeira interrupção. “Lúcifer” não era, de todo, o seu verdadeiro nome; aliás, a ouvidos apenas tridimensionais, as suas sílabas soariam como dez choros de crianças esfomeadas, cem urros pestíferos, mil gemidos de luto. Não se trata, como compreenderão, de coisa que arrisquemos reproduzir nestas páginas...) E bastante mais bem disposto: dera consigo a trautear o “Amour, oiseau d'étoile” ao pequeno-almoço.
Qual a razão de tanto júbilo? Era chegado o Dia da Retribuição; a hora gloriosa da vingança; o momento em que Lúcifer iniciaria por fim a sua ascenção ao trono de Javé. Antever o culminar de milénios de planos e lentas manobras bastava para trazer um bonito sorriso aos seus angélicos lábios. Sim, que Lúcifer, a Luz da Manhã, sempre fora o mais belo dos Arcanjos, o favorito de Javé. Até ao dia em que Ele se tinha lembrado de glorificar as amaldiçoadas criaturinhas de lama, declarando-as Sua Obra e merecedoras, por inerência, de respeito e vassalagem por parte das Hostes do Céu.
Lúcifer, assim como os demais anjos, não tinha recordações muito claras da sua origem. Aproveitando-se disso, Ele sempre fizera caixinha em torno desse tema; por vezes desviava a conversa, por vezes admitia que a Sua omnisciência já não era como antes. A conclusão que Ele desejava ver germinar nas almas curiosas dos Seus anjos era por certo uma só: fora Ele a criá-los. Mas Lúcifer sempre desconfiara que tal história andava mal contada.
O dia da Queda; disso recordava-se ele bem. O suficiente para manter em ebulição o caldeirão da sua ira, ao longo de milénios e milénios de amargo desterro. Aliás, já um súcubo menor se atrevera a gracejar que era a fúria luciferina a verdadeira fonte das eternas e cruéis chamas do Hades. (A pena automática pelo dichote fora o exílio na maldita bola de lama, a Terra. Mas o excomungado até nem se dera mal de todo por lá, mesmo não sendo particularmente esperto; ainda há meses escrevera a Lúcifer anunciando-lhe que fora eleito para um segundo mandato como presidente dos EUA...)

A Guerra dos Anjos acabara por provar que o poder das Legiões celestes era muito mais do que uma emanação, um mero epifenómeno da Essência de Javé. Este perdera as primeiras batalhas. E o destino final da contenda mantivera-se incerto durante séculos; o Criador acabou por ganhar, mas a primeira baixa fora a sua aura de omnipotência incontestada. (Talvez por isso o castigo para os derrotados tivesse sido tão rápido e inapelável; o pecado fora muito mais grave que a mera rebelião: despromover publicamente Javé à categoria de Ser finito.) Mas, agora, os pormenores agonizantes da derrota, os erros tácticos em refregas decisivas, a escolha pouco acertada de lugares-tenentes, nada disso interessava a Lúcifer.
Ele preparou-se para o ritual da Passagem. Dentro em breve iria aniquilar as patéticos caprichos que faziam as vezes de livre arbítrio nos títeres de lama que tanto pareciam entreter o seu Criador. Toda a humanidade estava prestes a conhecer o seu suserano; e ai de quem não se ajoelhasse logo face ao novo poder supremo da suja orbe.

Pobre Divindade; ver-se-ia obrigada a descobrir outro brinquedo com que ocupar as tardes de tédio. Lúcifer riu em silêncio antes de proferir o encantamento que iria escancarar as portas que Javé selara com juras solenes de eternidades de interdito: a entrada da Terra.

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junho 28, 2005

DA RELAÇÃO ENTRE A IMPRENSA E OS BLOGUES

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Ao fim de uma voltinha pela blogolândia, é fácil ver que muita da nossa prosa almeja criticar, analisar ou complementar o que lemos na imprensa. Sobretudo nos jornais.
Interessa-me agora comunicar-vos um interessante caso inverso. No "24 Horas" aparece diariamente uma coluna anónima, assinada por uma inexistente "Gracinha", que pouco mais é do que um eco de blogues nacionais. Hoje mesmo, por exemplo, gasta uma série de parágrafos a copiar este post do Rui Tavares, sobre o grotesco destaque dado naquele semanário às declarações da mãe do seu director, comparando a prosa do filho dilecto à de Alexandre Herculano. Em ambos os textos, até vem a mesma suave paródia sobre a inveja que um tal génio pode causar aos bardos ilustres do passado.
E isto não é coisa nova. Raro é o dia em que não leio no "24 Horas" réstias de frases que já encontrei algures.
Os jornalistas, sempre sérios e impolutos, gostam de se queixar do carácter chupista e cobardemente anónimo do nosso cantinho da paisagem mediática. Mas não deixa de ser esclarecedor ver como alguns deles não hesitam em copiar trabalho alheio. Sem sequer lá deixarem o nomezito. A deontologia, quando se vê confrontada com um belo cheque, é mesmo coisa frágil.

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junho 19, 2005

SERÃO OS JORNALISTAS PORTUGUESES BASTARDOS OU DÉBEIS MENTAIS?

É bem sabido que os jornalistas se batem com os juízes lusos pelo primeiro lugar no ranking das alergias corporativas à crítica. Nem custa muito inventar razões para este à primeira vista bizarro emparelhamento: pessoas que vivem de opinar sobre vidas alheias têm uma necessidade absoluta de serem vistas pelo vulgo como seres angelicais e puros, quilómetros acima dos pântanos de desejos, fraquezas e defeitos em que se atolam os comuns mortais. Um jornalista nunca se pode encontrar no lado errado de um escândalo; um juiz, por definição, nunca pode ser apanhado em falta. Para se certificarem de que tudo corre efectivamente assim, as respectivas irmandades regem-se pelo mesmo código de conduta utilitário: “quem ataca um dos nossos ataca-nos a todos”. Advogado que se atreva a criticar a inépcia de uma sentença tem processo certo à perna; político que ouse duvidar da presciência da nossa Imprensa passa logo a besta totalitária, ogre mal educadão, ou ambos.
Quando o boçal Alberto João resolveu insultar “alguns jornalistas”, teve logo a classe inteira a espumar a mesma baba raivosa, chorando-se de um ataque indiscriminado e correndo em busca da protecção das presidenciais saias de Jorge Sampaio (azar. Foram logo ter com quem se refugia numa “forma especial” de reagir à soltura oral do grunho insular: a cobardia do silêncio cúmplice). No “Expresso” da semana passada, o ex-jornalista e ex-burocrata partidário Daniel Oliveira não hesitou em formalizar a ira corporativa: “Alberto João insultou os jornalistas”. Uma generalização – mesmo que patentemente falsa – calha sempre bem, nestas ocasiões.
Mas o “Expresso” desta semana bate todos os recordes de falta de vergonha. Logo na capa, vem a denúncia solene: “Carrilho diz que jornalistas são débeis mentais”. Avançamos alarmados para a página do artigo, e que lemos? Uma pergunta imbecil (“porque permitiu que um vídeo sobre a sua vida privada se misturasse e sobrepusesse ao seu projecto?”) que leva com uma resposta certeira e bruta: “Acho isso um argumento hipócrita; o que está dizer é que os jornalistas são débeis mentais e não se interessam pelo essencial. Pobre país que tem uma classe jornalística assim.” Certíssimo: se o lançamento da candidatura de Carrilho se viu “sobreposto” por questões menores, (a cena triste do Dinis e respectiva mamã) foi apenas porque os nossos pés de microfone com carteira profissional assim o quiseram. Mas a resposta coloca o ónus da classificação na pergunta; nem outra coisa seria de esperar de um espertalhão como o nosso filósofo-jet setter.
A coisa piora ainda mais um bocado na caixa que acompanha esta espécie de artigo. O título reza: “Carmona é sonso e indigente”. Assim mesmo: com aspas a denunciar o discurso directo. Lemos o texto. Carrilho chama efectivamente sonso ao concorrente. E afirma depois, comentado uma entrevista em que Carmona terá atribuído a culpa dos problemas de estacionamento da capital ao facto de “haver pessoas com 20 carros para estacionar”: “quando se diz isto, está-se num estado de indigente incompetência”. Ou seja, nunca afirmou, na entrevista citada, que “Carmona é sonso e indigente”.
Depois deste triste epísódio, começo a não ter dúvidas na resposta à pergunta do título deste post: há uns quantos que acumulam funções.

Afixado por João Garcez às 01:01 | Afixadelas (3)

maio 25, 2005

POBRE GENTE

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Vivem perseguidos. Por desastres naturais, por guerras, por governos assassinos. São os famélicos da terra, os destituídos de tudo; os refugiados.
Agora, como se não lhes bastasse tão triste sina, vão ter de levar com o engenheiro António Guterres.

Afixado por João Garcez às 10:42 | Afixadelas (9)

maio 22, 2005

CAMINHOS PARA O DIVINO

Uma coisa descobri ao ver os festejos dos novos campeões nacionais, sobretudo depois de estes se terem reduzido à quase nudez da roupa interior: alguns dos jogadores do Benfica são de Jesus, outros escolheram a Vodafone.

João Garcez

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maio 13, 2005

QUE DELÍCIA!

mostarda.jpg

"Perfeito para Carne". É desta forma singela que se apresenta esta obscura marca de mostarda, num anúncio hoje publicado no "24 Horas" (where else?). Gostaria de comentar a coisa, mas faltam-me as palavras.

João Garcez

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maio 11, 2005

DE COMO A FALTA DE CHÁ É SEMPRE ALHEIA

Era de esperar: o Carlos “MacGuffin” respondeu-me à letra, no seu blogue, acusando-me de tropelias mil. Tudo bem. O que tenho a responder ao grosso da prosa já ficou escrito no meu último comentário. Deixem-me só acrescentar uma ou duas coisitas…

Ele afirma que, dos três “cromos” que até agora retratei, o “Tiago foi, mais ou menos, poupado (até lhe acha piada e tal)”. Mentira. Eu gosto muito do “Voz do Deserto” e julgo que deixei tal afecto bem claro.
Depois, ele garante que eu não escolhi a via da ironia, tendo antes optado pelo caminho mais fácil, uma senda “«séria» e ordinária”. Claro está que, quando escrevo, “CCCC há muito tratou de reduzir ‘a esquerda’ a um bando deplorável, capaz apenas das maiores malfeitorias” estou a ser literal e muito sério. Aliás, topa-se à légua que eu encaro este assunto como merecedor da maior gravidade. Ó Carlos, olha que eu sei bem que a “blogosfera não deveria ser levada tão a sério”; não me vês agora com lacrimejantes olhos de virgem ofendida a queixar-me da maldade alheia.
Ele queixa-se também das minhas injustas generalizações, a propósito… das suas generalizações. Como? Por exemplo, assinalando as passagens mais light de um post seu onde estabelece laços entre a esquerda e o anti-semitismo. “Por sinal, nesse texto eu «só» escrevia isto”, diz ele. Mas não foi “só isto” que ele escreveu. De fora da oportuna e selectiva citação fica uma conclusão maravilhosa: “mas, caramba: qualquer pessoa com os ouvidos e olhos apurados percebe que o anti-semitismo (o amador e o profissional) vem, hoje em dia, sobretudo da esquerda.” Ou seja: a argumentação deu muitas voltas com paninhos quentes mas voltou ao exacto preconceito de partida. Sem ter acumulado um grama de provas pelo caminho, claro está.
Quanto ao texto que motivou a minha charge, lá vem a ladainha desculpabilizadora: ele quis apenas alertar-nos “para o facto de ser necessária alguma cautela, especialmente entre leigos, quando nos debruçamos sobre os fenómenos atmosféricos ou meteorológicos”. Mas não foi isto que ele então escreveu, muito antes pelo contrário! A paródia era bem clara: o Carlos Carapinha socorreu-se de relatos de secas antigas para deixar claro que agora o tal “distinto cientista filiado no Bloco de Esquerda” só se poderia lembrar de acusar os EUA de crimes ambientais já no sec. XVI. Dito de outra forma: quem nos alerta para um possível aquecimento global são os simples de espírito que nem sabem que antes já havia secas e que só imaginam uma fonte para todos os males do mundo: os EUA. Isto não me parece compaginável com a “moral da história” que o autor agora quer martelar para dentro da sua pequena fábula.
Por fim, depois de repetir o comentário já por aqui depositado e a que já retorqui, ele encerra o libelo acusatório garantindo que “pessoas assim”: “fecham logo as portas, por receio de contagio com os leprosos ímpios”. Estranho é que por aqui haja portas abertas a comentários e por lá os leprosos se fechem a sete chaves, não vá lá aparecer algum visitante que se lembre de contaminar olhos ou almas mais sensíveis…

Afixado por João Garcez às 19:24 | Afixadelas (15)

maio 10, 2005

CADÊ O CHEFE?


Ao que parece, três dirigentes do PP foram apanhados com a boca nos sobreiros: Nobre Guedes e Abel Pinheiro já são arguidos, Telmo Correia apõs a sua cruz no despacho em questão.
Mas uma quadrilha, por definição, deve incluir pelo menos 4 criaturas...

Afixado por João Garcez às 22:40 | Afixadelas (8)

A PROPÓSITO DA LIBERALIZAÇÃO DO MERCADO DE SERVIÇOS

Toda a gente sabe que funcionam bordéis em plena Lisboa. Fazem anunciar os seus serviços e laboram às escâncaras; só lhes faltam reclames em néon a revestir de concupiscência multicolor as avenidas alfacinhas. Neste site, por exemplo, podem consultar uma espécie de "páginas cor-de-rosa" do ramo, proficientemente divididas por distritos e tudo.
Um cromo aqui do escritório anda há semanas a tentar convencer-me a visitar um desses lupanares, local aparentemente hospitaleiro e limpinho. No entanto, nem nos meus dias de esfomeada adolescência alguma vez recorri aos serviços de uma profissional. Ainda cheguei a entrar numa "casa de meninas", integrado numa excursão de amigos; depois, deixei que todos os meus comparsas fossem escolhendo companheira, à medida que as esquálidas profissionais da casa iam desfilando à nossa frente em camisa-de-noite... e acabei sozinho com a madame e umas chávenas de café, em divertida cavaqueira.
De qualquer forma, até nem tenho uma opinião clara quanto à justeza da ilegalização dos estabelecimentos deste ramo: desde que as trabalhadoras sejam respeitadas no seu livre arbítrio e a higiene da coisa seja vigiada, não detecto grande pecado no empreendimento. Sei que é sempre possível argumentar que uma mulher que necessite de ganhar assim a vida nunca goza de inteira liberdade, que vender sexo é sempre uma descida ao purgatório da degradação humana, etc. Mas confesso que, quando o meu colega me tenta com imagens destas e pormenores do que se consegue fazer com esta senhora numa hora passada no confortável "Executive Club" (ai estes nomes...), o bichinho da tentação até me mordisca a alma. Para os mais curiosos, a menina "Luana" leva 100 euricos por hora, sendo que metade da verba reverte para a gerência da casa (confesso que, com uma hora de suor do meu rosto, não consigo ganhar o que ela ganha em meia hora de suor do seu... não sei bem o quê).
Vem-me agora à memória o dichote do avô de um amigo meu: "sabem qual é a diferença entre o sexo pago e o sexo gratuito? É que o sexo gratuito sai muito mais caro"...

Afixado por João Garcez às 13:17 | Afixadelas (16)

maio 09, 2005

CROMOS DIFÍCEIS DA BLOGOSFERA (3)

Há uns dias, ficou solucionado um grande enigma da blogosfera, quando o MacGuffin, autor do "Contra a Corrente", revelou as razões do seu anonimato: ele, na realidade, chama-se Carlos do Carmo C. Carapinha e quer que "daqui em diante, os Pachecos Pereiras e os Danieis Oliveiras" passem a conceder-lhe "alguma credibilidade".
Mas nada disto é relevante. A bem da verdade, toda a gente sabe há muito quem é o senhor CCCC.
Comecemos pelos princípios estratégicos do seu modus operandi. Goebbels já desenvolvera o sistema há um ror de anos. Desde então, tem vindo a ser aplicado com infalível proveito. É assim: começamos por atacar e caricaturar o adversário até ao ponto em que parece perder qualquer similaridade com criaturas humanas. Depois, é mais fácil atacá-lo e mais difícil encontrar um cidadão comum que ainda lhe dedique uma réstea de empatia.
Assim, CCCC há muito tratou de reduzir "a esquerda" a um bando deplorável, capaz apenas das maiores malfeitorias. Para este senhor, somos declaradamente anti-semitas, simpatizamos com o "Sr. Bin Laden e a sua al Qaeda", dedicamo-nos furiosamente aos "slogans, aos estereótipos e ao preconceito", pois não conseguimos resistir a "rótulos, epítetos definitivos e umas suaves injurias (sic) à mistura" . Que querem? É tudo prova do nosso "constante resvalar para a demagogia e o populismo chic". Mas não se preocupem, leitores mais alarmados, que a nossa "desorientação e iniquidade" condena a nossa "fácies hipócrita " ao mais "pueril desnorteio".
Outro cultor pertinaz desta desconversa promovida a discurso é o manhoso João Pereira Coutinho. Aliás, o sr. CCCC é declarado admirador daquele plumitivo, já tendo trocado com ele tocantes declarações de apreço. Como quando declarou o seu embevecimento pelo que postulou ser o "melhor texto sobre o 11 de Setembro de 2004": um longo escarro sobre toda a gente que não pensa como os preclaros e libertários colunistas desta nova direita que nos tocou em sorte. Escreveu então o JPC: "rio com textos que se escrevem por aí. Textos de pesar. Assinados por vagabundos sem um pingo de vergonha na cara que, há três anos, com o segundo avião a enfiar-se pela torre adentro, abriam a primeira garrafa de uma tarde longa e festiva entre vagabundos de estirpe igual. Conheço casos." E o CCCC aplaudiu entusiasmado.
Duas almas que são farinha do mesmo saco de trigo cheio de voraz gorgulho, é bom de ver.

João Garcez

Mas o pior acontece quando o próprio blogger começa mesmo a acreditar nas caricaturas a traço grosso com que retrata o mundo. Ou quando decide tomar por parvos todos os incautos que aterram no seu blogue. Querem um exemplo de conjunção destas duas infelizes eventualidades? Leiam com atenção este post. O bom CCCC tem como certo que o aquecimento global é uma fábula da esquerdalhada. E parte do princípio que esta tem os EUA por culpados de todos os males do mundo. Vai daí, embarca em laboriosa pesquisa e descobre a prova que faltava para enterrar o pernicioso mito da influência humana no clima: um artigo de 1930 de uma tal "Revista Agronómica". Ali, são reproduzidas as palavras de um abade seiscentista sobre uma seca com proporções de praga bíblica que terá ocorrido na Península Ibérica, mil anos antes de Cristo! Mais: parece que em mil quinhentos e troca o passo houve uma seca especialmente atroz em Portugal. Cá está: se antes já éramos atacados pela estiagem, o aquecimento global que hoje nos aflige só pode ser uma léria!
Caricatura/conclusão inelutável? "Daqui se conclui que há séculos que o imperialismo americano vem fustigando o planeta terra e a camada do ozono"; "em 1545, era já notório o autismo por parte dos responsáveis norte-americanos".
Nem vale a pena questionar a precisão do relato do episódio quase pré-histórico. Importa é reter a mensagem da paródia: os malucos que nos alertam para o desatino do clima acham que todas as secas são causadas pelo ser humano, sobretudo pelos americanos.
Como o CCCC julga que os seus adversários da esquerda são uma cambada de ignaros primitivos, dá largas ao seu suposto sentido de humor e aniquila, com tais citações da "Revista Agronómica", as inquietações de inúmeros cientistas; mesmo, pasme-se, americanos... Como é que se poderá continuar a temer o aquecimento global, depois de conhecermos o decisivo testemunho do abade de Montearagon?

Ao menos, os fundamentalistas dos EUA que "sabem" que temos permissão divina para estragar o planeta à vontade (uma vez que o mundo até vai acabar não tarda nada...) sempre se apoiam em citações bíblicas. O "Contra a Corrente" fundamenta-se simplesmente no nada.

João Garcez

Afixado por afixe às 17:23 | Afixadelas (34)

maio 06, 2005

CROMOS DIFÍCEIS DA BLOGOSFERA (2)

Ele tem tudo o que uma criatura de Deus precisa para me irritar solenemente: a mania dos aforismos, aquelas pérolas de sabedoria que supostamente encapsulam em meia dúzia de palavras o Sentido da Vida; uma Fé religiosa que descamba em proselitismo feroz a cada curva; um gosto musical que abarca, entre outras preciosidades, os AC/DC e os Black Flag (t’arrenego: o Henry Rollins é que nunca!); uma analítica auto-reflexão que se confunde, dia sim, dia não, com a vaidade.
Mas, como é do Tiago Oliveira Cavaco, A Voz do Deserto, que falo, só posso dizer bem dele. Face à tocante sinceridade e à implacável habilidade estilística da Voz, fico desarmado. Até o ateuzinho militante que vive no meu cerebelo e pede a palavra sempre lhe cheira a incenso se queda tolhido por uma quietude entre o intrigado e o divertido.
O homem é, se bem percebi a coisa, pastor de um grupo evangelista para mim ignoto. E é um entusiasmado apreciador de música pesada. Agora, pasmem: ele leva esse "estilo" canoro ao púlpito através de um grupo de sua inesquecível graça "Tiago Guillul e os Gratos Leprosos", ou o diabo a sete. Em hinos à falta de jeito musical como "A Isabel é intelectual (porque perdeu a virgindade na Feira do Livro)" ou "Ó Judas, aperta o laço", o Tiago faz avançar a nossa ideia de música sacra para paragens nunca antes visitadas...
Mas fiquemos no terreno mais consensual da palavra apenas escrita. As ocasionais descrições dos incidentes quotidianos do seu múnus bastariam para fazer deste blogue uma visita obrigatória para almas curiosas e sensíveis: "Eu estava distraído durante a oração. Até que me apercebi que o pecador confessava as suas faltas. As minhas pernas, que até então abanava relaxadamente, imobilizaram-se. Podem os músculos de um homem repousar quando se ouvem palavras de arrependimento?"
Mas há mais, muito mais. Para vossa ilustração, aqui ficam algumas da homilias mais recentes. O auto-retrato: "Quando me sento no Monte Sinai pouco me aflige o estilo, honestamente. A erudição nunca curou leprosos. Os babilónios não me perdoam que acredite nas coisas que escrevo." A sempiterna questão de Eva: "Uma das debilidades dos ateus é, descartando-se do Criador, atribuir a existência da mulher a um acaso cósmico. Não é incredulidade religiosa. É ingratidão pagã. Não é falta de sensibilidade estética. É falta de respeito." Isto e aquilo: "As palavras são como as cerejas. É preciso ter cuidado com os caroços". Dicas para reparações domésticas: "Acreditar com muita prudência no que os cientistas dizem sobre o Princípio. Acreditar com muita prudência no que os místicos dizem sobre o Fim". E assim por diante, ad eternum.
É certo que um recente chuvisco de públicos elogios ("A glória seria Lúcifer elogiar-me no inferno. Mas aí seria tarde demais para poderem desfrutar de uma ligação à internet") tem vindo a turvar a nascente da Voz do Deserto; a hubris nunca se deu bem com o ascetismo dos profetas semi-loucos.
Mas há que manter a Fé: se alguém um dia for capaz de, através da Internet, curar leprosos ou transformar límpida água em sedoso Barca Velha, será por certo o Tiago Oliveira Cavaco. Visitem-no. E que o Senhor vos acompanhe.

PS: depois de escrever o último parágrafo, lembrei-me da sentença que Deus deixou lavrada em Timóteo: "Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem." Persignei-me (sim, Monty) e tratei de fugir da tentação para uma página de sã pornografia.

João Garcez

Afixado por afixe às 18:23 | Afixadelas (7)

BIG BROTHER IS SLAPPING YOU

Uma mulher numa carruagem de comboio. Entram de rompante vários adolescentes de telemóvel em punho. Um deles avança para a mulher e dá-lhe uma sonora estalada. Os outros permanecem a filmar a reacção da atacada; todos acabam a gargalhar.
Este episódio é uma manifestação da mais recente epidemia que grassa entre os jovens ingleses: o Happy Slapping. Pequenas erupções de violência gratuita, encenadas para serem captadas por telemóveis de 3ª geração. De seguida, os ficheiros respectivos são trocados entre amigos, como pequenos troféus de batalhas contra o ennui das grandes cidades (podem ver o vídeo que descarreguei de um sistema peer to peer aqui).
De acordo com um artigo do Guardian, a coisa começou em Londres, estando hoje a disseminar-se pelo norte de Inglaterra. Só na capital, a polícia recenseou mais de 200 ataques nos últimos seis meses. Estes têm vindo a piorar também qualitativamente: de estaladas entre miúdos, já evoluíram para agressões a adultos e assaltos.
Neste sistema de circulação de imagens, as pessoas são meros adereços de videojogos, objectos tão dignos de empatia como um monstro do Quake e igualmente carregados de possibilidades cénicas.
Como é chegámos a este local desolado e frio?
À medida que vamos permitindo que o mundo seja mediado, aos olhos dos nosso filhos, por mais e mais opacos filtros, é natural que eles percam os mapas onde estão marcadas as fronteiras entre fantasia e realidade, entre jogo e sofrimento humano. E faríamos bem se nos fossemos preparando para conviver com fenómenos ainda mais perturbantes que o Happy Slapping.

João Garcez

Afixado por afixe às 17:14 | Afixadelas (11)

PERESTRELICES

Ouvido hoje na TSF, aos 5 minutos de jogo:
- Isto de ter um árbitro dinamarquês num jogo com uma equipa norueguesa, só lembrava mesmo à UEFA!
- Jorge, é uma equipa holandesa.
- Ah. Sim. Claro.
6 minutitos depois, agora com sotaque brasileiro:
- Um árbitro dinamarquês num jogo com uma equipa norueguesa, só mesmo na UEFA, né?!

Conclusão: já que a rádio não pode transmitir repetições das jogadas mais importantes, a TSF resolveu repetir as bacoradas mais desopilantes.

João Garcez

Afixado por afixe às 00:10 | Afixadelas (5)

maio 05, 2005

CROMOS DIFÍCEIS DA BLOGOSFERA (1)

A blogosfera lusa é um pouco o reflexo de Portugal: uma pequena parvónia onde todos querem ser vistos na companhia dos famosos e onde se é "frequente no discurso dos outros" apenas porque sim. Só por isto se entende a perenidade do fenómeno Bomba Inteligente.
Há quem por lá se deleite com "um dos blogs simultaneamente mais leves e mais profundos da blogosfera!" Há quem garanta que aquele blogue só à primeira vista parece um saco amarelo cheio de ar quente com perfume de jasmim; que a superficialidade é ali uma camuflagem cuidadosamente aplicada, como uma espécie de verniz pós-moderno, uma capa de ironia só na aparência fútil e inconsequente. Assim sendo, vogariam por baixo da espuma do nada grandes formas conceptuais, leviatãs da cultura livresca, verdades cruciais, surpreendentes no seu brilho inesperado. O pior, o pior... é que não há nada, mesmo nada, por baixo da decoração garrida.
Quando a senhora se aventura por selvas obscuras mais densas que discussões sobre os atributos da Madonna, o resultado é quase sempre pífio. Quando a coisa ultrapassa a singela citação, nunca sai da banalidade rebarbativa e frouxa. Confiram suaves disparates sobre o gosto. Ou sobre mudanças de ideias. Ou até sobre futebol: "Verdades absolutas: o Jorge Nuno Pinto da Costa é brilhante." Pois.
Vão desculpar-me os admiradores da autora, mas não descortino ponta de interesse naquilo. Eu ali apenas topo com fotografias banais a rodos, abundantes panegíricos endereçados aos seus amigos (sempre muito "queridos", "excelentíssimos" e fantásticos) pretensiosismo às pazadas (imperdíveis são as muitas enumerações de livros que a "Bomba" afirma andar a ler...) e o ocasional "tema sério", invariavelmente mote para exercícios de auto-ironia acidental. Talvez, e isto diz tudo, "porque afinal de contas, estamos sempre a falar de nós, mesmo quando falamos dos outros".
Mais que um blogue, aquilo é uma placa giratória de relações públicas: todo um continente da blogosfera ali ruma em busca da bênção da sua papisa. A senhora porta-se como uma espécie de "Garota de Ipanema" da praia dos blogues, derramando charme, sedução e elogios com a prodigalidade de uma fada boa sempre com as asinhas a dar a dar. A "Bomba", herself, explica: "a lusoblogosfera é afinal um bairro, em que a possibilidade de as pessoas se conhecerem está a pouquíssima distância. Pode parecer sinistro para os mais sinistros. Para mim, é divertido."

João Garcez

Hoje em dia, depois da migração do blogue para a imprensa "séria", a secura intelectual evoluiu para uma seca dramática: já nada surge "no Bomba" para lá das fotografias de estrelas, de letras de canções e do beija-mão costumeiro. Não que algum hipotético conteúdo de jeito tenha fugido para o mundo das rotativas; na sua coluna no "Expresso", a coisa bate recordes de indigência semana após semana: já por lá li descrições de problemas da autora com o trânsito, inanidades sobre as maravilhas do casamento e, nesta semana, uma vulgar colagem de perfis de estrelas do hip hop comercial. Tudo escusado, tudo medíocre.
Bomba? Inteligente? Gimme a break!

João Garcez

Afixado por afixe às 18:32 | Afixadelas (50)

HOJE, ESTE ACESSÓRIO ESTÁ NA MODA

A sugestão da colunista Polly Toynbee tem que se lhe diga: ela recomendou aos eleitores britânicos que se sentem "obrigados" a votar Labour que o façam... com o nariz tapado. Ao que parece, há muita gente que deseja castigar Blair pela cumplicidade na invasão do Iraque mas perde o sono só de imaginar os conservadores de volta ao poder.
O que vale a estes votantes é Gordon Brown, o mais que certo sucessor de Tony Blair. O actual prime minister ainda gostaria de liderar a campanha pelo "sim" à constituição europeia. Mas, segundo muitos observadores da política britânica, dificilmente o eleitorado voltará a confiar cegamente no homem que os levou a participar numa guerra sob falsos pretextos.
"Portanto, esqueçam a vingança e olhem para o futuro: votem Blair, fiquem com o Brown", sumariza a senhora Toynbee, que até se prontificou a enviar as necessárias molas a leitores que as pedissem...

João Garcez

Afixado por afixe às 12:51 | Afixadelas (2)

ELEIÇÕES PARA O CARGO DE VICE-REI DOS EUA NA EUROPA

Estão aí as eleições no Reino Unido. Não se esperam surpresas de maior.

João Garcez

Afixado por afixe às 11:40 | Afixadelas (1)

maio 04, 2005

UM PRESIDENTE PEQUENINO

Sampaio confidenciou-nos há dias como gostaria que tivéssemos um polícia em cada esquina. Aliás, por ele a GNR andava mascarada a emboscar cidadãos pelas estradas de Portugal afora. Na mesma leva de inspiração, o senhor presidente descobriu que temos tendência para achar que a "responsabilidade é sempre dos outros"; "não é só na condução, mas é em tudo. Não é assim. Temos de assumir a nossa quota parte de responsabilidade".
Isto, vindo de alguém que acaba de chutar para o seu sucessor o incómodo de marcar um referendo melindroso e para os partidos a "responsabilidade" dessa decisão, não está nada mal. Mas Sampaio é mesmo assim: quando quer dizer coisas profundas, não se entende. Quando por fim se faz entender, não está a dizer nada de jeito.

João Garcez

Afixado por afixe às 16:22 | Afixadelas (12)

maio 03, 2005

PORQUE NÃO GOSTO DO 25 DE ABRIL

A cada ano que passa, mais penoso me é cumprir o ritual do desfile avenida abaixo. Não por lá encontrar menos gente ou menos entusiasmo que em anos anteriores; sei bem como as conjunturas da política fugaz podem afectar as disposições das massas ( e até gosto de ver recém-chegadas tribos "alternativas", mais as suas danças e penteados coloridos, partilhando o alcatrão com as sisudas cabeleiras brancas do PCP). Não, não é por isso.
Naquela madrugada de 1974, eu já tinha um pé na idade da razão. Consegui então compreender os porquês de tanta festa, sentir como meu todo aquele alvoroço a contaminar gestos, gritos, existências inteiras.
Hoje, cada dia 25 de Abril recorda-me não esse ápice de clara e absoluta alegria, mas a queda que se lhe seguiu, inexorável como as leis da termodinâmica que nos asseveram o triunfo final da entropia. Cada novo dia 25 de Abril vem recordar-me o poder da corrosão do tempo, a saudade de viver num mundo onde julgávamos saber que tudo era possível.
Não que algo tenha falhado; não que desígnios nobres tenham sido perseguidos com menos denodo ou com avaro empenho de corpos e almas. A asa que se elançou arriscou mesmo o voo; mas não deu com céu capaz de albergar tamanha envergadura de ambições. As rotas cartografadas sobre os sonhos de então, admiráveis de tão impossíveis, só poderiam mesmo acabar estateladas no chão do nosso mundo ajuizado. A desmesura dos desejos à solta naquele Abril era a medida perfeita de um malogro anunciado: queria-se o inalcançável, almejava-se o proibido, exigia-se o absurdo. E talvez poucos tenham então percebido como estava condenado o Éden em que se viram à solta.
Fomos passageiros num daqueles voos em forma de parábola que se arrancam às leis da gravidade por meio minuto de sonhadora imponderabilidade. No interim da ausência de peso, ninguém ali gasta tempo a pensar no regresso aos cansativos domínios da gravidade; a urgência do gozo e do espanto silencia os recados do bom-senso. Mas a aterragem é mesmo obrigatória, sob pena de desastre.
Pouco depois de Abril, aterrou Portugal de chofre na realidade que ainda hoje nos guarda, ciosa do seu poder sobre músculos e corações. Daqui, ninguém sai vivo.

João Garcez

Mas, para o ano, lá estarei de novo na manif. Porque sim. Porque me apetece declarar que ainda me agarro à recordação dos dias em que tudo parecia possível. Mesmo que já saiba que vou lá encontrar as mesmas caras, um ano mais velhas, um ano mais desanimadas, um ano mais realistas, um ano mais longe dos sonhos de Abril. Mas vou lá estar.

João Garcez

Afixado por afixe às 16:18 | Afixadelas (10)

maio 02, 2005

UMA MODESTA PROPOSTA PARA ESTA NOSSA IGREJA

Há uns dias, em animada troca de pontos de vista (para lhe não chamar discussão, coisa que assentaria mal ao terno esprit de corps deste blogue...) com o Bernardo, vi-me face a um conhecido argumento para explicar o aparente menosprezo que a Igreja Católica dedica às mulheres. (As reclamações destas vêm de longe: Maria Madalena lavou os pés à malta mas não pode sentar-se à mesa da Última Ceia, temos hostes de santas pelos altares do mundo mas nem uma só "padra", enfim; como de costume, abunda no gineceu o mau génio e a eterna insatisfação com o muito que já lhes damos.)
O argumento tem barbas: é facto conhecido que Jesus Cristo escolheu apenas homens como apóstolos. Porquê? "Não porque elas não fossem dignas de o ser, mas porque Jesus considerou que a elas cabia um papel diferente" (talvez aspirar as sacristias e arrumar as flores das igrejas...).

Aqui chegado, ouvi um adejar de asinhas sobre mim e senti-me infundido pela benévola sabedoria do Espírito Santo. Em resumo, tive uma ideia.
É assim: segundo boas fontes, Jesus seleccionou apenas homens relativamente jovens para o acompanhar. Não há notícia de qualquer ancião na peripatética entourage do Salvador. É verdade: nem um só velho foi seleccionado para Apóstolo! (E mais: à medida que os escolhidos foram envelhecendo, sucederam-se os disparates; todos se deixaram apanhar, sofrendo depois martírios variados e sempre desagradáveis.)
Isto dá que pensar. Está na cara que também aos gerontes deve caber, hoje em dia, um desses "papéis especiais". Vai daí, sugiro aos poderes eclesiásticos que governam as vidas espirituais da cristandade que proíbam, desde já, o acesso a malta com mais de 65 anos (por exemplo, só para que os excluídos tenham, ao menos, bilhetes da CP mais baratos...) a qualquer cargo na Igreja.
Corram com os padres vetustos, reformem os cardeais velhadas, tratem de arranjar um Papa na flor da idade. Tal corresponde, claramente, ao divino Plano de Jesus. Ninguém o irá contestar, pois a mesmíssima lógica tem justificado séculos de subalternização das mulheres...

Afinal, isto da teologia é bem mais giro do que parecia.

João Garcez

Afixado por afixe às 17:41 | Afixadelas (12)

JOÃO “CARAS” ESPADA

Há quem tenha afiado o dente do humor com a ajuda de uma dieta de Monty Python ou Blackadder; Herman José, até. Mas estou em crer que toda uma geração letrada descobriu as delícias do grotesco, os deleites do ridículo, as maravilhas da ironia involuntária à pala da coluna de João Carlos Espada no “Expresso”.
Este poderoso intelectual de obra invisível é detentor de uma aproximação à sabedoria bastante peculiar: é mesmo aproximação, no sentido físico do termo. Quanto mais próximo se encontra ele de um grande vulto do pensamento ocidental, mais trémula lhe fica a pena, mais emocionado lhe escorre o verbo meloso. Há uns anos, era Karl Popper; melhor, sir Karl, para o íntimo Espada. Este gastava dúzias de parágrafos a relatar a forma como o hálito sagrado do filósofo, absorvido em longas tertúlias (dizia ele), era uma espécie de ambrósia intelectual que deixava quem a consumia a planar 100 metros acima dos comuns mortais.
Na semana passada, surgiu o nosso parvenu da filosofia política deslumbrado com “os meus amigos Plattner e Garton Ash”. O segundo é o já familiar “Tim” e o primeiro é “director do conceituado Journal of Democracy”. Ambos tiveram o azar de dar de caras com o Espada (mas terão mesmo dado por ele?) num debate na mítica Oxford.
A segunda prestação da estopada veio esta semana. Anuncia-nos a criatura, logo a abrir a coluna – agora estranhamente exilada no caderno “Actual” – que comemorou “os 31 anos da nossa democracia na velha Inglaterra”. Que bom. Depois, explica-nos como assistiu a um desfile de sumidades que se queixavam da decadência da Inglaterra e da falta de maneiras do mundo contemporâneo (a sério). Ficámos ainda a saber da participação do Espada, himself, num ilustre almoço-debate (estranho: rezam as boas maneiras que nada se deve debater numa refeição civilizada…) onde todos se mostraram mui preocupados “com o subtil crescimento de uma cultura de morte”.
Aqui, o Espada declara que um dos intervenientes, cuja identidade as cavalheirescas regras da coisa não o autorizam a revelar, se lançou numa apaixonada diatribe sobre “a destruição dos nossos padrões morais que tem sido operada pela nova ditadura politicamente correcta: a ditadura do relativismo”, citando, para gáudio da douta assembleia, o novo Papa. Claro está que o autor desta intervenção, cuidadosamente anotada pelo Espada, deve ter sido o próprio.
Pobre Oxford. Segundo este parolo caçador de autógrafos filosóficos, hoje apenas se fazem por ali ouvir cânticos fúnebres a deplorar a emergência da tal “cultura de morte” e o poder inaudito da “ditadura dos media” que nos impõe o supremo Mal do “relativismo”.
Atenção que, quando ele fala de “cultura de morte”, não está apontar o dedo, por exemplo, aos que apoiaram a invasão do Iraque e que menorizam, ainda hoje, as dezenas e dezenas de milhares de inocentes que as aventuras de Bush II já assassinaram. Não; o problema para ele são os que têm o topete de tolerar a eutanásia ou o aborto. E os sinistros “relativistas” são todos aqueles que se atrevem a não reconhecer a existência de um só padrão moral no Universo: o de João Carlos Espada e dos seus chums de Oxford.
Quem defende o direito das mulheres a abortar, dentro de limites bem balizados, é um amigo da Morte. Quem duvide da infalibilidade papal ou da salubridade das ideias do Espada é um asqueroso Relativista. Fogueira com eles.
É isto que em Portugal se consegue fazer passar por pensamento. Estamos entregues à bicharada.

João Garcez

PS: Não se apoquentem em excesso, que os avisos catastrofistas de iminente naufrágio ético do nosso mundo já vêm de longe: "Retirem à Humanidade actual os seus princípios religiosos e dogmáticos – ou, na prática, os seus princípios ético-morais – abolindo a educação religiosa sem a trocar por um equivalente, e o resultado será um grande choque nas fundações da sua existência." O autor desta profecia foi um outro famoso defensor da Civilização Ocidental: Adolf Hitler.

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maio 01, 2005

CARÊNCIAS AFECTIVAS

Discuti com a namorada, ainda com o café quente na mesa. Lá saiu ela da sala, escada acima, espumando e ruminando impropérios. Eu sentei-me à frente do computador.
Cinco minutos depois, quando chegou a hora de fazer as pazes, já tinha eu entregue mais de 100 euricos a estes senhores.
Depois, venham dizer-me que isso das compras como terapia é exclusivo do gineceu.

João Garcez

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UMA MALDADE (QUASE) INCONFESSÁVEL

O acidental Rodrigo Moita de Deus resolveu passar a escrito uma súmula das suas estratégias de sedução. Num ramalhete de trocadilhos de fino recorte literário, escreveu ele: “A sedução é como um test drive. Temos cinco minutos para mostrar velocidade de ponta e estabilidade nas curvas.”
Humano e mauzinho que sou, não resisti a comentar a confissão: “Ó amigo: isso dos ‘5 minutos’ não se chama ‘sedução’. É mesmo ejaculação precoce.”
Ainda aguardo réplica.

João Garcez

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abril 30, 2005

EU FALO EM ALHOS, TU RESPONDES EM BUGALHOS

Bernardo: obrigado pela atenção que dedicaste à minhas palavritas. Agora, cabe-me responder-te mui singelamente. A tua resposta começa mal, logo no título: "Ratzinger concorda com a pena capital?" Pergunta capciosa, congeminada para induzir o leitor em erro. O que eu antes escrevi foi apenas: "a vida é sagrada, a não ser quando falamos da pena de morte". E nada mais vero: o senhor Bento XVI, aka Joseph Ratzinger, relativizou a gravidade da pena de morte, quando a secundarizou face ao aborto, como se nos dois casos não estivessem em causa vidas humanas igualmente "sagradas" e intocáveis. Não. As suas palavras não deixam margem para dúvida: para ele, o aborto é coisa bem pior que a pena de morte. “Quando aplicada legalmente, pune-se alguém que é culpado de crimes que se provou serem muito graves e que também representa um perigo para a paz social (...). No caso do aborto, inflige-se a pena de morte a alguém que é absolutamente inocente. São duas coisas completamente diferentes”.
Deixa lá o João Paulo II ou o Alexandre VI dormirem o sono eterno, que apenas o actual Papa para aqui é chamado. Podes citar as encíclicas que quiseres, que em nada diminuis a pontaria do meu texto: Ratzinger tem a pena de morte como algo de aceitável e não sente necessidade de invocar as atenuantes que citas.
Em resumo:
1. Para a Igreja, a vida humana é inviolável, excepto em alguns casos.
2. A auto-defesa nunca incluirá, se acatarmos o dever da proporcionalidade, matar alguém que se encontra indefeso numa cela.
3. Para Ratzinger, o ponto anterior é irrelevante, assim como o número de inocentes que já foram injustamente executados em nações supostamente civilizadas. Essas minudências, para ele, resumem-se a um frio “quando aplicada legalmente”. Nunca o vi mencionar esse tocante “in extremis” com que é temperada a quase-recusa da pena de morte por parte da Igreja Católica.
4. Nunca escrevi que a Igreja “defende a pena capital” e é demagógico afirmar e insinuar o contrário.
5. As palavras de Ratzinger são as dele; não carecem de “contexto” e é arrogante querer dar-lhe um à força. Elas não estão “totalmente de acordo com o magistério da Igreja” pois não reconhecem esse teórico carácter de emergência social da pena de morte; ele limita-se a aceitá-la quando ministrada “legalmente”. Sem mais ressalvas.
6. Lembras-te de Hitler, nem sei bem a que propósito. Mas pegando no teu exemplo pergunto-te: se o teu conhecimento do nazismo viesse apenas do Mein Kampf, compreenderias o horror nacional-socialista? Não me pareece que documentos teóricos bastem para entender organização alguma. Se quiseres ler o programa do PCP, também poderás chegar à conclusão que se trata de uma organização amante da democracia, a todos os níveis; isso dos “contextos” teóricos dá um jeitão. E se eu te lembrar a dura e concreta praxis de séculos de execuções da Igreja, aplicadas a hereges e dissidentes? Ou também aqui houve lugar para o tal “melhoramento”? Terá a Igreja subitamente descoberto que as execuções que ministrava prejudicavam a saúde dos condenados?

João Garcez

7. No que toca a documentos da Igreja, repara no que diz o cardeal Schönborn, precisamente o director da comissão que produziu o Catecismo actual: a versão original continha ainda a expressão “o castigo é legítimo”, a propósito da pena de morte, coisa que “mantém a posição clássica da teologia moral católica”. Este cardeal faz ainda pergunta crucial: para quando uma “verdadeira exclusão moral da pena de morte”, por parte da ICAR? É que a iniquidade central do princípio por detrás da pena de morte ainda não foi frontalmente denunciada pela Igreja. E Ratzinger, ao relativizar este pecado, não veio ajudar nada.
8. Acusas-me, com notável sobranceria, de desconhecer o “magistério” da ICAR. Sendo assim, peço-te uma só coisa: lê estas declarações de um Arcebispo do Texas, onde ele nos relata como foi derrotado em votação um projecto de protesto dos bispos americanos contra a pena de morte e afirma: “I am thoroughly convinced that people who commit heinous crimes, such as brutal murder, and other crimes against society, should be made to pay with their most precious possession, their life. Only in this way can the punishment be made to fit crime.” Como vês, a voz da Igreja talvez não seja tão pura e una como a imaginas. E o panorama real da Igreja actuante em locais onde a pena de morte é uma realidade do dia-a-dia, não uma abstracção teórica, talvez não viva na torre de marfim dos catecismos e das encíclicas!
9. Como é lógico, sem um esforço terrível de relativismo não consigo começar sequer a imaginar como é que tirei uma “conclusão diametralmente oposta à verdadeira”. Ratzinger disse o que disse, da forma que disse. E foi só a isso que me referi.

João Garcez

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abril 28, 2005

TEORIA DO RELATIVISMO GERAL

Os nossos liberais descobriram as belezas filosóficas dos dogmas católicos. Vai daí, desataram a entoar, dia após dia, infindáveis hosanas à aparente rigidez mental de Bento XVI, opondo as "verdades eternas", de que este será porta-voz, às malfeitorias desbragadas de uns tais "relativistas". Este perigoso bando inclui, se bem percebi a coisa, toda a gente que ouse, por exemplo, duvidar que as sociedades monoteístas são mais tolerantes que as outras (claro está que os malandros que andam por aí armados em terroristas são todos hindus ou xintoístas...).
Tão embevecidos estão eles com este novo mantra que nem reparam na sua estridente dissonância: haverá entidade mais relativista que a Igreja Católica? As mulheres não servem para padres; mas são santas criaturas. A pedofilia é um crime abjecto, mas não convém denunciá-la. Cristo morreu por todos nós (Rom. 8:32), mas, afinal, só através da "nossa" Igreja se pode chegar à Salvação. As criancinhas merecem toda a protecção, mas até é bem possível que Deus as condene ao Limbo, se morrerem antes de baptizadas. A vida é sagrada, a não ser quando falamos da pena de morte ou de guerras "justas". E por aí adiante, ad nauseam.
Haverá organização – com a possível excepção desta – mais absolutamente convencida da sua própria razão e do erro dos "outros"? Não convém esquecer que o absolutismo também pode ser visto como o doppelganger ignaro e provinciano do relativismo: só o meu ponto de vista tem valor, todos os restantes são erros. Mas, para os nossos supostos liberais, é tudo ao contrário: quem se atreve a duvidar de tão calcificadas certezas é que incorre em grave erro.

João Garcez

Os Blasfemos vão ainda mais longe, quando decretam, à laia de apoio óbvio às teses de Raztinger, que "a verdade é por definição eterna. Se não é eterna não é verdade". Além da longa espera a que tal princípio condena quem quiser testar uma premissa, eles esquecem, por exemplo, que nem sempre a Igreja condenou o aborto nos termos em que o faz hoje. Não temos de recuar até aos dias bíblicos; não precisamos de recordar que S. Agostinho, na sua enorme sageza, declarou que uma alma não pode viver num corpo ainda não formado; basta-nos ver que só no fim do século XIX é que a Igreja Católica deixou de reconhecer a distinção entre fetus animatus e fetus inanimatus, tendo a lei canónica assimilado esta mudança apenas em 1917. Vê-se assim que até a fonte oficial das tais "verdades eternas" tem andado um bocado ao sabor dos ventos, em tão crucial matéria...
E que dizer do relativismo de que Bento XI dá provas, ao aceitar a pena de morte, porque aplicada a um "culpado", enquanto recusa, em qualquer circunstância, o aborto, uma vez que este destrói "inocentes"?
Poderiam explicar ao santo homem que mesmo os EUA, com todas as suas garantias legais, já executaram dezenas de inocentes. Poderiam tentar dizer-lhe que, tal como um feto anencefálico não é um ser humano (e ninguém levaria semelhante gravidez ao termo natural), também um feto só o pode ser quando o seu sistema nervoso central começa a funcionar (podem ler uma análise simplificada deste processo aqui e outra mais técnica aqui).
Mas não ia adiantar. Quem se sabe na posse das tais "verdades eternas" não sente qualquer necessidade de ponderar outros argumentos. É assim que o relativismo se metamorfoseia em absolutismo. Com o "ámen" de muita gente que supostamente defende a liberdade humana.

João Garcez

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abril 27, 2005

O MENTIROSO COMPULSIVO

Paulo Portas, na fracassada cerimónia de passagem de testemunho a Telmo Correia, confessou que a fuga de Durão Barroso para Bruxelas equivaleu a uma sentença de morte para o governo de direita. Nem mais: "o contrato de confiança entre o povo e a maioria caducou nesse dia".
"Hoje podemos dizê-lo", revelou candidamente o paulinho das feiras. De forma implícita, fica claro que "antes" ele não poderia dizer nada de parecido. Na altura dos acontecimentos, mesmo estando já ciente da verdade que hoje admite, andou aos pulos face às câmaras de TV, dedinho acusador sempre em riste, guinchando acusações gravíssimas a Jorge Sampaio: que não havia razões de monta para antecipar eleições, que tal só se compreenderia por aquiescência a pressões da banca.
Sim; foi mesmo isto que ele então afirmou: "dissolver um Parlamento requer fundamentos expressos, objectivados e compreensíveis". Achava ele que a dissolução parlamentar aconteceu "no preciso momento em que o país ganhava estabilidade", tendo claramente decorrido da "pressão de uma parte do sector financeiro dirigida e destinada a conseguir que permaneça um sistema fiscal injusto".
"Hoje podemos dizê-lo". Antes, a mentira era necessária, mesmo que tal passasse por atirar lama ao Presidente. Depois, queixem-se da fraca conta em que os eleitores têm políticos deste calibre. Não que ele se importe com semelhantes minudências. Paulo Portas, com o mesmo sentimento de impunidade absoluta que já o levou a persistir nos passeios de Jaguar em pleno escândalo Moderna/Amostra, vai voltar. Quando a penosa travessia pelo deserto do seu partido estiver com fim à vista, quando a saudade do poder e dos concursos públicos fechados à pressa apertar, ele estará aí de novo. Podem apostar.

João Garcez

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abril 26, 2005

O LIBERALISMO OLHA PARA O 25 DE ABRIL

Incomoda-me encontrar num blogue que até costumo ler com admiração (pela inteligência que por lá habitualmente se espraia) uma baboseira deste calibre. Incomoda-me ainda mais descobrir que uma tal alucinação encontra dezenas de ecos entusiasmados em comentadores que não hesitam em declarar o seu apoio arroubado ao disparate. Pensava eu que a direita liberal do Blasfémias sabia pensar; descubro agora que tem lapsos de acefalia, por sinal aplaudidos com "bravos!" pelos adeptos mais apoucados.
A coisa em apreço é uma lista das malfeitorias cuja responsabilidade podemos atirar para cima das costas largas de um tal "o 25 de Abril". Vão ler, que é uma boa cura para quem lobriga perspicácia nas teses mais liberais que andam a vogar pela nossa blogosfera. A Revolução dos cravos é ali analisada não como um momento de ruptura com um regime anterior mas sim como um regime em si, por sinal nascido ex-nihilo: de nenhum passado negro parece ter emergido e a nada de bom parece ter dado futuro. Ora vamos lá por partes analisar o manifesto revisionista do Blasfemo Rui A.:

João Garcez

"O liberalismo assenta na livre empresa", e o 25 de Abril é culpado de uma vaga de nacionalizações. Imagina-se que os liberais vivessem muito mais felizes na economia rigorosamente vigiada pré-25 de Abril; com monopólios acautelados, planificação implacável, etc. Por outro lado, não deixa de ser curioso que um dos seus governos preferidos em toda a História, o de Pinochet – inspirado e dirigido pelos Chicago Boys - tivesse tratado de nacionalizar, a partir de 83, inúmeros bancos e indústrias, tendo aliás sempre mantido no bolso estatal o lucrativo monopólio do cobre chileno...
"O liberalismo defende a propriedade privada, o 25 de Abril quis acabar com ela." É de um simplismo pré-escolar que dispensa críticas delongadas. Nacionalizar meios de produção estratégicos poderá ter sido algo disparatado; mas nunca foi sinal de uma vontade de liquidar, tout court, o direito à propriedade. Quando escreveu isto, Rui A. devia ter em mente a Coreia do Norte.
"O liberalismo assenta no respeito da propriedade agrária", o 25 de Abril ousou encetar uma reforma agrária. Esta variação do ponto anterior deve aqui ter sido metida apenas para engordar o rol, mas não deixa de ser tocante o respeito que o autor parece dedicar ao mercado cerealífero do Estado Novo, esse modelo de liberalismo.
"O liberalismo é pelo Estado de Direito, o 25 de Abril prendeu sem culpa formada." Pensava eu que mesmo hoje em dia muitas pessoas são detidas sem culpa formada, até antes de entregues a tribunais; mas deve ser só impressão minha. Aliás, por certo que a situação anterior era um paraíso de justiça e lisura de processos.
"O liberalismo é pluralista, o 25 de Abril proibíu (sic) partidos." Alguém se recorda de um partido proibido no dia ou na semana da Revolução? Que, por exemplo, o PDC tenha sido ilegalizado, o que demonstra? Não seria mais correcto escrever que o 25 de Abril aumentou de forma exponencial o pluralismo que por aqui se vivia? Ou será que o autor encontrava mais diversidade ideológica no panorama partidário do Estado Novo e mais pluralismo na ANP?
"O liberalismo é pela liberdade de expressão incondicionada" e o 25 de Abril controlou órgãos de comunicação e até quis (ó blasfémia!) "roubar" a Rádio Renascença. Pois. Está-se mesmo a ver que a situação anterior era bastante "liberal"... Não passará pela cabeça deste senhor que, pese embora todos os excessos, a liberdade de expressão surgiu em Portugal precisamente nesse dia tão sinistro, depois de 48 anos de silêncio?
"O liberalismo defende a escolha democrática dos titulares dos órgãos de soberania, o 25 de Abril tentou «adiar» as eleições constituintes." O 25 de Abril tentou adiar as eleições? Mas que eleições teríamos tido sem a Revolução? Mais um daqueles exercícios bastante democráticos que por cá eram de quando em vez levados à cena com guião pré-determinado, é claro. Coisa "liberal", portanto.
"O liberalismo exige que o Estado seja responsável e o 25 de Abril debandou irresponsavelmente das antigas colónias". Rui A. tenta aqui, de uma penada, esclarecer o que a História ainda não tornou inteligível: debandámos, ou fomos corridos? Cada colónia não terá sido um caso específico? Enfim, para os simplismos liberais, tudo é óbvio e redutível a um soundbite de efeito certo...
"O liberalismo fundamenta-se na legitimidade do poder democrático das instituições, o 25 de Abril impôs-nos o MFA e o Conselho da Revolução." Abrenúncio! O MFA foi "imposto" pelo 25 de Abril, ou impôs a Revolução a um regime de nula legitimidade democrática? E países onde vigore a monarquia estão condenados ao desprezo destes liberais de pacotilha?
"O liberalismo é contra a polícia política, o 25 de Abril criou o COPCON." Ninguém nega que esta estrutura militar foi culpada de actos aberrantes. Agora reduzir os efeitos da Revolução neste campo ao COPCON é esquecer, de propósito, a PIDE, as torturas, os campos, etc. E é insultar a nossa inteligência.

A tese global é clara: o 25 de Abril foi "uma revolução que instituíu (sic) um regime não democrático", não uma revolução que acabou com uma ditadura absoluta que há 48 anos esmagava qualquer veleidade democrática no nosso país. Que os meses subsequentes tenham sido de grande turbulência é, para este blasfemo, o que importa reter do 25 de Abril, não o facto de as liberdades económicas, culturais, políticas, de expressão e até de mercado terem todas renascido nesse dia tão malquisto.
A ilação óbvia? "Não nos parece que a liberdade comemore hoje trinta e um anos de idade. Ela fará trinta anos no próximo dia 25 de Novembro". Estranho: como seria possível o 25 de Novembro sem a Revolução dos cravos? E as tais eleições que o 25 de Abril teria procurado "adiar" não tiveram lugar ainda antes do 25 de Novembro? Mas disto não dá testemunho o atarantado autor... Para ele, foi graças a "Mário Soares, Emídio Guerreiro, Magalhães Mota, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Jaime Neves, Ramalho Eanes, entre muitos outros, que a democracia se impôs em Portugal". Relegado para o triste limbo dos "muitos outros" fica precisamente Melo Antunes, o verdadeiro mentor do 25 de Novembro. Esta chocante falta de gratidão não é, porém, fruto da ignorância histórica confrangedora que atravessa todo o post; é utilitária. Reconhecer o papel de Melo Antunes significaria deixar entrar complexidade na análise, ao dar um papel no bendito 25 de Novembro a um dos autores do abominado 25 de Abril. E complexidade não é coisa que agrade a quem escreve asneiras destas.

João Garcez

PS: Eduardo Lourenço escreveu "poucas vezes se terá visto um movimento militar triunfante, tão desamparado, tão complexado, diante da sua própria audácia, ou simplesmente tão democrático". Quem quiser descobrir algumas pistas sobre estes dias de brasa, sobre este período complexo da nossa História recente, tem muito para onde se virar. Não vale é fazer de conta que o 25 de Abril foi uma realidade homogénea e fácil de descrever em meia dúzia de penadas. Nem vale fazer de conta que o PPD e o CDS foram mesmo a vanguarda na luta contra os desvios extremistas da época. Esse papel coube sim ao PS.

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AVENIDA DA LIBERDADE III

Ontem, fui consumir um prego pré-desfile a uma cervejaria da Avenida pouco dada a feriados comemorativos. De súbito, talvez levada pelo espírito solidário do dia, a velhinha da mesa ao lado desatou a alimentar a pombaria da zona com pedaços de croissant. Em segundos, o ar encheu-se de penas soltas, bicos vorazes, passarada esfaimada sem consideração pela serenidade das refeições alheias.
A páginas tantas, dois dos bicharocos pegaram-se num combate terrível: ele era bicadas, golpes de asa, sei lá. Tudo por um bocado de comida.
Comentário da velhinha: "Párem lá com isso. Vocês não sabem que são símbolos da Paz?"

João Garcez

Afixado por afixe às 10:49 | Afixadelas (7)

abril 25, 2005

AVENIDA DA LIBERDADE II

Mais uma vez, comecei o dia jurando que não ia à manifestação. E mais uma vez acabei o dia garantindo a mim mesmo que para o ano não ponho lá os pés.
Então, foi assim: antecedendo a cabeça da manif, como se impõe, galopavam os "seguranças". A mim, tocou-me dar de caras com um troglodita de bigode estilo piaçaba e cartão ao peito, que berrava “vamos: tudo para o passeio, já!”, enquanto ia desenhando urgentes movimentos de braço com que empurrava os mais lentos. Quando me mantive imóvel à sua frente e lhe disse “olhe que isto são pessoas, não é gado”, mirou-me furibundo, incrédulo por alguém desafiar a sua tão óbvia autoridade de Camarada-de-Cartão-ao-Peito. Se fosse um polícia, teria sacado logo do cacete. A excelente e dúctil matéria-prima de que se faziam os torcionários da PIDE, não duvido.
Atrás dos debilóides gesticulantes da organização, vinha o inefável e crucial “Quadrado”. Para quem nunca viu um dos programas do David Attenborough sobre movimentações de massas organizadas pelo PCP, eu explico: é um polígono móvel, delimitado por um pano, onde apenas entram as Personalidades Importantes. Dentro de cada organização que participa em marchas assim, há lutas intestinas de morte para decidir na véspera quem são os eleitos que terão lugar nesta espécie de “Sala VIP” da manif.
À frente do majestoso Quadrado seguia a Comissão Política do PC em peso, temperada por alguns militares, figuras do PS e o inevitável casal Bárbara-Carrilho, sorrindo para o mundo como estrelas de Hollywood em digressão pela parvónia: entediados mas deslumbrantes malgré tout.
Avenida abaixo, lá se estendeu a procissão do costume. Macambúzios jotinhas, sindicatos mal dispostos, altifalantes barulhentos às resmas, coloridas organizações gay, divertidos okupas do ATTAC e tribos similares, festivos imigrantes. Enfim: tudo normal. Só que tudo em menor escala e mais triste que no ano passado.
Por fim, desaguou o desfile no Rossio. Era chegada a parte política da função. Começou o falatório com uma senhora que berrou em nome da “Comissão Organizadora do 25 de Abril de 2005”, talvez os responsáveis por o calendário não ter passado directamente do dia 24 para o 26. Ela desfiou um rosário de apresentações: ilustre a ilustre, foram enumeradas todas as personalidades que tinham descido a Avenida no nirvana ambulante do Quadrado. Gente de uma tal “Intervenção Democrática”, das “Organizações de Juventude”, de “Movimentos Unitários” de Mulheres, Reformados, Deficientes, Jogadores de Chinquilho e o diabo a sete. Curioso foi que apenas o representante do Bloco de Esquerda não teve direito a ouvir o seu nome citado pela esganiçada de serviço ao altifalante…
Estava dado o tiro de partida para a maratona de discursos. A abrir, uma criatura que gastou à vontade meia hora a debitar lugares-comuns sobre os males do mundo: a globalização, o governo de Durão Barroso, o desrespeito pelos “direitos dos trabalhadores”, uma sinistra “pendente inclinada” da qual urge arrancar Portugal, etc. Enfim: um deprimente bestiário das piores figuras de estilo do agit prop em versão grunha.
Nesta altura, já só os fiéis prestavam atenção aos urradores. O povo deambulava em busca de ginjinhas, Big Macs e lugarzitos sentados. Eu, por sorte e denodo revolucionário, acabei por alcançar estas três magnas conquistas de Abril. Mas, mesmo assim, para o ano não me apanham noutra. Garanto-vos. A sério.

João Garcez

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abril 24, 2005

PRÓTESES

Numa noite em que se deixou adormecer no sofá da sala, ele acorda para ouvir apenas a respiração breve da sua mãe, esgueirando-se por portas e corredores, chegando aos seus ouvidos como um débil testemunho de que tudo está bem. Ainda. Bem.
Três ou quatro da manhã. Hora de atender às vulgares mas prementes exigências do corpo. Ele evita fazer chiar a porta. Empurra com cuidado o interruptor, como que para propiciar uma chegada mais lenta e mitigada da luz.
Mal abre a porta da minúscula casa-de-banho, ele sabe que, ao longo de anos futuros, vai sonhar muitas vezes com aquela imagem. Não que tenha deparado de chofre com um qualquer adereço de pesadelos. Nada disso; afinal, que pode ter de terrível a visão de algo tão banal quanto uma peruca?
Mas o objecto, só em aparência inerte, brilha a seus olhos como o contorno de uma presença invisível, indício demasiado óbvio de um corpo ausente e infeliz. Ele adivinha-se a olhar para o negativo de um rosto, de uma anatomia: desprovidas daquela moldura bem penteada, como sobrevivem as feições da sua mãe? A partir de hoje, ser-lhe-á ainda possível fingir ignorar os danos dos químicos, das radiações, da doença cujo nome ele não deve nunca pronunciar?
A peruca é agora a única parte daquela fisiomia tão familiar que teima em contrariar todas as evidências médicas, mantendo-se sedosa e bela. E está ali, miseravelmente exposta em toda a sua triste elegância, pendurada de uma lata de laca, a aflorar nódoas no armário de fórmica. Dói-lhe não conseguir evitar este pensamento. E recusa-se a encarar o seguinte: no dia em que se despedir da sua mãe para sempre, deixará que a maldita cabeleira a acompanhe, para se manter incorrupta muito depois de tudo o mais ter sido tragado pelos elementos?
Ele desliga a luz e foge. Assustado, assombrado pelo fantasma de alguém que ainda vive. Ainda.

João Garcez

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abril 23, 2005

MEDO DE EXISTIR?

Sou um dos poucos portugueses que ainda não leram o inesperado best-seller "Portugal, Hoje: o Medo de Existir". Confesso que já me apanhei a folhear a coisa num ou dois escaparates. Ainda mais envergonhado, admito que aquilo me pareceu um mero ramalhete de conversas de café sobre a nossa suposta má sina, embrulhado numa prosa manca e pretensiosa. Mas isso é por certo miopia da minha vista, incapaz de admirar o brilho das ideias de um homem eleito pelo "Nouvel Observateur" como um dos 25 grandes pensadores de todo o mundo.
Adiante. Mesmo permanecendo teimoso neste lapso, já consegui beber as sábias palavras do professor, em directo na TSF, por duas ocasiões. Primeiro, numa longa entrevista, ele apresentou alguns vectores do seu pensamento: uma mescla de intuições e conceitos oriundos de vários campos do saber - da sociologia à psicanálise – que até me pareceu interessante.
O pior foi quando ele descreveu um constructo de sua lavra, o "Impensado Vertical" (corrijam-me se apanhei mal a patusca terminologia). Este seria uma espécie de contaminação pela ausência. Sacando de um exemplo: uma família pode suprimir com sucesso todas as referências a um bisavô viciado no jogo; mas, por mais fundo que seja o silêncio assim construído, permanece activo e venenoso o contorno do vício. Vício esse que acabará, provavelmente, por contaminar um descendente, fazendo dele um jogador compulsivo, mesmo que este ignore de todo o insalubre antepassado. Isto ofendeu-me enquanto admirador do irmão Occam: não seria mais simples inferir que muitas inclinações podem ter alicerces hereditários?

João Garcez

Adiante. Há poucos dias, o senhor professor tomou o microfone para dizer de sua justiça sobre as famosas listas de informadores da PIDE que deram agora à costa. Ora segundo José Gil, a depressão colectiva em que nos vê mergulhado radica, em grande parte, no facto de nunca termos lidado de modo definitivo com o fantasma do salazarismo: não houve julgamentos, nem castigo, nem um enterro eficaz daquele passado vergonhoso. Vai daí, andamos todos como o tal bisneto sempre a caminho do casino: tristonhos sem saber porquê, trambolhando em recidivas neuroses, repetentes de vícios mil.
Não querendo gastar os 10,80€ que a FNAC me pede pelo livrinho, peço ajuda a quem por aqui passar. Digam-me: é explicado no opúsculo como se pode acreditar nisto, tendo em conta o caso espanhol? Ali, saíram de uma ditadura ainda mais feroz, ultrapassaram os traumas de uma guerra civil carregada de atrocidades, absorveram todos os herdeiros do franquismo... sem julgamentos, vinganças ou convulsões de maior. E hoje os espanhóis parecem-me infinitamente mais felizes e vitais do que nós. Não dão mostras de qualquer "Medo de Existir".
Terá este aparente paradoxo saída profícua?

João Garcez

Afixado por afixe às 00:06 | Afixadelas (11)

abril 22, 2005

UMA "VAGA DE FUNDO" À IMAGEM DE SANTANA

Ainda em estado de choque pela derrocada que desmoronou o império do glorioso líder, os discípulos de Santana Lopes estrebucham e urram a sua indignação com público estrépito. Agora, é o fabuloso elenco da vereação laranja de Lisboa que salta para os jornais a carpir mágoas pelo afastamento de Santana, esse preclaro estadista sempre incompreendido e maltratado pelas circunstâncias.
Cinco destas criaturas reclamam por não terem sido ouvidas na escolha do próximo candidato do PSD a presidente da CML; parece-lhes impossível que Carmona Rodrigues tenha aceite "o convite de Marques Mendes sem os ter consultado antes"; declaram a sua "dificuldade em perceber como se exclui um candidato que tem sucesso na cidade e porque se escolhe o número dois"; magoam-se com o facto de ser, para Carmona, "completamente indiferente o que pensam os colegas".
O porta-voz desta revolta dos santanóides é Pedro Pinto. Se o nome não vos disser grande coisa, lembrem-se da criatura exaltada que surgiu, na noite das eleições autárquicas, com ar afogueado e vagamente intoxicado, a denunciar uma suposta "chapelada" com que a esquerda estava quase a roubar as eleições alfacinhas. Depois de se lembrarem deste triste episódio, talvez entendam melhor a escassa atenção que o prof. Carmona Rodrigues parece dedicar às lucubrações de semelhantes alminhas.

João Garcez

Afixado por afixe às 17:29 | Afixadelas (1)

QUEM PARTE E REPARTE...

Seguem em bom ritmo as negociações entre o PS e o PCP para o estabelecimento de uma coligação eleitoral em Lisboa. Nos entrementes, o Bloco lá continua à espera do desenlace que vai condicionar a sua estratégia autárquica na capital.
A última proposta do PCP, no que toca à proporção de vereadores, é sintomática da boa vontade que impera na Soeiro Pereira Gomes: 6 para o PS, 4 para o PCP... e o que eventualmente sobrasse seria equitativamente dividido entre o BE e os Verdes. Coisa justa e natural, sobretudo tendo em vista as últimas eleições no concelho de Lisboa: sabendo que o Bloco teve mais votos que o PCP, este partido quer atribuir aos "concorrentes" peso igual ao dos fictícios Verdes...
Com camaradas assim, quem precisa de inimigos?

João Garcez

Afixado por afixe às 16:57 | Afixadelas (2)

SACRIFIQUEM-SE, IRMÃOS!

Contra a infestação de bichas que ameaça corromper a nossa bela sociedade ocidental, a Igreja Católica vai resistir. Sacrificando, se preciso for, os vossos empregos.
Isto é, por outras palavras, o que o prefeito do Conselho para a Família, o cardeal Alfonso López Trujillo, recomenda aos notários espanhóis: recusem-se a oficiar casamentos entre homossexuais, mesmo que tal resistência vos custe o ganha-pão.
Assim sendo, vamos todos combater, com sangue, suor e lágrimas alheias, esta "estranha ideia da modernidade" que ignora que "a família é um dom recíproco entre homem e mulher". Quem tal afirma, relembre-se, é um velho celibatário que passou toda a sua vida numa instituição que proÍbe aos seus membros a fruição desse sacrossanto "dom".
Os acossados pela tal "modernidade" não perderam tempo, agora que pressentem a rédea completamente solta.

João Garcez

Afixado por afixe às 15:53 | Afixadelas (3)

abril 21, 2005

EGO SUM PAPA?

No exacto segundo em que vi, quase em directo, as primeiras imagens do celebrado fumo branco jorrando às golfadas da chaminé com que enfeiaram a Capela Sistina, o meu telefone tocou. No sobressalto, tive uma daquelas alucinações instântaneas que por vezes tomam ilusoriamente o lugar de premonições. Imaginei-me a ouvir uma voz italiana anunciando-me que o Espírito Santo transmitira o meu nome, morada e número de telefone aos cardeais encerrados em conclave. Isso mesmo: o mensageiro do Altíssimo acabara de lhes recomendar, aliás em tom bastante autoritário, que me entregassem a cadeira de S. Pedro. Sabendo eu que qualquer baptizado poderia ser o escolhido, logo me imaginei no embaraço de ter de retorquir que não me interessava o lugar. Ou, faltando-me coragem para tanto, de ter de escolher um nome pleno de ressonâncias místicas e heróicas, assim coisa à altura da ocasião: "Cornélio II" ou "Adeodato III" seriam opções aceitáveis? Depois, ponderei a magna questão: estará a Igreja preparada para um Papa cheio de vontade de ressuscitar as belas tradições de Alexandre VI, também conhecido como Rodrigo Borgia?
Não fosse o Diabo tecê-las, não atendi o telefone.

João Garcez

Afixado por afixe às 18:25 | Afixadelas (7)

abril 20, 2005

A HORA DO DEMO?

Não se entende o espanto alarmado e os clamores que emergem das alas mais “progressistas” na Igreja Católica. Afinal, Ratzinger - “O Gendarme do Papa” ou “A Marreta de Deus”, entre outros cognomes de similar jaez - já era Papa de facto há muitos anos. Era o rosto visível e a voz audível do verdadeiro espírito do pontificado de João Paulo II. Desmentindo a afabilidade conciliadora do Papa, era fácil ouvir, entre os ecos dos corredores do Vaticano, o gume sempre definitivo das sentenças de Raztinger.
Quando o chefe cantava loas ao Vaticano II, o acólito apontava este concílio como raiz de muitos dos males da Igreja. Enquanto exóticas viagens papais espalhavam hosanas ao ecumenismo, o bom cardeal acusava as religiões não-cristãs de servirem o Diabo, reafirmava que a Salvação só pode passar por Jesus e menosprezava as outras igrejas cristãs. Quando João Paulo II pediu desculpas pelos crimes dos padres pedófilos, o “príncipe negro” da Santa Sé tratou de afastar dos ouvidos do público histórias que pudessem comprometer a santidade dos púlpitos...
Julgam que exagero? Olhem que não.
No já distante dia 7 de Novembro de 1984, o “El Pais” publicou uma longa entrevista a Joseph Ratzinger. Nesta, o homem que até há pouco foi a segunda autoridade individual da Igreja Católica em assuntos de doutrina revelou claramente o seu pensamento sobre as consequências do Vaticano II: "os resultados foram totalmente opostos às esperanças de todos nós. Desejávamos uma renovada união Católica e os resultados têm sido um padrão de autocrítica com a autodestruição por destino. Esperávamos um novo entusiasmo e os resultados têm sido desânimo e tédio.” Em resumo, este período pós-concílio teria sido “decididamente negativo para a Igreja Católica”.
Há quase 25 anos, este homem já se imaginava cercado por todos os males do Mundo: já então procurava formar bispos “capazes de se opor com força às mundanas tendências materialistas. Pois ignora totalmente a natureza da Igreja e a natureza do mundo aquele que acredita que os dois se podem encontrar sem conflito ou que se podem de alguma forma misturar.” Vai daí, urgia combater “as muitas tendências culturais mundanas adoptadas pela euforia pós-conciliar”.
Não há como negar que esta visão da Igreja como um quisto no seio do mundo tem o seu quê de medieval; mas todos a ouvimos repetida, há uns dias, pela boca do próprio, quando o então-candidato-mas-já-quase-Papa traçou o perfil ideal do futuro ocupante da cadeira de Pedro; perfil esse que lhe assentava como uma modesta luva, devemos convir...

João Garcez

Mas há mais: ainda nessa entrevista de 1984, Ratzinger insinuou que muitas religiões não-cristãs estão ao serviço de Satã: “após o Concílio, o seu valor foi exagerado; que o paganismo seja pintado como sereno e inocente é uma das ilusões do nosso tempo. De facto, existe a presença activa do Diabo; e desta só Cristo nos pode libertar. Por tal razão, devemos continuar a pregar o Cristianismo a estas religiões não-cristãs que são, em muitos casos, reinos do terror”.
É um conceito de diálogo inter-religioso algo diferente do apregoado por João Paulo II, não é? Nem valerá a pena citar o documento “Dominus Iesus”, publicado em 2000 pela poderosa Congregação a que Raztinger presidia. Aqui, tratava-se de diligentemente afastar e insultar todas as outras igrejas cristãs, diminuindo-as na sua validade e ligação a Cristo e proibindo todos os pastores de continuar a usar a expressão “igrejas irmãs”.
Querem mais? Lembrem-se então, por favor, de um escândalo recente: a reafirmação, por parte do Vaticano, do segredo a que os bispos estão obrigados em casos de abuso sexual. Ameaçando com a expulsão do seio da Madre Igreja todos aqueles que não fizerem tudo para abafar histórias comprometedoras, recomendando mesmo que vítimas e testemunhas assinem compromissos de silêncio. Este documento ignóbil - 'Crimine solicitationies' de seu nome - data de 1962; mas em 2001 todos os bispos receberam uma carta lembrando-os de que os preceitos ali delineados continuavam a ser lei para a Igreja que temos. Quem assinou esta linda missiva? Adivinharam: Joseph Ratzinger.

Vaticano II? Ecumenismo? Transparência? Abertura ao Mundo? Esqueçam.
Esta é a era das trevas, onde só há devoção para “santos” como Escrivá e santuários para crendices da laia de Fátima. Soou a hora da tomada do poder absoluto por parte dos anjos negros do catolicismo, começando pela Opus Dei. O resto são lérias e sonh